Uma das cidades que eu mais queria conhecer era definitivamente Amsterdam. Ouvi de inúmeras pessoas, tanto no Brasil quanto na Suíça, que eu tinha que ir, que era lindo e blá blá blá. E parecia lindo mesmo. Eu tinha que ir. Já estava esperando ter que reservar uma boa grana para essa viagem, já que era muito longe para ir de trem e os voos eram sempre caros. Acontece que nas minhas pesquisas na internet, nos sites da Bahn e da SBB, eu acabei descobrindo sem querer que algumas passagens de trem noturno, ao contrário do que eu já tinha visto, podem ser muito muito baratas. No site da SBB, nem sempre esses trens noturnos tem os preços disponíveis, aí você tem que solicitar por email, ligar para lá ou ir a um guichê, o que, muitas vezes, desestimula um pouco. Mas, para a minha surpresa, as passagens para Amsterdam estavam lá, baratérrimas e super prontas para serem compradas. O preço do trem noturno era 40 francos o trecho, preço que pagamos para ir a Genebra, a três horas de distância! O compartimento era um tal de sleeperette que até então eu não conhecia, mas, pelo nome e pelo que tinha visto na internet, devia ser mais confortável do que o assento normal.
Eu estava super ansiosa pela primeira viagem de trem noturno. Muitas pessoas disseram que era horrível, mas pelo preço valia a pena. Afinal, nenhuma passagem aérea para Amsterdam saindo de Zürich chegava nem perto daquele valor. E eu prefiro evitar avião sempre que posso. Além disso, eu queria conferir como era o trem noturno e ter a minha própria opinião. Tentaria ao máximo dar asas ao meu espírito aventureiro. E os horários foram ótimos para nós - partiríamos na sexta à noite de Zürich, chegando em Amsterdam sábado de manhã. A volta seria domingo à noite, chegando em Zürich na segunda de manhã, a tempo de ir trabalhar.
Obviamente, a gente preferiria ter tido mais tempo na cidade, mas não se pode ter tudo. Na verdade, passear pela Amsterdam turística nem requer tanto tempo assim, mas a cidade é cheia de museus muito interessantes e cada um deles com uma fila de umas duas horas de duração. Para nós, restaria escolher apenas um e deixar os demais para uma próxima vez. Mas isso já é bem normal nas nossas viagens, muitas vezes curtas. Normalmente, eu dou preferência a conhecer a cidade e aí os museus ficam em segundo plano, principalmente porque normalmente exigem um tempo precioso na fila e nem sempre a opção de reservar o ticket online está disponível e, quando está, nem sempre te livra da fila. Com isso, estamos com uma lista enorme de cidades que "temos que voltar um dia".
Quando finalmente chegou o dia da viagem, chegamos com certa antecedência a estação, levando uma mala pequena e uma mochila com comida. Afinal, passaríamos a noite no trem e não queríamos depender do restaurante dentro do trem, que às vezes é um fiasco. O trem era um antigão da Bahn e, para nossa desagradável surpresa, o nosso "sleeperette" era uma cabine, daquelas que cabem seis pessoas. O banco tinha um ângulo de 90° entre o assento e o encosto e não reclinava nem um centímetro. Rezamos para ficarmos sozinhos na cabine ou dormir seria impossível. Mas não ficamos. Na primeira estação depois de Zürich, entrou uma senhora bem simpática e, algumas estações depois, um jovem de uns dois metros de altura. Um pouco depois das onze da noite, chegou mais um casal e a cabine estava lotada. Aquilo me deixou um pouco estressada, porque imaginei que nosso dia em Amsterdam seria extremamente cansativo se eu não dormisse. A nossa sorte foi que o tal casal saiu e não voltou mais, na certa encontraram um lugar melhor e vazio. Daí, como a senhora e o altão estavam super acomodados e dormindo em seus assentos, sobraram dois espaços para mim e dois pro Dani. Consegui dar uma semi-deitada e dormir um pouco. Por volta das cinco da manhã, a cabine esvaziou e ficamos apenas nós dois. Tivemos, então, mais três horas de sono.

