sábado, 29 de março de 2014

Morgestraich

O Carnaval ou Fasnacht de Basel é  o mais famoso da Suíça. Tudo bem que todo ano eu prometo que vou fugir do Carnaval de alguma forma no ano seguinte, mas esse ano foi o contrário. Eu fui atrás do Carnaval. Afinal, não é todo dia que a gente pode ver o Carnaval na Suíça. Eu estava curiosa. A festa principal se chama Morgestraich e começa às quatro da manhã de segunda-feira. É uma das festas mais tradicionais da Suíça e o pessoal daqui é todo orgulhoso dela. Ao contrário do que estamos acostumados no Brasil, você não deve usar nenhuma fantasia nesta festa e muito menos tocar instrumentos. Não pode ofuscar o pessoal do desfile. A festa fica toda por conta deles. 

Haveria um trem extra saindo de Oerlikon até a HB e, de lá, dois trens extras que sairiam a partir das duas da manhã. Foi o que fizemos. Eu estava com muita preguiça de sair de casa mais de meia-noite de domingo. O Dani não poderia ir porque tinha entrevista na imigração na manhã seguinte, o que me deixou ainda com mais preguiça. Afinal, ele estava indo dormir, de pijama, enrolado no edredom e quentinho na cama, e eu me arrumando para sair. Há quanto tempo não saía tão tarde de casa. Acho que desde a época da Bunker. Talvez por isso a preguiça.  Não estava mais acostumada. Tentei dormir tarde no dia anterior, acordar bem tarde e até cochilar na parte da tarde e início da noite. Mas a única coisa que deu certo foi dormir tarde. Ou seja, estava bem cansada. 

Seria um programa de meninas. Encontrei a Andrea em Berninaplatz a uma da manhã e caminhamos até a estação de Oerlikon. Pegamos o trem extra para a HB, onde a Diane nos esperava. Estávamos muito animadas. Nenhuma de nós conhecia a festa ainda. O trem estava bem cheio, mas com assentos para todos. Bem melhor do que minha expectativa, que era ficar uma hora em pé até Basel. Um pouco antes de chegarmos lá, um amigo da Diane, chamado Mandela a encontrou e sentou junto com  a gente para conversar. Ele falou inglês o tempo todo, embora, segundo ela, morasse  na Suíça (era um ex-namorado de uma amiga). Talvez se sentisse mais confortável com o inglês, porque era americano.  Ele não parou de falar um minuto e ficou andando com a gente um bom tempo em Basel. Mas não estava na mesma vibe que a gente, a gente queria ver a festa, ele queria bebida e 'zoação'. Então, quando eram um pouco antes das quatro, ele foi para muvuca e a gente ficou rondando as ruazinhas.

A cidade estava muito cheia e, por toda parte, podíamos ver pessoas com suas fantasias ainda semi-vestidas, carregando as máscaras e o instrumento nas mãos. Alguns mini-carros alegóricos iluminados, trazendo mensagens políticas, também passavam de vez em quando. Pelo que entendi, havia vários grupos diferentes e cada grupo tinha o seu carro e seu estilo de fantasia, provavelmente também uma musiquinha  própria. Como já eram perto das quatro, as pessoas começavam a se posicionar nas praças e ruas, por onde os grupos passariam. Legal ver que havia muitos velhinhos e crianças de todas as idades esperando pelo cortejo, mesmo no meio da madrugada. É uma tradição da qual as pessoas daqui gostam muito de participar. 

Antes que o desfile começasse, entramos numa padaria lotada para comer uma das guloseimas tradicionais do carnaval de Basel, uma espécie de quiché de cebola e queijo - deliciosa! Caiu muito bem, porque eu começava a ter sinais de fome.  Aproveitamos e compramos o broche da festa, que é tradicional e todo mundo deve usar. Era até bem bonitinho, cor de bronze, no formato de um folião mascarado. Depois disso, nos posicionamos também na praça da igreja que, pelo que soubemos não ficava tão abarrotada de gente e esperamos pelo início.  Estava muito frio. Eu não sei o que se passou pela minha cabeça que não fui com meu repertório de frio 100% completo. Só porque os dias em Zürich estavam agradavelmente ensolarados ultimamente. Mas, é claro, de madrugada, eu deveria ter esperado esse frio todo. 

