Nós, que iríamos embora no início de outubro e decidimos aos 48 minutos do segundo tempo solicitar um prolongamento, precisávamos urgentemente encontrar de novo um apartamento para ficarmos de outubro até o fim de janeiro.
Solicitar o prolongamento é bem burocrático como tudo por aqui. A coisa mais rápida, por incrível que pareça, foi a aprovação da Capes. No fim das contas, tivemos a resposta final no início de setembro e até lá não podíamos fechar negócio com nenhum apartamento, mesmo sabendo que havia quase 100%de chance de conseguirmos ficar.
Mas eu já tinha começado a procurar antes para que tivesse umas cartas na manga. É muito difícil conseguir um apartamento mobiliado pelo preço que você pode pagar e que te sirva pelo tempo que precisa. As pessoas dificilmente querem alugar um apartamento apenas por quatro meses. A gente até abriu mão de ser mobiliado, porque se o preço fosse muito bom, compensaria comprar umas coisinhas no Ikea a preço de banana, ainda mais considerando-se que a cozinha já tem normalmente fogão e geladeira. Eram só quatro meses e a gente não precisava realmente de muito. Era uma opção um tanto desesperada, mas era uma opção.
Mas aí veio o primeiro (e único) apartamento não mobiliado que visitei. Era um apartamento de três quartos, completamente vazio, por um preço inacreditável de barato. E estava no papo! Eles tinham vários apartamentos na mesma situação e precisavam alugar. A explicação era que o prédio seria demolido depois, o contrato era por um período curto e, por isso, o preço tão baixo. Aqui em Zürich tem muito disso, desses aluguéis pré-demolição. Acaba sendo uma opção bem barata. Mas a ideia veio por água abaixo quando a gente se tocou que, nesse caso, não teríamos um contrato de internet. Isso faz muita diferença para nós, não apenas por causa do trabalho, mas pelo fato de estarmos sozinhos por aqui e a internet ser a nossa forma de conexão com as pessoas no Brasil. Não dava para abrir mão. Fazer um contrato novo seria impossível, porque o mínimo que pedem é sempre um ano. Então, caiu a ideia do apartamento não mobiliado, porque certamente, todos teriam o mesmo problema.
Depois desse, visitei um outro muito bem localizado, no alto de um morrinho bem ao lado do lago, numa das partes mais disputadas de Zürich. Estava super animada com esse, porque, embora o preço estivesse no limite máximo do que eu queria pagar, a gente ficaria em um lugar bem bacana. É verdade que o prédio parecia bem antigo pelas fotos, mas nem me importei com isso, afinal, Zürich tem vários prédios assim, bem antigos, mas reformados por dentro. Acho até bem charmoso. Mas não era o caso. Foi até engraçado. Um senhorzinho, pai da moradora do apartamento e dono do prédio, veio me mostrar o lugar. O edifício não era apenas antigo por fora. Por dentro, as escadas que levavam aos apartamentos eram de madeira e rangiam assustadoramente. Tudo era bem velho. A entrada era pela cozinha, onde havia um fogão a gás (o primeiro que vi em Zürich). Havia um toalete apenas com pia e privada logo do lado da cozinha. Depois da cozinha, havia um corredor, com uma extensa parte aberta em um dos lados, coberta por uma cortina, para a entrada do... banheiro! Sim, do banheiro! Na verdade, uma pia e uma banheira muito muito velha. Não havia porta para aquele espaço, ele era simplesmente um buraco no meio do corredor, separado do próprio corredor por uma cortina. Achei aquilo bem estranho. Para completar, não havia água quente na pia, o que pode ser bem complicado durante o inverno. O apartamento era todo desnivelado, com diferentes pés direitos. Os outros cômodos seguiam-se uns aos outros, de modo que os dois quartos se comunicavam. O quarto lá do final, tinha uma porta de saída inutilizada. Ele devia ser originalmente a entrada principal do apartamento. Como não podia deixar de ser em um lugar tão antigo e aparentemente mal conservado, havia um certo cheiro de mofo no ar. O apartamento era bem grande, mas precisava urgentemente de um restauração. Acho que foi o único de todos que vi em Zürich ( e olha que foram muitos, muitos mesmo) que não me despertou vontade de morar.
Havia um outro prédio do lado que também pertencia ao senhorzinho, com um sótão onde era possível pendurar as roupas para secar e um terraço de uso comum aos moradores com uma vista espetacular do lago. Talvez se os custos não fossem tão altos (ainda por cima, todas as outras contas não estavam incluídas no aluguel), eu poderia esquecer os problemas da casa. Mas estava muito caro para o que tinha a oferecer e, além disso, eu tinha uma outra opção em vista que parecia muito mais certeira.
