quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Urdorf

Nós, que iríamos embora no início de outubro e decidimos aos 48 minutos do segundo tempo solicitar um prolongamento, precisávamos urgentemente encontrar de novo um apartamento para ficarmos de outubro até o fim de janeiro. 

Solicitar o prolongamento é bem burocrático como tudo por aqui. A coisa mais rápida, por incrível que pareça, foi a aprovação da Capes. No fim das contas, tivemos a resposta final no início de setembro e até lá não podíamos fechar negócio com nenhum apartamento, mesmo sabendo que havia quase 100%de chance de conseguirmos ficar. 

Mas eu já tinha começado a procurar antes para que tivesse umas cartas na manga. É muito difícil conseguir um apartamento mobiliado pelo preço que você pode pagar e que te sirva pelo tempo que precisa. As pessoas dificilmente querem alugar um apartamento apenas por quatro meses. A gente até abriu mão de ser mobiliado, porque se o preço fosse muito bom, compensaria comprar umas coisinhas no Ikea a preço de banana, ainda mais considerando-se que a cozinha já tem normalmente fogão e geladeira. Eram só quatro meses e a gente não precisava realmente de muito. Era uma opção um tanto desesperada, mas era uma opção.

Mas aí veio o primeiro (e único) apartamento não mobiliado que visitei. Era um apartamento de três quartos, completamente vazio, por um preço inacreditável de barato.  E estava no papo! Eles tinham vários apartamentos na mesma situação e precisavam alugar. A explicação era que o prédio seria demolido depois, o contrato era por um período curto e, por isso, o preço tão baixo. Aqui em Zürich tem muito disso, desses aluguéis pré-demolição. Acaba sendo uma opção bem barata. Mas a ideia veio por água abaixo quando a gente se tocou que, nesse caso, não teríamos um contrato de internet. Isso faz muita diferença para nós, não apenas por causa do trabalho, mas pelo fato de estarmos sozinhos por aqui e a internet ser a nossa forma de conexão com as pessoas no Brasil. Não dava para abrir mão. Fazer um contrato novo seria impossível, porque o mínimo que pedem é sempre um ano. Então, caiu a ideia do apartamento não mobiliado, porque certamente, todos teriam o mesmo problema. 

Depois desse, visitei um outro muito bem localizado, no alto de um morrinho bem ao lado do lago, numa das partes mais disputadas de Zürich. Estava super animada com esse, porque, embora o preço estivesse no limite máximo do que eu queria pagar, a gente ficaria em um lugar bem bacana. É  verdade que o prédio parecia bem antigo pelas fotos, mas nem me importei com isso, afinal, Zürich tem vários prédios assim, bem antigos, mas reformados por dentro. Acho até bem charmoso. Mas não era o caso. Foi até engraçado. Um senhorzinho, pai da moradora do apartamento e dono do prédio, veio me mostrar o lugar. O edifício não era apenas antigo por fora. Por dentro, as escadas que levavam aos apartamentos eram de madeira e rangiam assustadoramente. Tudo era bem velho. A entrada  era pela cozinha, onde havia um fogão a gás (o primeiro que vi em Zürich). Havia um toalete apenas com pia e privada logo do lado da cozinha. Depois da cozinha, havia um corredor, com uma extensa parte aberta em um dos lados, coberta por uma cortina, para a entrada do... banheiro! Sim, do banheiro! Na verdade, uma pia e uma banheira muito muito velha. Não havia porta para aquele espaço, ele era simplesmente um buraco no meio do corredor, separado do próprio corredor por uma cortina. Achei aquilo bem estranho. Para completar, não havia água quente na pia, o que pode ser bem complicado durante o inverno. O apartamento era todo desnivelado, com diferentes pés direitos. Os outros cômodos seguiam-se uns aos outros, de modo que os dois quartos se comunicavam. O quarto lá do final, tinha uma porta de saída inutilizada. Ele devia  ser originalmente  a entrada principal do apartamento. Como não podia deixar de ser em um lugar tão antigo e aparentemente mal conservado, havia um certo cheiro de mofo no ar. O apartamento era bem grande, mas precisava urgentemente de um restauração. Acho que foi o único de todos que vi em Zürich ( e olha que foram muitos, muitos mesmo) que não me despertou vontade de morar. 

Havia um outro prédio do lado que também pertencia ao senhorzinho, com um sótão onde era possível pendurar as roupas para secar  e um terraço de  uso comum aos moradores  com uma vista espetacular do lago. Talvez se os custos não fossem tão altos (ainda por cima, todas as outras contas não estavam incluídas no aluguel), eu poderia esquecer os problemas da casa. Mas estava muito caro para o que tinha a oferecer e, além disso, eu tinha uma outra opção em vista que parecia muito mais certeira.

E essa opção ficava em Urdorf. Urdorf fica a dez minutos de trem da estação principal de Zürich, mas, na verdade, trata-se de uma cidadezinha vizinha. A gente sempre evitava visitar apartamentos fora da zona central, porque isso encarece o ticket mensal para o transporte, mas, na verdade, depois percebemos, nem encarece tanto assim e o aluguel costuma ser ligeiramente mais barato. O apartamento parecia ser bacana pelas fotos, então, resolvemos tirar a sorte. 