O trem chegou em Amsterdam às oito da manhã. O tram para o hotel partia exatamente da frente da estação e nos deixava, em menos de vinte minutos, exatamente na frente do hotel. A gente comprou um ticket de 24 horas, o que valia mais a pena no nosso caso. O ticket é comprado em um guichê dentro do tram, tipo o "nosso" trocador mesmo e, aparentemente, é comum que os atendentes falem inglês. É preciso passar o bilhete em uma maquininha dentro do tram na entrada e na saída ou o bilhete perde a validade.
O nosso hotel não era tão perto do centro como gostaríamos. Eu preferiria estar a uma distância 'caminhável', mas digamos que estávamos perfeitamente conectados com a linha de tram e chegávamos bem rápido a quase todos os pontos turísticos. Tudo isso porque o hotel, que não era lá muito barato, foi o mais barato que conseguimos reservar. Os outros hotéis, mais próximos ao centro, eram muito mais caros ou tinham apenas quartos compartilhados. Não sei se os preços são sempre assim ou se ficam muito mais caros no verão. De qualquer forma, o hotel escolhido - Student Hotel - era ótimo, muito grande, moderno e limpo. Achei interessante que o hotel tem condições especiais para estudantes que vivem lá, então, a atmosfera do lugar é extremamente jovial.
Depois de deixar nossa bagagem no depósito do hotel, já que o horário do check-in era um pouco mais tarde, pegamos novamente o tram em direção ao centro. Nossa primeira parada foi para tomar um café e comer um sanduíche, estávamos famintos. Daí já percebemos que os hotéis são caros, mas a comida é relativamente acessível ou, pelo menos, é possível encontrar opções baratas. Depois dali, pegamos o mesmo tram de novo e seguimos até a praça Dam, que seria o nosso ponto de partida para os outros lugares.

A praça Dam é a principal de Amsterdam e fica relativamente perto de tudo. Caso passear faça parte do programa, é possível percorrer a maioria das atrações turísticas andando mesmo. E, especialmente em Amsterdam, vale muito a pena, porque os canais circundados por flores e árvores e com prédios lindos em volta são uma das marcas da cidade. Fomos andando pela beira de um canal até a praça dos museus, a Museumplein, onde ficam três dos principais museus de Amsterdam - o Rijksmuseum, o Stedelijk Museum e o Van Gogh Museum. O Rijksmuseum, ou museu do estado,tem lugar em um prédio lindíssimo, e abriga uma coleção de obras de arte holandesa e mundial; o Stedelijk Museum é o Museu de Arte Moderna e o do Van Gogh o próprio nome já diz. É nessa praça, bem no centro dos museus que fica aquele famoso letreiro de Amsterdam "Iamsterdam", lotado de gente querendo tirar fotos. Eu e Dani, depois de uma noite muito mal dormida, éramos as pessoas menos fotogênicas do planeta. Do outro lado da praça, de frente para o Rijksmuseum, está o belo prédio da Filarmônica de Amsterdam, o Concertgebouw.






Depois da praça dos museus, caminhamos até o famoso mercado de rua Albert Cuyp, bem perto dali, na rua de mesmo nome. É um mercado de rua enorme e ótimo para compras: preço bom e tem de tudo, desde queijos, peixes, temperos e vegetais até roupas e sapatos! Demos uma voltinha ali e eu consegui inclusive comprar uma calça. De lá, seguimos até a praça Rembrandt, almoçamos e continuamos passeando por entre os canais e tentando seguir o mapa.
Passamos finalmente pelo famoso distrito da luz vermelha, cuja principal rua é paralela a uma outra rua cheia de coffee-shops. As duas ruas estavam bem movimentadas durante o dia, mas estávamos curiosos pelas tais prostitutas na vitrine à noite. A gente até via algumas àquela hora, mas à noite é que a coisa fica mais popular, cheia de gente e super iluminada.
E naquele resto de dia, a gente meio que caminhou bastante pelas ruazinhas e pelos canais e andamos também nas margens do rio que passa perto da estação de trem principal de Amsterdam, Amsterdam Centraal. O prédio da estação principal é muito lindo. Quando chegamos, nem demos a devida atenção a isso, porque estávamos cheios de mala e doidos para deixá-las no hotel. Do lado da estação principal também tem o maior estacionamento de bicicletas que já vi.