Quando o relógio da igreja bateu as quatro da manhã, todas as luzes da cidade se apagaram. Ficou um breu. De repente as luzes dos carros alegóricos se acenderam e também as luzes nas caixinhas que os integrantes traziam na cabeça. E eles começaram a tocar as músicas. A coisa mais legal do Carnaval de Basel é que ele é organizado e espontâneo ao mesmo tempo. A música era arrastada e tocada basicamente com flauta e tambores. Cada grupo tocava a sua música, mas todos tocavam ao mesmo tempo. E eles começavam a desfilar aleatoriamente pelas ruas de Basel. E as pessoas iam seguindo. Às vezes, a gente via uns grupos de três ou quatro gatos pingados perambulando, impassíveis, tocando a sua música. Eles não interagiam com as pessoas, pareciam bonecos, continuavam tocando e andando. As máscaras eram normalmente um tanto assustadoras, narigudas, olhudas, descabeladas e com expressões não menos assustadoras. Me lembraram muito as fantasias que os personagens usavam na festa em  "Wicker Man". De fato, junto com a quase total escuridão, aquilo seria o mais perfeito cenário pra um filme de terror. 

A parte ruim é que eu não consegui tirar nenhuma foto boa. Sem flash, era impossível. E, mesmo com flash, só saíam uns pontos luminosos no meio do  fundo preto. Além disso, a Andrea me chamou a atenção para não usar o flash e ser estraga-prazeres, afinal, uma das características dessa festa é ser no escuro mesmo.  

Passavam das cinco da manhã e os integrantes já estavam bem dispersos. Como estávamos com muito frio, entramos num dos vários cafés que estavam abertos naquela noite e nos aconchegamos. Tivemos sorte de conseguirmos uma mesa, porque àquela hora todo mundo estava mesmo querendo um lugar quentinho para ficar. Tomei um café e experimentei a sopa também tradicional do Carnaval de Basel. Eles serviam numa espécie de mini-panela e você deveria segurar a colher com uma das mãos e, com a outra, o cabo da panela. Bem rústico. Ficamos ali um bom tempo, o cansaço e, principalmente, o sono estavam perceptíveis. 

Quando saímos, já estava claro e eu fiquei feliz, porque ainda daria tempo de tirar fotos das fantasias, já que muitos foliões ainda estavam pelas ruas tocando. No entanto, depois de tentar tirar fotos com flash durante a noite e fazer um filminho, a bateria do meu celular acabou e eu consegui tirar apenas duas fotos,sendo uma delas tremida. Nós todas concordamos que eu teria que voltar para o carnaval de Basel do ano que vem.

Os créditos abaixo são do site turístico myswitzerland. E logo depois, estão as fotos de "Wicker man" para comparação.









E, para ninguém dizer que sou doida, abaixo as fotos de "Wicker Man":




Que medo... 


sexta-feira, 28 de março de 2014

MÖHL

Fui provar o tal do Möhl, uma cidra suíça. Falei pro Dani que era típico suíço, que a gente tinha que provar e tal. Até que é bem gostosinho, com  o maior gosto de Sprite, e vem numa garrafa super bacana. Deve ser perigoso, pensei, vou ficar bêbada sem sentir. Mas o que eu acho é que o negócio deve ser Sprite mesmo. Ou não deixaram as maçãs fermentarem o suficiente. A gente tentou várias vezes, comprei garrafas de dois litros de Möhl e nada de sentir nem uma dormenciazinha, nenhuma alteração. Eu até conferi se tinha comprado a versão não alcoólica da coisa, mas não era isso. O Möhl não deixa ninguém bêbado. 


Lichenstein

Contei para  a Andrea que tinha ido a Lichenstein. 
- Onde?! 
- Lichenstein. Falei umas três vezes e ela não sabia onde era. 
Descrevi o lugar: - O principado, Andrea, entre a Suíça e a Austria. Um dos menores países do mundo e tal. Hein? Lichenstein, oras! 
- Ahhhhhhhhhhh, LiRRenstein!!
Claro, o "ch" tem som de ''dois erres'' por aqui! 