Muitas pessoas que trabalham em Zürich preferem morar em cidades próximas para fugir da "loucura" da cidade grande (Sim, o povo daqui acha Zürich, com seus aproximadamente 400 mil habitantes, uma loucura). Eu achei que seria até uma boa experiência para nós. Urdorf é bem pequenininha, no meio de um vale, do lado de Uetliberg. A cidade é cercada por morros cobertos por vegetação. De longe a gente pode ver extensas áreas de plantação - estávamos de verdade no campo! E o apartamento, no meio do caminho entre a estação de trem e a praça principal da cidade (que na verdade nada mais é do que uma curva), era muito aconchegante. Posso afirmar que foi o meu apartamento preferido de todos. Eu tinha amado o anterior, na parte urbana, mas como ficamos lá apenas um mês, com um dos quartos trancados e todas as coisas das moradoras por lá, a gente não se sentia de verdade em casa. Parecia que estávamos mesmo como visita. Mas em Urdorf não  seria assim. 

O prédio era um prediozinho pequeno, antigo e reformado, cercado por jardins, com uma sala grande com um sofá enorme e uma varanda, dois quartos e uma cozinha  quadradinha toda equipada. Eu falo quadradinha porque cozinhas pequenas normalmente são estreitas como corredores. Essa era pequena mas quadrada, com espaço suficiente para eu e Dani circularmos ao mesmo tempo e uma janela grande na frente da pia. Eu me senti muito confortável ali. Além disso, o casal italiano que nos  alugaria o apartamento era  muito simpático. Quando finalmente nos mudamos, eu estava super feliz. Não só tínhamos um apartamento bacana, por um preço ótimo, como poderíamos ficar ali até o fim da nossa estadia aqui na Suíça. A gente já tinha começado a aceitar a ideia de que ficaríamos pulando de um lugar a outro durante esses quatro meses, até que esse lugar apareceu. 

Assim que chegamos, organizamos nossa bagunça e fomos dar uma passeada pelas redondezas para reconhecimento do local. Como Urdorf é uma cidade diferente, embora colada em Zürich, há algumas pequenas diferenças. Por exemplo, no nosso prédio, há um latão específico para jogarmos papelão. Isso me economiza a preocupação de ter que lembrar do tal do dia do papelão! Agora, quando os papelões começarem a me encher, é só levá-los até lá, em qualquer dia. Além disso, não podíamos mais usar o Züri-sac, mas sim o saco similar de Urdorf. E a melhor de todas as notícias foi que a conta do plano de saúde diminuiu um bocadinho. Não foi muito, mas qualquer economia é sempre bem vinda.

Depois de nos mudarmos, uma foto nossa, tirada no escritório onde assinamos o contrato, foi pendurada no mural do prédio, com os nossos nomes e o tempo em que estaríamos ali, para que os vizinhos soubessem da nossa vinda para o apartamento. 

Já no primeiro dia, ficamos um pouco preocupados com o silêncio da vizinhança. Não que a gente seja barulhento, pelo contrário. Mas eu naturalmente falo alto e gostamos de escutar música com frequência também. Naquele silêncio, parecia que qualquer ruído era um estrondo. Só que essa impressão não se sustentou por nem uma semana. Logo percebemos que nossos vizinhos italianos (espalhados por toda a parte) eram na verdade barulhentos o suficiente para nos ofuscar. Daí a gente ficou mais relaxado. 

Ainda no primeiro dia, a gente foi também tentar descobrir onde ficavam os supermercados mais próximos, farmácia, lugares para caminhadas etc.  Embora a cidade seja minúscula, a gente conseguiu se perder bastante para achar o mercado. De acordo com o mapa, deveria ser bem próximo de nós, mas demos uma volta ao mundo para conseguir achá-lo. O prédio onde fica o supermercado e todas as lojinhas da cidade estava em obras e, por isso, meio escondido. O Migros lá dentro estava numa área provisória, cheia de tapumes. Um pouco adiante, havia também um Spar, uma agência do Post e uma agência bancária ZKB. E caso quiséssemos um Migros maior ou outras opções de mercado, ficava a uma caminhada de quinze minutos, em Schlieren. 

Bem do outro lado da rua onde ficava o Migros, havia uma enorme área verde com várias rotas para caminhada. E outras alternativas não faltavam. Atrás da estação, havia a entrada para Uetliberg e um Vitaparcours. O Vitaparcours é como um "programa de exercícios" ao ar livre. Eles colocam ao longo da floresta alguns "aparelhos" e uma placa com as instruções de como executar aquele exercício. Assim, a ideia é a pessoa ir caminhando ou correndo e parar em cada ponto de exercício. Acho bem bacana, porque pode ser meio chato ficar simplesmente fazendo mil sequências de exercício, mas assim andando um pouquinho e fazendo um pouquinho fica mais fácil. É bem verdade que são exercícios meio bobinhos, estilo aquecimento, mas não deixa de estimular as pessoas a tentarem alternativas mais saudáveis, além de valorizar o contato com a natureza.