E essa opção ficava em Urdorf. Urdorf fica a dez minutos de trem da estação principal de Zürich, mas, na verdade, trata-se de uma cidadezinha vizinha. A gente sempre evitava visitar apartamentos fora da zona central, porque isso encarece o ticket mensal para o transporte, mas, na verdade, depois percebemos, nem encarece tanto assim e o aluguel costuma ser ligeiramente mais barato. O apartamento parecia ser bacana pelas fotos, então, resolvemos tirar a sorte.
Muitas pessoas que trabalham em Zürich preferem morar em cidades próximas para fugir da "loucura" da cidade grande (Sim, o povo daqui acha Zürich, com seus aproximadamente 400 mil habitantes, uma loucura). Eu achei que seria até uma boa experiência para nós. Urdorf é bem pequenininha, no meio de um vale, do lado de Uetliberg. A cidade é cercada por morros cobertos por vegetação. De longe a gente pode ver extensas áreas de plantação - estávamos de verdade no campo! E o apartamento, no meio do caminho entre a estação de trem e a praça principal da cidade (que na verdade nada mais é do que uma curva), era muito aconchegante. Posso afirmar que foi o meu apartamento preferido de todos. Eu tinha amado o anterior, na parte urbana, mas como ficamos lá apenas um mês, com um dos quartos trancados e todas as coisas das moradoras por lá, a gente não se sentia de verdade em casa. Parecia que estávamos mesmo como visita. Mas em Urdorf não seria assim.
O prédio era um prediozinho pequeno, antigo e reformado, cercado por jardins, com uma sala grande com um sofá enorme e uma varanda, dois quartos e uma cozinha quadradinha toda equipada. Eu falo quadradinha porque cozinhas pequenas normalmente são estreitas como corredores. Essa era pequena mas quadrada, com espaço suficiente para eu e Dani circularmos ao mesmo tempo e uma janela grande na frente da pia. Eu me senti muito confortável ali. Além disso, o casal italiano que nos alugaria o apartamento era muito simpático. Quando finalmente nos mudamos, eu estava super feliz. Não só tínhamos um apartamento bacana, por um preço ótimo, como poderíamos ficar ali até o fim da nossa estadia aqui na Suíça. A gente já tinha começado a aceitar a ideia de que ficaríamos pulando de um lugar a outro durante esses quatro meses, até que esse lugar apareceu.
Assim que chegamos, organizamos nossa bagunça e fomos dar uma passeada pelas redondezas para reconhecimento do local. Como Urdorf é uma cidade diferente, embora colada em Zürich, há algumas pequenas diferenças. Por exemplo, no nosso prédio, há um latão específico para jogarmos papelão. Isso me economiza a preocupação de ter que lembrar do tal do dia do papelão! Agora, quando os papelões começarem a me encher, é só levá-los até lá, em qualquer dia. Além disso, não podíamos mais usar o Züri-sac, mas sim o saco similar de Urdorf. E a melhor de todas as notícias foi que a conta do plano de saúde diminuiu um bocadinho. Não foi muito, mas qualquer economia é sempre bem vinda.
Depois de nos mudarmos, uma foto nossa, tirada no escritório onde assinamos o contrato, foi pendurada no mural do prédio, com os nossos nomes e o tempo em que estaríamos ali, para que os vizinhos soubessem da nossa vinda para o apartamento.
Já no primeiro dia, ficamos um pouco preocupados com o silêncio da vizinhança. Não que a gente seja barulhento, pelo contrário. Mas eu naturalmente falo alto e gostamos de escutar música com frequência também. Naquele silêncio, parecia que qualquer ruído era um estrondo. Só que essa impressão não se sustentou por nem uma semana. Logo percebemos que nossos vizinhos italianos (espalhados por toda a parte) eram na verdade barulhentos o suficiente para nos ofuscar. Daí a gente ficou mais relaxado.
Ainda no primeiro dia, a gente foi também tentar descobrir onde ficavam os supermercados mais próximos, farmácia, lugares para caminhadas etc. Embora a cidade seja minúscula, a gente conseguiu se perder bastante para achar o mercado. De acordo com o mapa, deveria ser bem próximo de nós, mas demos uma volta ao mundo para conseguir achá-lo. O prédio onde fica o supermercado e todas as lojinhas da cidade estava em obras e, por isso, meio escondido. O Migros lá dentro estava numa área provisória, cheia de tapumes. Um pouco adiante, havia também um Spar, uma agência do Post e uma agência bancária ZKB. E caso quiséssemos um Migros maior ou outras opções de mercado, ficava a uma caminhada de quinze minutos, em Schlieren.