Aí eu descobri que Lichenstein é um lugar de gente muito rica, que você só pode morar lá se for muito rico, ou nascido lá ou casado com alguém de lá, é claro. Não basta trabalhar em Lichenstein. Tem que ser rico. As pessoas que trabalham lá, moram na Suíça, disse ela. Talvez isso explicasse o clima pacato da cidade em plena tarde de sábado ensolarada.

Chegar a Lichenstein de Zürich é muito fácil. A gente pegou um trem para Sargans (passamos por paisagens deslumbrantes) e, de lá, um ônibus comum até Vaduz, capital de Lichenstein. Demorou pouco mais de uma hora. Levamos sanduíches e petiscos, porque, diziam, lá é muito muito caro, não dá para comprar um alfinete. Quando chegamos, o lindo dia de sol ficou ainda mais lindo com o visual dos alpes circundando toda a cidade. As ruas ainda estavam bem vazias e silenciosas. Vaduz parecia uma cidadezinha de interior saída de um filme, com casinhas no mesmo padrão da Suíça, uma igrejinha pequena e um castelinho no alto de um morro. Andamos pelo centro da cidade, paramos para tirar foto, curtimos a paisagem e, em mais ou menos uma hora, já tínhamos andado por tudo no centro da "nervosíssima" Vaduz. Comprei o meu imã e descobri que 90% das coisas a venda nas lojas de Souvenir são lembranças da Suíça, incluindo bandeiras e camisetas.

Era hora, então, de ir até o castelo. Subimos o morro  caminhando, não era muito alto. Ao longo do caminho, a vista dos alpes ia ficando mais e mais linda. O castelo não estava aberto para visitação, mas é sempre bom ver um castelo, ainda mais sabendo que ele continua na "ativa", que o Príncipe de Lichenstein mora lá. Um fato curioso foi que no quintal do castelo havia uma cadeira com uma TV de tubo de umas 20 polegadas. E eu nem sabia que ainda existiam televisões de tubo por aqui. Acho que o Príncipe de Lichenstein é old-fashioned. 

Descemos de volta para a cidade e ficamos ainda esperando um tempo pelo ônibus de volta. Nos finais de semana, os intervalos são maiores, então, tivemos que esperar um bom tempo até chegar o próximo. Resolvemos saltar no meio do caminho, ainda em Lichenstein, para ver mais de perto um mini-castelo e uma linda igreja que avistamos do ônibus. Caminhamos por um parque em volta da igreja lindo de morrer. Uma calmaria absurda. Eu não conseguia imaginar as pessoas realmente morando ali. 

Esperamos mais um bocado pelo próximo ônibus e, com o fim de tarde, o tempo foi ficando mais friozinho. Ainda daria tempo de darmos umas voltas por Sargans. Sargans também é circundada pelos Alpes e tem um castelinho próprio. A cidade estava bem animada, cheia de pessoas indo esquiar e alguns grupos começando a comemorar o Carnaval. Subimos a ladeira do castelinho e tiramos fotos da bela vista da igreja. Mas infelizmente não dava mais tempo de passearmos muito. Era quase hora do nosso trem de volta. 





























quarta-feira, 26 de março de 2014

Nos mercados da vida



A nossa ida ao mercado chinês (barra-tailandês-barra-indiano-barra-libanês-barra-qualquer-coisa-exótica) só podia resultar em comprar mais coisas por engano. No sábado, eu tinha ouvido falar, as coisas caíam de preço. E lá fomos nos no meio da chuva dar uma olhadinha. O Dani queria comprar tudo, mas não sabia o que era nada, muita coisa estava escrita em línguas que não tinham nem o nosso alfabeto. Eu fiquei toda feliz porque vi um bolinho de arroz recheado com pasta de feijões vermelhos que poderia ser frito em água quente. Opa, pensei, ótima pedida, uma reedição do nosso arroz-com-feijão iria cair bem. Levamos também uma pasta de curry verde e um daqueles "macarrões de arroz".