O próximo passo em Urdorf seria o registro. Na Suíça, toda vez que a pessoa se muda, precisa se registrar no escritório distrital do seu novo bairro. Ou mesmo que seja no mesmo bairro, é preciso informar a troca de endereço. E, é lógico, você paga por isso. Normalmente, há um prazo para comunicar a mudança. Quando ficamos um mês na Kreis 5, não informamos a mudança, mas para Urdorf, seria necessário. Eu achava que o procedimento seria o mesmo dentro do mesmo cantão, mas na verdade foi um pouco diferente. Quando cheguei ao Gemeinde (uma espécie de prefeitura) de Urdorf com toda a papelada que eu já imaginava que seria necessária, perdi a viagem. Antes de me registrar em Urdorf, eu precisava voltar ao escritório distrital de Zürich e avisar que estaria me mudando de cidade. Então, eles me dariam uma carta que o gemeinde usaria para efetuar o meu registro. Além disso, eles me pediram também uma cópia das nossas certidões de nascimento  traduzidas para o alemão. Eu quase caí para trás, considerando que nem no Brasil preciso da certidão de nascimento. Felizmente, eles aceitaram a certidão de casamento e, felizmente, a gente tinha guardada a tradução para o alemão utilizada para solicitar o visto. Achei curioso que em Zürich, ali  do lado, a gente não tinha precisado de nada daquilo. Afinal, a gente estava devidamente registrado na imigração e no cantão. Mas depois de um trabalho, de umas duas idas ao Gemeinde em vão e de setenta francos, estávamos registrados. 

Logo no nosso primeiro fim de semana em Urdorf, houve uma festinha na cidade, em frente a "praça" principal. Montaram um parque de diversões e muitas barraquinhas de comida. Parecia ser um grande evento na cidade. Resolvemos dar uma passada para ver como era e a cidade inteira devia estar por ali. Não ficamos muito, estávamos apenas curiosos.  Comemos um bolo em uma das barraquinhas e caminhamos de volta para casa. Segundo ouvi dizer, esse tipo de festa é muito comum nessas cidades menores e é, de fato, um grande acontecimento,  principalmente para as crianças e os adolescentes. 

Após um mês de experiência, eu fiquei muito satisfeita com a nossa vida em Urdorf. Há muito tempo que eu venho falando de viver em uma cidade pequena e ter essa oportunidade na Suíça superou todas as minhas expectativas. Se em muitos lugares no Brasil, diz-se que a qualidade de vida em uma cidade pequena é muito melhor, Urdorf deve ser o paraíso então. Fora todo o verde em volta e toda a tranquilidade, basta uma curta caminhada para esbarrar com criancinhas pequenas indo para escola sozinhas ou, aos fins de semana, brincando pela rua. Além disso, quase não se vê automóveis, a noite é extremamente silenciosa e o céu parece muito mais amplo e muito mais estrelado. Isso porque não se vê prédios muito altos em Urdorf, não há poluição e a a cidade mantém poucas luzes quando anoitece. Nos fins de semana, a gente caminha pelo mato ou fica na varanda tomando um vinho e de olho nos gatinhos da vizinhança que ficam o dia todo (o dia todo mesmo!) caçando mosquitos na grama. E se o tédio bater, Zürich é logo ali e tem tudo que uma cidade pode oferecer. Nos sentimos muito felizes com a surpresa que foi Urdorf e continuo pensando, agora mais do que nunca, em uma vida mais perto do campo.















quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Amsterdam

Uma das cidades que eu mais queria conhecer era definitivamente Amsterdam. Ouvi de inúmeras pessoas, tanto no Brasil quanto na Suíça, que eu tinha que ir, que era lindo e blá blá blá. E parecia lindo mesmo. Eu tinha que ir. Já estava esperando ter que reservar uma boa grana para essa viagem, já que era muito longe para ir de trem e os voos eram sempre caros. Acontece que nas minhas pesquisas na internet, nos sites da Bahn e da SBB, eu acabei descobrindo sem querer que algumas passagens de trem noturno, ao contrário do que eu já tinha visto, podem ser muito muito baratas. No site da SBB, nem sempre esses trens noturnos tem os preços disponíveis, aí você tem que solicitar por email, ligar para lá ou ir a um guichê, o que, muitas vezes, desestimula um pouco. Mas, para a minha surpresa, as passagens para Amsterdam estavam lá, baratérrimas e super prontas para serem compradas. O preço do trem noturno era 40 francos o trecho, preço que pagamos para ir a Genebra, a três horas de distância! O compartimento era um tal de sleeperette que até então eu não conhecia, mas, pelo nome e pelo que tinha visto na internet, devia ser mais confortável do que o assento normal. 

Eu estava super ansiosa pela primeira viagem de trem noturno. Muitas pessoas disseram que era horrível, mas pelo preço valia a pena. Afinal, nenhuma passagem aérea para Amsterdam saindo de Zürich chegava nem perto daquele valor. E eu prefiro evitar avião sempre que posso. Além disso, eu queria conferir como era o trem noturno e ter a minha própria opinião. Tentaria ao máximo dar asas ao meu espírito aventureiro. E os horários foram ótimos para nós - partiríamos na sexta à noite de Zürich, chegando em Amsterdam sábado de manhã. A volta seria domingo à noite, chegando em Zürich na segunda de manhã, a tempo de ir trabalhar.

Obviamente, a gente preferiria ter tido mais tempo na cidade, mas não se pode ter tudo. Na verdade, passear pela Amsterdam turística nem requer tanto tempo assim, mas a cidade é cheia de museus muito interessantes e cada um deles com uma fila de umas duas horas de duração. Para nós, restaria escolher apenas um e deixar os demais para uma próxima vez. Mas isso já é bem normal nas nossas viagens, muitas vezes curtas. Normalmente, eu dou preferência a conhecer a cidade e  aí os museus ficam em segundo plano, principalmente porque normalmente exigem um tempo precioso na fila e nem sempre a opção de reservar o ticket online está disponível e, quando está, nem sempre te livra da fila. Com isso, estamos com uma lista enorme de cidades que "temos que voltar um dia".  