De fato, não é a toa que a cidade tem essa fama de ser tão associada às bicicletas. As pessoas por lá realmente parecem usar as bicicletas como meio de transporte mais do que em qualquer outro lugar que eu já tenha visitado. E, claro, as ciclovias estão por todos os lados. Tive a impressão de que os ciclistas tem preferência em quase todas as situações e eu tinha quase certeza de que seria atropelada antes de irmos embora. Achei maravilhoso conhecer um lugar onde as pessoas realmente podem usar a bicicleta e usam! Mas devo confessar que me senti extremamente insegura muitas vezes, porque muitos ciclistas são impacientes e andam em alta velocidade nas ciclovias. Eles não parecem se preocupar de forma alguma com os pedestres. Não são todos, lógico, mas muitos. Daí fiquei meio com birra disso. Tinha também um pessoal que vinha numa espécie de bicicleta-moto, talvez fosse uma bicicleta elétrica, mas parecia mais uma moto.
Para mencionar outra coisa sustentável que a gente via com certa frequência em Amsterdam, pontos para carregar carros elétricos estão espalhados pela cidade e, frequentemente, estavam sendo usados. Achei muito legal ver que as pessoas ali compraram mesmo a ideia Eu ainda não tinha me atentado a isso em nenhuma outra cidade. Talvez por ali o hábito tenha realmente pegado.


Continuando nossa caminhada e seguindo o mapa, fomos a procura do Begijnhof, que era uma espécie de antigo santuário onde viviam mulheres de uma irmandade católica, que não eram freiras, mas viviam como tal. A entrada para o local fica completamente disfarçado em uma praça, em meio a muita confusão de cidade grande. A gente seguiu criteriosamente o mapa e não achávamos de jeito nenhum. Na verdade, embora seja grande por dentro, a entrada é uma porta no meio de muitas outras em volta, com o nome do lugar escrito em cima bem camuflado. Honestamente, não tinha nada demais lá dentro, além de um pátio comum circundado por muitas casas bem ao estilo Amsterdam e uma capelinha. Talvez o mais interessante do lugar seja a sua história, que data desde o século XIV!
Quando finalmente já era noite, voltamos ao tal distrito da luz vermelha e a rua tinha virado um bloco de carnaval de tanta gente, completamente lotada! A gente tinha que andar em fila com as outras pessoas, bem devagarzinho. A essa altura, já havia várias prostitutas, algumas se exibindo e outras, mais blasés, mexendo no celular ou desviando os olhos. É proibido tirar fotografias e o escândalo que elas fazem quando flagram alguém tentando é tão grande que só vale a pena se estiver realmente interessado. Ao longo da mesma rua, tinha um museu da prostituição, lojas vendendo utensílios eróticos e muitas casas de shows com nudez e sexo ao vivo, com filas enormes na porta. Em Amsterdam, existe ainda o museu do sexo, mas fica mais perto da Praça Dam.
A gente matou a nossa curiosidade de conhecer o tão falado bairro, mas logo saímos da muvuca. Já ficava bem tarde e a nossa energia começava a acabar. Comemos uma pizza deliciosa em uma das inúmeras ruazinhas e voltamos para o hotel.
O dia seguinte fez uma manhã fria e chuvosa, o que nos deixou bem aborrecidos, já que só teríamos aqueles dois dias em Amsterdam. Nossa sorte foi que tínhamos deixado aquele dia para ir ao museu da nossa escolha. E a nossa escolha não foi talvez a mais convencional para pessoas que amam museus. A gente decidiu ir a casa de Anne Frank. Essa casa é um dos principais pontos turísticos de Amsterdam e eu tinha muita vontade de conhecer.
Acontece que, embora eu soubesse que era possível comprar tickets online no site oficial, eu deixei para comprar nos últimos dias, achei que ficassem disponíveis sempre. Mas parece que não é assim. Não sei se os ingressos para a compra online tinham se esgotado ou se simplesmente só ficam disponíveis com um pouco mais de antecedência. O fato é que não consegui comprá-los antes e tivemos que enfrentar mesmo a fila. Como o tempo não estava nem um pouco amigável, a gente ficou menos aborrecido com as quase três horas passadas na fila. Acho que a questão é a casa não ser muito grande e ter corredores e escadas muito estreitos. Por causa disso, eles devem ter um número relativamente pequeno e limitado de pessoas por vez a entrarem lá.