Mal cheguei em casa e já quis fazer os tais bolinhos. Joguei na água quente, esperei voltarem para a superfície e estavam prontos. Já estava achando a aparência muito  esquisita. A cobertura de arroz era uma camada branca, lisa e gelatinosa (um tal de arroz gelatinoso, algo assim). Dei uma mordida e... o bolinho era doce!! Sim, doce. E a parte de arroz parecia de gelatina sem sabor, ou seja, sem sabor. Decepção total para quem esperava um petisquinho exótico e saudável. Para não perder a viagem, passei os bolinhos no coco ralado para incrementar o "gosto" do arroz e comi assim mesmo. 

Quanto a pasta de curry verde, era pasta de curry verde mesmo, mas parecia muito muito apimentada e muito salgada. Ao ponto de nem nós, típicos glutões, conseguirmos comer com satisfação. Depois de uma rápida pesquisa, descobrimos que a pasta deve ser misturada (diluída!), preferencialmente em leite de côco. No mesmo dia, fizemos um arroz indiano, usando nossos dois currys - o verde e o amarelo, mais curry em pó e um milhão de temperos. Como a gente não tinha leite de côco, salpicamos um pouco de côco ralado no meio. Devo dizer que ficou delicioso e diminuiu a minha frustração com a compra dos bolinhos de arroz.





terça-feira, 25 de março de 2014

Love Cats

Desde que tenho gatos, sou neurótica em relação a porta e às janelas de casa. Com a chegada do meu primeiro gato, as janelas ficavam fechadas o tempo todo na casa inteira até que a gente colocasse telas. Até hoje, os basculantes, que não tem tela, só ficam fechados. E, ainda assim, sempre que não acho um deles, fico que nem maluca achando que rasgaram a tela ou que algum basculante ficou aberto e eles, na primeira oportunidade, se jogaram lá embaixo. Além da preocupação  de não caírem lá embaixo, já que o  apartamento é no quinto andar, eu teria, de qualquer forma, a preocupação de não deixar eles terem acesso a rua para não serem atropelados, envenenados, mordidos por cachorros, entrarem em brigas com outros gatos ou até mesmo sofrerem violência por parte de um desalmado qualquer. 

E  eu sempre fui muito categórica em relação a esses cuidados. Até eu chegar em Zürich. Aí comecei a ter conflitos filosóficos grandes. A sorte é que meus gatos continuaram no Brasil e eu não precisei transferir minhas maluquices para eles. O fato é que em Zürich a gente vê muitos gatos, mas quase nenhuma tela. Os prédios são baixos em sua maioria e as pessoas sempre colocam rampinhas e mini-escadas em caracol acopladas às suas janelas especificamente para os bichanos, para que sejam felizes indo e vindo. Como os gatos são todos castrados e bem tratados, não se veem gatos de rua e eles não brigam entre si. Além disso, especificamente em ruas menores, os carros não andam rápido e tem que estar sempre atentos de qualquer forma, já que o pedestre tem preferência. 

Eu passei a ver aquela vida de gato com outros olhos. Não que os meus gatos ou os gatos que tem que ficar em apartamentos sejam infelizes. Mas é bom ver um gato podendo ser naturalmente um gato de vez em quando. É bom pra eles poderem dar umas voltinhas de vez em quando, entrar em contato com a natureza, fuxicando jardins, dando corridinhas e se esparramando no sol. Talvez se eu tivesse gatos em Zürich tentasse me livrar das minhas neuroses e deixasse eles com mais liberdade. Sempre que olho as rampinhas e caracóis saindo das janelas penso nisso. 

sábado, 22 de março de 2014

Three Kings Day

Three Kings Day craft for January 6th. Watercolor and salt.

Na Suiça, o "Dia de Reis" não é apenas o dia  que as pessoas desmontam a árvore de Natal e tiram as luzinhas das casas. Aqui, como o Natal é levado tão a sério, o fim do período natalino tem que ser  também lembrado e celebrado. Mas isso nem passava pela minha cabeça. Nem lembrava que eram seis de janeiro, até porque para mim não significava nada.