Quando finalmente chegou o dia da viagem, chegamos com certa antecedência a estação, levando uma mala pequena e uma mochila com comida. Afinal, passaríamos a noite no trem e não queríamos depender do restaurante dentro do trem, que às vezes é um fiasco. O trem era um antigão da Bahn e, para nossa desagradável surpresa, o nosso "sleeperette" era uma cabine, daquelas que cabem seis pessoas. O banco tinha um ângulo de 90° entre o assento e o encosto e não reclinava nem um centímetro. Rezamos para ficarmos sozinhos na cabine ou dormir seria impossível. Mas não ficamos. Na primeira estação depois de Zürich, entrou uma senhora bem simpática e, algumas estações depois, um jovem de uns dois metros de altura.  Um pouco depois das onze da noite, chegou mais um casal e a cabine estava lotada. Aquilo me deixou um pouco estressada, porque imaginei que nosso dia em Amsterdam seria extremamente cansativo se eu não dormisse.  A nossa sorte foi que o tal casal saiu e não voltou mais, na certa encontraram um lugar melhor e vazio. Daí, como a senhora e o altão estavam super acomodados e dormindo em seus assentos, sobraram dois espaços para mim e dois pro Dani. Consegui dar uma semi-deitada e dormir um pouco. Por volta das cinco da manhã, a cabine esvaziou e ficamos apenas nós dois. Tivemos, então, mais três horas de sono.



O trem chegou em Amsterdam às oito da manhã. O tram para o hotel partia exatamente da frente da estação e nos deixava, em menos de vinte minutos, exatamente na frente do hotel. A gente comprou um ticket de 24 horas, o que valia mais a pena no nosso caso. O ticket é comprado em um guichê dentro do tram, tipo o "nosso" trocador mesmo e, aparentemente, é comum que os atendentes falem inglês. É preciso passar o bilhete em uma maquininha dentro do tram na entrada e na saída ou o bilhete perde a validade.

O nosso hotel não era tão perto do centro como gostaríamos. Eu preferiria estar a uma distância 'caminhável', mas digamos que estávamos perfeitamente conectados com a linha de tram e chegávamos bem rápido a quase todos os pontos turísticos. Tudo isso porque o hotel, que não  era lá muito barato, foi o mais barato que conseguimos reservar. Os outros hotéis, mais próximos ao centro, eram muito mais caros ou tinham apenas quartos compartilhados. Não sei se os preços são sempre assim ou se ficam muito mais caros no verão. De qualquer forma, o hotel escolhido - Student Hotel - era ótimo, muito grande,  moderno e limpo. Achei interessante que o hotel tem condições especiais para estudantes que vivem lá, então, a atmosfera do lugar é extremamente jovial. 

Depois de deixar nossa bagagem no depósito do hotel, já que o horário do check-in era um pouco mais tarde, pegamos novamente o tram em direção ao centro. Nossa primeira parada foi para tomar um café e comer um sanduíche, estávamos famintos. Daí já percebemos que os hotéis são caros, mas a comida é relativamente acessível ou, pelo menos, é possível encontrar opções baratas. Depois dali, pegamos o mesmo tram de novo e seguimos até a praça Dam, que seria o nosso ponto de partida para os outros lugares.



A praça Dam é a principal de Amsterdam e fica relativamente perto de tudo. Caso passear faça parte do programa, é possível percorrer a maioria das atrações turísticas andando mesmo.  E, especialmente em Amsterdam, vale muito a pena, porque os canais circundados por flores e árvores  e com prédios lindos em volta são uma das marcas da cidade. Fomos andando pela beira de um canal até a praça dos museus, a Museumplein, onde ficam três dos principais museus de Amsterdam - Rijksmuseum, o Stedelijk Museum e o Van Gogh Museum.  O Rijksmuseum, ou museu do estado,tem lugar em um prédio lindíssimo, e abriga uma coleção de obras de arte holandesa e mundial; o Stedelijk Museum é o Museu de Arte Moderna e o do Van Gogh o próprio nome já diz. É nessa praça, bem no centro dos museus que fica aquele famoso letreiro de Amsterdam "Iamsterdam", lotado de gente querendo tirar fotos. Eu e Dani, depois de uma noite muito mal dormida, éramos as pessoas menos fotogênicas do planeta. Do outro lado da praça, de frente para o Rijksmuseum, está o belo prédio da Filarmônica de Amsterdam, o Concertgebouw. 







Depois da praça dos museus, caminhamos até o famoso mercado de rua Albert Cuyp, bem perto dali, na rua de mesmo nome. É um mercado de rua enorme e ótimo para compras: preço bom e tem de tudo, desde queijos, peixes, temperos e vegetais até roupas e sapatos! Demos uma voltinha ali e eu consegui inclusive comprar uma calça. De lá, seguimos até a praça Rembrandt, almoçamos e continuamos passeando por entre os canais e tentando seguir o mapa. 



Passamos finalmente pelo famoso distrito da luz vermelha, cuja principal rua é paralela a uma outra rua cheia de coffee-shops. As duas ruas estavam bem movimentadas durante o dia, mas estávamos curiosos pelas tais prostitutas na vitrine à noite. A gente até via algumas àquela hora, mas à noite é que a coisa fica mais popular, cheia de gente e super iluminada.

E naquele resto de dia, a gente meio que caminhou bastante pelas ruazinhas e pelos canais e andamos também nas margens do rio que passa perto da estação de trem principal de Amsterdam, Amsterdam Centraal. O prédio da estação principal é muito lindo. Quando chegamos, nem demos a devida atenção a isso, porque estávamos cheios de mala e doidos para deixá-las no hotel. Do lado da estação principal também tem o maior estacionamento de bicicletas que já vi. 