Bem, e embora eu não tenha conhecido os outros museus, não me arrependi nada da minha escolha. A visita a casa de Anne Frank foi super interessante e eu certamente recomendo. Muito triste também, devo dizer. O edifício conserva o anexo onde Anne Frank, de família judia, escondeu-se com sua família e alguns amigos por dois anos durante o holocausto. O local foi ameaçado de demolição depois do fim da guerra, mas por pressão da opinião pública e pelo esforço do pai de Anne Frank, único sobrevivente entre os moradores do anexo, acabou se transformando em um museu. É muito difícil passar por ali sem sair com um nó na garganta, o "museu" conta a sua própria história e, em cada cômodo, havia ainda vestígios dos dois anos de reclusão daquelas pessoas.
Saímos de lá meio passados e fomos enfrentar a chuva e o frio. Fomos obrigados a almoçar em dado momento porque chovia tanto que era impossível andar na rua confortavelmente. Acabamos entrando no primeiro restaurante que apareceu - um asiático. Realmente nesse dia os passeios ficaram bem prejudicados, ficávamos a todo momento procurando lugares fechados, porque chovia muito - pareciam até tempestades tropicais. Pensamos em aproveitar o dia "perdido" para visitar algum outro museu, mas as filas estavam absurdamente gigantescas (como era de se esperar, especialmente em um dia chuvoso) e ficamos com medo de nos apertarmos com o horário de pegar o trem de volta.

Assim nossa tarde de domingo chuvoso em Amsterdam um tanto frustrante, passeando e parando em algum restaurante quando a chuva apertava. No fim, eu começava a ficar preocupada com a volta, com aquele banco desconfortável de novo, em não conseguir dormir e ir pro trabalho sem forças. Voltamos para o hotel apenas para pegar a bagagem que tinha ficado guardada lá e fomos para a estação. Na plataforma, conhecemos umas japonesas que tinham conseguido comprar passagens numa cabine com quatro beliches por 25 Euros cada pessoa! E eu achando que tinha me dado super bem com os quarenta francos naquele assento horroroso.
Mas pelo menos na volta o assento era diferente. Era, na verdade, o que eu esperava de um sleeperette. Não sei porque na ida não tivemos aqueles lugares, talvez porque o trem fosse mais antigo. O fato era que esse assento de fato reclinava bastante e com certeza seria bem mais confortável do que o outro. Aquilo me deixou um pouco mais aliviada. Mas mesmo assim a noite de "sono" foi infernal, com tanta gente entrando e saindo a todo momento. Acho que consegui dormir mesmo a partir de umas três da manhã.
E mesmo não tendo curtido muito as noites no trem, acho que vale muito a pena quando se consegue um preço bom como esse. Ficamos em Amsterdam dois dias inteiros e pagamos apenas uma diária de hotel. Além disso, não costumo ver bons preços de voo de Zürich a Amsterdam e talvez se não fosse essa promoção do trem, essa viagem ficasse inviável. Então, de certa forma, confortável ou não, essa era a nossa chance de conhecer Amsterdam, era pegar ou largar.