Eu estava sentada na minha mesa, tentando voltar a rotina depois de duas semanas fora, quando as meninas me chamaram para ir ao Coffe Room para comer o "Three Kings Cake". Pareciam bem animadas. O quê?! - Perguntei. Diane me explicou. É o seguinte: tem esse bolo especial de Dia de Reis. Na verdade, parece mais um pão, dividido em vários gominhos, e vem acompanhado de uma coroa de papel. Dentro de um e apenas um dos gominhos, existe um mini reizinho de plástico (parece até uma bala-boneco). Quem pegar  o gominho com o reizinho  é o rei do dia e pode usar a coroa durante todo o dia!!! Infelizmente, não foi dessa vez que eu fui rainha.

O engraçado foi que, na volta para casa, dentro do tram e andando pelas ruas, havia um monte de crianças vestindo essas coroas de papel. Elas devem ter esses  bolos na escola também. É claro, se você tem oito anos deve ser uma festa poder ser o rei do dia. :-)

More Three Kings Day Bread Swiss@Pennfoster #bemorefestive #choosetobemorefestive






sexta-feira, 21 de março de 2014

Happy New Year!

Quando chegamos em Zürich depois de duas semanas no Reino Unido, parecia uma cidade fantasma. Estávamos, além de cansados, um pouco melancólicos, porque a viagem tinha sido muito especial e, além disso, o Dani logo teria que voltar ao Rio para solicitar o visto. Não tínhamos certeza do quanto isso demoraria e do quanto ficaríamos separados. Parecia que tínhamos passado da extrema felicidade ao pé no chão. 

Antes de voltarmos para casa, passamos no mercado. Não tinha nada em casa para comermos. Compramos umas provisões para os próximos três dias (já que os dias 01 e 02 seriam feriado) e alguns vinhos para bebermos à noite, já que seria a virada de ano. Ainda não sabíamos o que faríamos, se ficaríamos em casa, comemorando de pijama e, quem sabe, com tanto cansaço, dormindo antes da meia-noite, ou se veríamos a queima de fogos no lago de Zürich, a maior da Suíça. 

Chegamos em casa, comemos um macarrão rápido feito pelo Dani, tomamos um banho e nos enfiamos na cama. Ficamos lá o dia todo, dormindo e acordando e pensando no que fazer à noite. Todo 31 de dezembro eu reclamo o fato de não ter nada de diferente para fazer, de o Rio de Janeiro ser intransitável no Ano Novo etc. Pela primeira vez, eu estava em um lugar totalmente diferente e totalmente transitável. Eu tinha que juntar forças para dar uma volta até o lago e conferir se a cidade fantasma acordava para o Reveillon. 

No meio da tarde, algumas pessoas começaram a soltar uns fogos tímidos na vizinhança. A noite começou a cair e a gente continuava desanimado. No site da ZVV, o sistema de transporte de Zürich, eles alertavam que tínhamos que comprar o ingresso de volta, se possível, com antecedência, para evitar filas gigantescas na volta. Aquilo me desanimou mais ainda. Fiquei lembrando dos anos em Copa quando eu tinha que pegar um ônibus lotado ou voltar tudo andando. Não ligo de andar muito, mas não é o meu programa preferido quando é durante a madrugada e, principalmente, após duas semanas de viagem.

Quando já eram dez da noite, finalmente tomamos a decisão. Na verdade, eu estava como sempre indecisa, mas o Dani acabou me convencendo que seria melhor ir do que ficar em casa e dormir. Afinal, teríamos mais quase uma semana para não sair da cama se assim quiséssemos. 

A decisão do que vestir não era tão difícil. Primeiro, ao contrário do Brasil, as pessoas aqui não colocam sua melhor roupa, nem uma roupa nova e nem branca para ir até o lago ver os fogos. Segundo, a noite estava fria e, mais cedo ou mais tarde, todos teriam que colocar seus casacos pesados por cima dos  trajes. Então, não tinha muito que pensar "no que vestir". Coloquei uma roupa padrão e seguimos pra rua.