De  fato, não é a toa que a cidade tem essa fama de ser tão associada às bicicletas. As pessoas por lá realmente parecem usar as bicicletas como meio de transporte mais do que em qualquer outro lugar que eu já tenha visitado. E, claro, as ciclovias estão por todos os lados. Tive a impressão de que os ciclistas tem preferência em quase todas as situações e eu tinha quase certeza de que seria atropelada antes de irmos embora. Achei maravilhoso conhecer um lugar onde as pessoas realmente podem usar a bicicleta e usam! Mas devo confessar que me senti extremamente insegura muitas vezes, porque muitos ciclistas são impacientes e andam em alta velocidade nas ciclovias. Eles não parecem se preocupar de forma alguma com os pedestres. Não são todos, lógico, mas muitos. Daí fiquei meio com birra disso. Tinha também um pessoal que vinha numa espécie de bicicleta-moto, talvez fosse uma bicicleta elétrica, mas parecia mais uma moto. 

Para mencionar outra coisa sustentável que a gente via com certa frequência em Amsterdam, pontos para carregar carros elétricos estão espalhados pela cidade e, frequentemente, estavam sendo usados. Achei muito legal ver que as pessoas ali compraram mesmo a ideia Eu ainda não tinha me atentado a isso em nenhuma outra cidade. Talvez por ali o hábito tenha realmente pegado.




Continuando nossa caminhada e seguindo o mapa, fomos a procura do Begijnhof, que era uma espécie de antigo santuário onde viviam mulheres de uma irmandade católica, que não eram freiras, mas viviam como tal. A entrada para o local fica completamente disfarçado em uma praça, em meio a muita confusão de cidade grande. A gente seguiu criteriosamente o mapa e não achávamos de jeito nenhum. Na verdade, embora seja grande por dentro, a entrada é uma porta no meio de muitas outras em volta, com o nome do lugar escrito em cima bem camuflado. Honestamente, não tinha nada demais lá dentro, além de um pátio comum circundado por muitas casas bem ao estilo Amsterdam e uma capelinha. Talvez o mais interessante do lugar seja a sua história, que data  desde o século XIV!

Quando finalmente já era noite, voltamos ao tal distrito da luz vermelha e a rua tinha virado um bloco de carnaval de tanta gente, completamente lotada! A gente tinha que andar em fila com as outras pessoas, bem devagarzinho. A essa altura, já havia várias prostitutas, algumas se exibindo e outras, mais blasés, mexendo no celular  ou desviando os olhos. É proibido tirar fotografias e o escândalo que elas fazem quando flagram alguém tentando é tão grande que só vale a pena se estiver realmente interessado. Ao longo da mesma rua, tinha um museu da prostituição, lojas vendendo utensílios eróticos e muitas casas de shows com nudez e sexo ao vivo, com filas enormes na porta. Em Amsterdam, existe ainda o museu do sexo, mas fica mais perto da Praça Dam.

A gente matou a nossa curiosidade de conhecer o tão falado bairro, mas logo saímos da muvuca. Já ficava bem tarde e a nossa energia começava a acabar. Comemos uma pizza deliciosa em uma das inúmeras ruazinhas e voltamos para o hotel.

O dia seguinte fez uma manhã fria e chuvosa, o que nos deixou bem aborrecidos, já que só teríamos aqueles dois dias em Amsterdam. Nossa sorte foi que tínhamos deixado aquele dia para ir ao museu da  nossa escolha. E a nossa escolha não foi talvez a mais convencional para pessoas que amam museus. A gente decidiu ir a casa de Anne Frank. Essa casa é um dos principais pontos turísticos de Amsterdam e eu tinha muita vontade de conhecer. 

Acontece que, embora eu soubesse que era possível comprar tickets online no site oficial, eu deixei para comprar nos últimos dias, achei que ficassem disponíveis sempre. Mas parece que não é assim. Não sei se os ingressos para a compra online tinham se esgotado ou se simplesmente só ficam disponíveis com um pouco mais de antecedência.  O fato é que não  consegui comprá-los antes e tivemos que enfrentar mesmo a fila. Como o tempo não estava nem um pouco amigável, a gente ficou menos aborrecido com as quase três horas passadas na fila. Acho que a questão é a casa não ser muito grande e ter corredores e escadas muito estreitos. Por causa disso, eles devem ter um número relativamente pequeno e limitado de pessoas por vez a entrarem lá.


Bem, e embora eu não tenha conhecido os outros museus, não me arrependi nada da minha escolha. A visita a casa de Anne Frank foi super interessante e eu certamente recomendo. Muito triste também, devo dizer. O edifício conserva o anexo onde Anne Frank, de família judia, escondeu-se com sua família e alguns amigos por dois anos durante o holocausto. O local foi ameaçado de demolição depois do fim da guerra, mas por pressão da opinião pública e pelo esforço do pai de Anne Frank, único sobrevivente entre os moradores do anexo, acabou se transformando em um museu. É muito difícil passar por ali sem sair com um nó na garganta, o "museu" conta a sua própria história e, em cada cômodo, havia ainda vestígios dos dois anos de reclusão daquelas pessoas. 