Bem do outro lado da rua onde ficava o Migros, havia uma enorme área verde com várias rotas para caminhada. E outras alternativas não faltavam. Atrás da estação, havia a entrada para Uetliberg e um Vitaparcours. O Vitaparcours é como um "programa de exercícios" ao ar livre. Eles colocam ao longo da floresta alguns "aparelhos" e uma placa com as instruções de como executar aquele exercício. Assim, a ideia é a pessoa ir caminhando ou correndo e parar em cada ponto de exercício. Acho bem bacana, porque pode ser meio chato ficar simplesmente fazendo mil sequências de exercício, mas assim andando um pouquinho e fazendo um pouquinho fica mais fácil. É bem verdade que são exercícios meio bobinhos, estilo aquecimento, mas não deixa de estimular as pessoas a tentarem alternativas mais saudáveis, além de valorizar o contato com a natureza.
O próximo passo em Urdorf seria o registro. Na Suíça, toda vez que a pessoa se muda, precisa se registrar no escritório distrital do seu novo bairro. Ou mesmo que seja no mesmo bairro, é preciso informar a troca de endereço. E, é lógico, você paga por isso. Normalmente, há um prazo para comunicar a mudança. Quando ficamos um mês na Kreis 5, não informamos a mudança, mas para Urdorf, seria necessário. Eu achava que o procedimento seria o mesmo dentro do mesmo cantão, mas na verdade foi um pouco diferente. Quando cheguei ao Gemeinde (uma espécie de prefeitura) de Urdorf com toda a papelada que eu já imaginava que seria necessária, perdi a viagem. Antes de me registrar em Urdorf, eu precisava voltar ao escritório distrital de Zürich e avisar que estaria me mudando de cidade. Então, eles me dariam uma carta que o gemeinde usaria para efetuar o meu registro. Além disso, eles me pediram também uma cópia das nossas certidões de nascimento traduzidas para o alemão. Eu quase caí para trás, considerando que nem no Brasil preciso da certidão de nascimento. Felizmente, eles aceitaram a certidão de casamento e, felizmente, a gente tinha guardada a tradução para o alemão utilizada para solicitar o visto. Achei curioso que em Zürich, ali do lado, a gente não tinha precisado de nada daquilo. Afinal, a gente estava devidamente registrado na imigração e no cantão. Mas depois de um trabalho, de umas duas idas ao Gemeinde em vão e de setenta francos, estávamos registrados.
Logo no nosso primeiro fim de semana em Urdorf, houve uma festinha na cidade, em frente a "praça" principal. Montaram um parque de diversões e muitas barraquinhas de comida. Parecia ser um grande evento na cidade. Resolvemos dar uma passada para ver como era e a cidade inteira devia estar por ali. Não ficamos muito, estávamos apenas curiosos. Comemos um bolo em uma das barraquinhas e caminhamos de volta para casa. Segundo ouvi dizer, esse tipo de festa é muito comum nessas cidades menores e é, de fato, um grande acontecimento, principalmente para as crianças e os adolescentes.
Após um mês de experiência, eu fiquei muito satisfeita com a nossa vida em Urdorf. Há muito tempo que eu venho falando de viver em uma cidade pequena e ter essa oportunidade na Suíça superou todas as minhas expectativas. Se em muitos lugares no Brasil, diz-se que a qualidade de vida em uma cidade pequena é muito melhor, Urdorf deve ser o paraíso então. Fora todo o verde em volta e toda a tranquilidade, basta uma curta caminhada para esbarrar com criancinhas pequenas indo para escola sozinhas ou, aos fins de semana, brincando pela rua. Além disso, quase não se vê automóveis, a noite é extremamente silenciosa e o céu parece muito mais amplo e muito mais estrelado. Isso porque não se vê prédios muito altos em Urdorf, não há poluição e a a cidade mantém poucas luzes quando anoitece. Nos fins de semana, a gente caminha pelo mato ou fica na varanda tomando um vinho e de olho nos gatinhos da vizinhança que ficam o dia todo (o dia todo mesmo!) caçando mosquitos na grama. E se o tédio bater, Zürich é logo ali e tem tudo que uma cidade pode oferecer. Nos sentimos muito felizes com a surpresa que foi Urdorf e continuo pensando, agora mais do que nunca, em uma vida mais perto do campo.





































