Para chegarmos ao lago, tínhamos que pegar um ônibus na porta de casa e, a seguir, um tram, que nos deixaria no centro, a uma caminhada de uns quinze minutos de onde seria um bom ponto para assistir à queima de fogos. Assim, conforme íamos nos aproximando do centro, o número de pessoas pelas ruas e dentro do tram ia aumentando. E não é que o povo daqui, normalmente tão contido, estava é animado?? Bêbados, carregando garrafas, falando alto, rindo alto e andando em grupos. E, quanto mais perto do lago, maior era a multidão. Escolhemos um lugarzinho na grama, abrimos o vinho e ali ficamos, conversando  e esperando a virada.

Quando deu meia-noite, foi uma decepção. Os fogos eram mais barulho do que qualquer coisa. Qualquer torcida de futebol pequena no Brasil fazia melhor do que aquilo. A gente achou até engraçado. Não podemos esperar que seja igual Copacabana, pensamos, não é a mesma coisa. Mas tava ruim demais, amador demais, eu não tinha nem vontade de tirar foto. E ficamos ali, olhando e rindo.

De repente, quando já estávamos prestes a ir embora, por volta de umas 12:15, aqueles fogos muquiranas desapareceram. Ficou tudo escuro e preparado para a sequência de fogos que se iniciaria dali pra frente, iluminando o céu em várias cores e em vários desenhos. Aquilo sim foi uma surpresa, foi quase uma pegadinha. Daí descobrimos que, em Zürich, quando chega a  meia-noite, as pessoas soltam os fogos antes, cada um solta o seu democraticamente. Depois de quinze minutos, começa a queima oficial da cidade, que é bem bonita e fica mais bonita ainda naquele visual do lago com as torres das igrejas ao redor. 

Quando a queima oficial acabou, esperamos o lugar se esvaziar um pouco e seguimos pra voltar pra casa, dispostos a ir a pé se fosse necessário. Eu já estava esperando uma fila enorme para compra do ticket (que não compramos com antecedência, porque cogitávamos voltar a pé, se a fila estivesse grande), outra fila para o tram e, obviamente, um tram lotado. Mas não foi nada disso. Chegamos no ponto e não tinha ninguém na fila para comprar o ticket. Dentro do tram, vários lugares vagos. Um tranquilidade. Fiquei muito feliz porque estava cansada demais para enfrentar espera, muvuca ou ter que voltar andando.

O Reveillon em Zürich foi tão  organizado quanto os outros dias, com um pouco mais de gente, é claro. Agora, era voltar pra casa e dormir quanto tempo quisesse.












Londres - Parte II

Estávamos morrendo de medo do voo de volta a Londres, porque, enquanto estávamos na Escócia, houve inúmeras tempestades na Inglaterra, com muita ventania e até um certo caos. Sabíamos que a chance de uma turbulência considerável era  grande. Eu só queria chegar logo.

Dito e feito, a aterrissagem foi uma das piores da minha vida: avião sacudindo, sacudindo muito, e não descia aos poucos, mas em trancos e barrancos. Encostou na pista e deu uma deslizada. Eu acho que estava tão nervosa que nem nervosa estava mais. Quando parou, fiquei tão feliz que nada poderia me abalar. Ou quase nada.