Saímos de lá meio passados  e fomos enfrentar a chuva e o frio. Fomos obrigados a almoçar em dado momento porque chovia tanto que era impossível andar na rua confortavelmente. Acabamos entrando no primeiro restaurante que apareceu - um asiático. Realmente nesse dia os passeios ficaram bem prejudicados, ficávamos a todo momento procurando lugares fechados, porque  chovia muito - pareciam até tempestades tropicais. Pensamos em aproveitar o dia "perdido" para visitar algum outro museu, mas as filas estavam absurdamente gigantescas (como era de se esperar, especialmente em um dia chuvoso) e ficamos com medo de nos apertarmos com o horário de pegar o trem de volta.



Assim nossa tarde de domingo chuvoso em Amsterdam um tanto frustrante, passeando e parando em algum restaurante quando a chuva apertava. No fim, eu começava a ficar preocupada com a volta, com aquele banco desconfortável de novo, em não conseguir dormir e ir pro trabalho sem forças. Voltamos para o hotel apenas para pegar a bagagem que tinha ficado guardada lá e fomos para a estação. Na plataforma, conhecemos umas japonesas que tinham conseguido comprar passagens numa cabine com quatro beliches por 25 Euros cada pessoa! E eu achando que tinha me dado super bem com os quarenta francos naquele assento horroroso. 

Mas pelo menos na volta o assento era diferente. Era, na verdade, o que eu esperava de um sleeperette. Não sei porque na ida não tivemos aqueles lugares, talvez porque o trem fosse mais antigo. O fato era que esse assento de fato reclinava bastante e com certeza seria bem mais confortável do que o outro. Aquilo me deixou um pouco mais aliviada. Mas mesmo assim a noite de "sono" foi infernal, com tanta gente entrando e saindo a todo momento. Acho que consegui dormir mesmo a partir de umas três da manhã. 

E  mesmo não tendo curtido muito as noites no trem, acho que vale muito a pena quando se consegue um preço bom como esse. Ficamos em Amsterdam dois dias inteiros e pagamos apenas uma diária de hotel. Além disso, não costumo ver bons preços de voo de Zürich a Amsterdam e talvez se não fosse essa promoção do trem, essa viagem ficasse inviável. Então, de certa forma, confortável ou não, essa era a nossa chance de conhecer Amsterdam, era pegar ou largar.


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Foundue no verão pode sim!

O verão desse ano em Zürich, segundo me disseram, foi o pior dos últimos anos. Muitos dias de chuva, vento e temperaturas mais baixas do que o desejável. Tanto que muitas pessoas decidiram tirar férias lá pra setembro, lógico viajando para terras ensolaradas, já  que as férias de verão por aqui tinham sido bem decepcionantes.

Por causa disso, foi muito fácil para nós decidirmos fazer um foundue em pleno verão. Já estávamos em setembro, quase outono, mas ainda assim era verão!  Quando a Barbara nos ouviu combinando tudo, não acreditou... "mas nós já estamos no inverno?". É, Barbara, o verão se foi. 

A comilança seria no coffee room da faculdade mesmo, onde a gente almoçava todos os dias. Quando acabasse o horário de trabalho, sairíamos para as compras e começaríamos os preparativos.

Todas as vezes que fiz foundue em casa, a gente sempre comprava aquele preparado específico que já vem com tudo. Para não dizer que é 100% completo, a gente apenas precisa esfregar o alho na panela e colocar pimenta a gosto no final. Então era sempre muito fácil, praticamente um fast food.

Mas aí o pessoal resolveu fazer aquele foundue tradicional mesmo. Compraram todos os ingredientes separadamente.Tudo bem que também não são muitos ingredientes: queijo, maizena, vinho  e uma pitada de kirsch,  uma bebida destilada fortíssima. E, lógico, o alho e a pimenta. Esse preparo é bem mais demorado, mas ficou bem gostoso. Para o meu paladar, não vi diferença em relação aos meus pacotes. Então, vou continuar preferindo o modo mais fácil.

Andrea e Sarah contaram que aqueles que querem ser ultra tradicionais mergulham o pão num copo de kirsch e depois no queijo. É claro que eu quis tentar isso, mas foi uma péssima ideia. O Kirsch é muito forte e o pão com queijo quente desceu rasgando a minha garganta. Meus olhos ficaram vermelhos e lacrimejando. Ok, fico com o foundue de mulherzinha mesmo. 

Dessa vez, as meninas também cortaram algumas maçãs e peras para mergulharem no queijo. Disseram que gostam muito de fazer isso quando comem foundue. Achei uma boa ideia, mas como não curto nem maçã e nem pera, fiquei de fora dessa.

Finalmente, outra coisa tradicionalíssima é comer o queijo que gruda no fundo da panela. Sim, no final do foundue, o resto de queijo começa a se queimar e fica endurecido e grudado no fundo. Por algum motivo, eles chamam esse queijo de Grandmother. E é como se fosse a cereja do bolo. Eu dispenso. A tal da Grandmother sai pingando gordura e isso não me apeteceu muito.

E para quem se perguntar sobre o foundue de carne, não é assim tradicional como o de queijo. Foundue foundue mesmo é o de queijo. Pelo que ouvi, o de carne  é uma comida típica de natal aqui, bem como a gente conhece: fritando a carne no óleo quente e mergulhando nos mais diversos tipos de molho.  







sábado, 11 de outubro de 2014

Setembro na Zürich urbana

Setembro seria o nosso último mês em Zürich. A gente ficaria no apartamento da Langfurren até o final de agosto, então, mais uma vez, precisávamos procurar um lugar para ficar por apenas um mês. O site de busca na universidade, onde tinha conseguido todos os outros apartamentos, tem muitas ofertas de apartamentos mobiliados e temporários, especificamente para pessoas com vínculo com a faculdade, o que significa que a concorrência acaba sendo menor. 

E acho que essa foi a vez que conseguimos um apartamento mais rápido. E, sem dúvida, foi o melhor  apartamento de todos. O apartamento ficava no charmoso bairro de Wipkingen, bem perto da supercool west Zürich. Essa região é famosa, porque costumava ser uma área industrial da cidade, mas as indústrias foram tiradas dali, o lugar foi todo reformado e é todo cheio de novidades. É a maior representação da Zürich urbana e moderna  e aquela era nossa primeira experiência nesse burburinho. 

Afora isso, o apartamento era maravilhoso, melhor do que jamais imaginaríamos. Ficava num prédio super moderno e bem ao estilo 'container' de Zürich, coberto, na sua maior parte, por "telhados verdes". Aqui, vários dos prédios modernos tem esse estilo meio caixote de ferro, parecendo um container mesmo - e são considerados muito estilosos. No início, achava estranho e feio, mas depois que me acostumei, passei até a gostar. O apartamento tinha um salão enorme, com uma cozinha aberta e uma varanda ensolarada com vista para a cidade, especialmente para a Zürich Prime Tower, o maior prédio de Zürich e um dos maiores da Suíça. A cozinha e o quarto tinham uma vista hipnotizante para o rio Limmat. Além disso, tínhamos nossa própria lavanderia dentro de casa, coisa que não é comum nos prédios mais antigos. Era um mini-quartinho especial para isso - com lava-roupas e secadora. O Dani ainda podia estudar música no piano que havia na sala. O apartamento tinha, na verdade, dois quartos, mas apenas um deles estava sendo alugado, o outro ficou fechado. Nossa única preocupação ali era cuidar das plantas - o que, confesso, me deixou um pouco apreensiva. Eu não entendo absolutamente nada de plantas e o Dani também não. As donas da casa, duas professoras de uma universidade aqui de Zürich, fizeram uma tabela,dando um número a cada planta e dizendo a frequência em que deveriam ser regadas e quantidade de água para cada uma. Elas colocaram até adesivos nos vasos, com o número correspondente das plantas. Não tinha como a gente errar. Isso me deixou mais tranquila. Para completar, naquele um mês, a gente ainda teria uma diarista fazendo a limpeza do apartamento duas vezes. O cuidado maior era só com o chão, porque era sensível e se arranhava com facilidade. Então, nada de arrastar malas pesadas, cadeiras ou usar saltos por ali. Isso seria fácil para cumprirmos.









Quando finalmente nos mudamos para lá, nossa vontade era não sair de casa  de tão aconchegados. A parte chata era saber que só ficaríamos um mês. Dá para aproveitar bastante, mas a gente não chega a se sentir realmente em casa. O ponto alto para nós foram realmente os passeios no rio. Tudo era perfeitamente lindo, com águas cristalinas e cheio de verde. Além de tudo, a saída para o rio era na nossa porta. Não tinha aquela preguiça de caminhar até um lugar para caminhar. O melhor é que a gente podia até andar de bicicleta juntos, porque eu, que morro de medo de andar no meio dos carros, podia sair de casa direto para a margem do rio. 

Os passeios de bicicleta pareceram ser bem simples, mas não foi bem assim, na verdade. A primeira e basicamente única vez que tentamos foi completamente mal sucedida.  Tínhamos a bicicleta do Dani e a da dona da casa que parecia ser caríssima. Eu, como conheço minha falta de habilidade, preferi usar a do Dani, porque se quebrasse, o prejuízo seria menor. Só que a do Dani era muito alta para mim e com um assento extremamente desconfortável. Cada vez que eu tinha que parar a bicicleta era um suplício, meu pé não encostava no chão e por isso eu ficava super insegura. Logo na saída do prédio, eu já quase caí no rio, me desequilibrando para subir na bicicleta. 

A gente tinha decidido ir até Baden, a cidadezinha aqui perto, teoricamente a um pouco mais de uma hora com a bicicleta. Mas coloca uma hora nisso. Aquele tempo deve levar em conta pessoas super confiantes na bicicleta. Talvez o Dani até conseguisse, mas eu não. O problema não era a distância ou o tempo de pedalada, mas o caminho nem sempre amigável. Nas subidas, eu sempre empurrava a bicicleta e, em pontes muito estreitas também, porque ficava com medo de cambalear. Se a descida fosse muito acentuada, empurrava na certa. Numa dessas, quase mergulhei no rio de bicicleta e  tudo. Era uma descida aparentemente suave e bem rente ao rio. Quando me dei conta, a tal da descida era totalmente sinuosa e não acabava nunca. Mas aí já não dava para parar. Desci meio freando e meio chorando. Um pouco depois disso, eu caí mesmo, subindo uma ladeira relativamente suave. Me esforcei para subi-la inteira e, lá em cima, parei e caí pro lado. Nada demais, apenas um joelho ralado e umas boas risadas. Lógico que, nesse ritmo, não chegamos a Baden. Depois de uma hora e meia, ainda faltava mais de uma hora de acordo com os nossos cálculos. Paramos num vilarejo no caminho, comemos um sanduíche, descansamos um pouco e voltamos. 

Cheguei a fazer a segunda tentativa com a bicicleta, mas estava um pouco traumatizada e não foi nada divertido. Definitivamente, aquela bicicleta não era para mim, precisava de uma mais baixa, que me deixasse encostar os pés no chão. O mais degradante era ver famílias inteiras passeando com suas bicicletas gigantes - pai, mãe com filhinho na cadeirinha atrás, e o outro filhinho de uns cinco anos na sua própria, sem rodinha e sem nada, subindo e descendo ladeiras. Eu nasci medrosa, não tem jeito.




Mas caminhar ali era muito legal também. Sem falar em sentar em um dos milhões de banquinhos do caminho só para conversar e ver o rio passar. Ainda era verão e, nos dias mais quentes, muitas pessoas iam nadar ali ou fazer SUP. A graça de nadar no rio é seguir com a corrente até a próxima 'saída', tomando, logicamente muito cuidado, com os pontos de represa. Mas o que nos deixava um tanto invejosos eram realmente os botes. As pessoas entravam nos botes, normalmente duas em cada, e iam flutuando no rio, sem nenhum esforço, na maior vida boa. Tem gente que leva até grill para assar alguma coisa no trajeto. E isso acontecia todos os dias. Eu acordava de manhã e ia tomar café olhando para o rio e lá iam passando as pessoas, levadas pela correnteza, Às vezes, nadando, às vezes, de bote. 

A gente descobriu  também que ali perto havia uma área nudista na beira do rio. Só que a área nudista, embora  realmente restrita a pessoas nuas, fica bem no meio do caminho, sem separação nem nada. O Dani chegou um dia em casa comentando que tinha visto um cara pelado nadando. E a gente comentou como o povo daqui realmente não tem muita vergonha dessas coisas e tal. No outro dia, fomos caminhar e mais um homem nu, e outro e outro. Pronto, descobrimos que eles não tem mesmo muita vergonha, mas que estavam num espaço próprio para isso. E quando a gente passava pela outra margem do rio, a coisa era ainda mais óbvia, porque ficava todo mundo nadando, sentado na borda, esticado na grama, todos peladões. E toda vez que a gente passava por ali tinha alguém parado olhando. Nós, que somos de um lugar onde até topless é proibido, ficamos surpresos.

Mas aqui a coisa corre bem solta mesmo. As meninas comentaram que nas saunas, fica subentendido que todo mundo deve estar pelado. Nada de toalha, nada de biquini. Alguém pode chamar a sua atenção por isso inclusive. E não é sauna para segundas intenções não, é sauna normal mesmo. Até devem ter os que se aproveitam da situação, mas realmente não é a ideia da coisa. Foi bom saber.  









Embora o rio fosse a  nossa distração favorita, não para desmerecer a infinidade de opções do que fazer ali por perto. Aliás, talvez fosse justamente isso que fizesse daquele lugar tão especial - por conseguir estar próximo da natureza e da cidade grande ao mesmo tempo. Bem, isso não é exatamente difícil em Zürich, mas a maioria das áreas residenciais não ficam assim tão coladas na parte mais moderna.

Ali perto, a dois pontos de tram, estava o principal foco da vida noturna de Zürich - a Escher-Wyss platz. Ao longo do enorme viaduto Hardbrücke, estavam os bares e boates  bacanas, onde aconteciam as festas mais legais. Além disso, incontáveis restaurantes, um cinema enorme e movimento o tempo todo. Um pouco mais a frente, estava o "Im Viadukt", que são arcos de um viaduto antigo enorme, embaixo de uma linha férrea, resquício da época industrial da região, que agora abriga  inúmeras lojas moderninhas, galerias, cafés e restaurantes. E andando um pouquinho mais, já bem mais perto da Zürich HB, o bairro underground de Zürich, a Kreis 4, onde fica a famosa Langstrasse. Ali é a parte considerada 'perigosa' da cidade, mas pra gente, é simplesmente a rua que mais se parece com os outros lugares urbanos da Europa. Aliás, ela é considerado um dos pontos turísticos de Zürich, vejam só. É ao longo dessa rua também que fica o mercado de pulgas Kanzlei, o mais famoso de Zürich e o maior da Suíça, que funciona todos os sábados na Helvetiaplatz. Nós já fomos lá umas três vezes, mas sinceramente não curto muito. Muita gente andando pra lá e pra cá, remexendo todo o tipo de velharia usada que se pode imaginar. Foi onde o Dani comprou a bicicleta.

Foi nesse mês também que eu pude ver todos os dias a beleza que fica o céu de Zürich no pôr-do-sol. Não sei se estávamos a um altura maior e, por isso, a visão ficava mais ampla, mas sei que as cores do céu de Wipkingen eram as mais belas que já em Zürich.




E um mês naquele apartamento passou voando. Deu tudo certo com as plantas,embora em alguns momentos eu tivesse me preocupado com o bambu, justamente a planta que elas chamaram a atenção que precisava de mais água. Muitas folhas começaram a cair e outras a ficarem amareladas. Eu não sabia se tudo aquilo podia ser resultado do outono ou se estava colocando pouca água. Ou muita água, Na internet, tudo que acontecia com as plantas, diziam, era muita água ou pouca água. Mas no final deu tudo certo, era coisa de estação mesmo. 

No nosso último dia, resolvemos visitar uma igrejinha linda, a Reformierte Kirche de Höngg, que ficava ao longo do rio, não longe dali, na região de Höngg, na parte alta. Ao lado da igreja, havia também uma pequena vinícola. Um lugar extremamente agradável e absolutamente silencioso. Além de ter uma bela vista para o rio. Sempre passávamos por ali e víamos a igrejinha lá de baixo, mas nunca havíamos subido. Foi, afinal,uma boa despedida. 

Nossa próxima parada agora era - Urdorf.