Dessa vez, não compensava para gente pegar o EasyBus. Iríamos nos hospedar em Camden, o que significava ter que pegar outro ônibus ou o metrô para chegar ao hotel. E já estava muito tarde, eram quase dez da noite. Entramos então numa fila gigantesca para comprar o bilhete do outro ônibus para a Victoria Station. Os guichês estavam todos fechados, então, o povo teve que se virar com a maquininha. Mas a fila não andava nunca. Quando cheguei mais perto para ver o que estava acontecendo, enxerguei que ainda faltariam umas duas horas para o próximo ônibus e que ele levaria mais umas duas horas para chegarmos ao nosso destino. Estávamos cansados, doidos para chegar logo no hotel. Decidimos pegar o trem mesmo, era mais caro, mas muito mais rápido. Fomos então a estação do trem e quando chegamos lá um grande fuzuê. Parei perto de duas garotas, que pediam informação a uma agente, para tentar pescar o que estava acontecendo. Acontece que não haveria mais ônibus, nem trem, nem metrô, nem coisa nenhuma mais até a manhã do dia seguinte. Me bateu um desespero em me imaginar cansada e com os pé doendo, sentada  a noite toda naquele aeroporto. Achei que a melhor coisa a se fazer seria tentar arrumar alguém para dividir o táxi. Sim, pegaríamos um táxi do aeroporto de Gatwick até o centro de Londres. Aquilo que todas as pessoas falam para ninguém fazer, porque é muito caro e blá blá blá, foi a nossa única opção. Ficar no aeroporto  eu não queria. Mas a verdade é que eu estava apreensiva, porque sabia que era caro, mas não tinha muito a noção de quanto nos custaria. A primeira coisa que fiz foi me aproximar das tais duas garotas e perguntar se queriam dividir o táxi com a gente. Elas iriam para Earls Court e toparam. Camden  era mais distante, mas não tanto para quem estava em Gatwick. Elas eram americanas da Califórnia e estavam vindo de férias em Roma. Uma delas morava em  Londres e a outra em New York. Então, fomos nós quatro para o guichê dos táxis. Quando chegamos lá, a fila era um caracol. Todo aquele pessoal estava esperando um táxi. Deve ter sido a noite mais lucrativa dos taxistas londrinos. As pessoas foram se agrupando em quatro para economizarem. Depois que entramos na fila, muitas e muitas pessoas ainda continuavam chegando - idosos, famílias com bebês... Para completar, o local onde se formava a fila era perto do estacionamento e voltado para uma parte toda aberta, fazendo com que as pessoas ainda por cima congelassem. Depois de mais ou menos uma hora, chegamos ao guichê. Aquilo significava que daríamos o nosso nome e o local aonde iríamos. A espera ainda seria grande. E o pior era o preço: 160£, sendo que a maior parte ficaria por nossa conta. Quase chorei e me arrependi de não ter ficado para dormir no aeroporto. Para nossa sorte, depois de mais ou menos uma hora de espera, uma das meninas, a que morava em Londres, conseguiu o telefone de um taxista de fora do aeroporto que poderia nos buscar e cobraria 90£, mas demoraria pelo menos mais uns quarenta minutos. Os quarenta minutos se tornaram mais de uma hora e, depois que ele telefonou avisando que havia chegado, ainda demoramos mais uma meia hora para conseguirmos encontrá-lo. E foi uma longa viagem até o centro de Londres. Paramos em Earls Court para deixar as meninas  e fiquei um pouco chateada porque elas só deixaram 30£. Acho que estava sonolenta demais para tomar consciência disso. 

O taxista ainda foi bacana e deu uma volta pela Regent Street, onde os arranjos iluminados de Natal eram dos mais lindos de Londres, e até deu umas dicas de turismo. Nada que a gente não soubesse, mas valeu a simpatia depois de uma noite tão cansativa e estressante. Ele até ligou para o hotel em que ficaríamos para avisar que estávamos chegando.

Mas acho que o maior estresse ainda estava por vir. Assim que saltei do táxi e  olhei para minha mochila, notei que estava aberta. Não vi a minha carteira e cheguei a conclusão que deveria ter caído no chão do táxi. Fiquei desesperada, o táxi parou rapidamente no sinal, mas antes que eu pudesse chamá-lo, acelerou e desapareceu. Entramos no hotel e eu comecei a revirar a mochila - colocar tudo para fora e colocar em cima do sofá do hotel. O cara da recepção - extremamente mal humorado, olhou desconfiado. Perguntei se ele tinha o telefone do taxista que tinha acabado de ligar (bina?), mas ele não tinha. Eu também não tinha o telefone das americanas. E agora? Todos os nosso cartões estavam na minha carteira e, com eles a nossa única opção para retirar dinheiro. Isso durou alguns segundos até eu abrir a bolsinha da frente da mochila e achar a carteira. Sim, estava lá o tempo todo. Eu sempre fazendo estardalhaço achando que perdi tudo. Mas felizmente não foi o caso. Subimos para o quarto sem saber se chorávamos ou ríamos daquela noite. A janela do quarto era exatamente em frente ao holofote da entrada do hotel, fazendo com que o quarto não ficasse escuro nunca. Além disso, como a janela era voltada para a rua, o quarto não era dos mais silenciosos. Mas nosso cansaço era tanto que naquela primeira noite, aquilo definitivamente não teria importância.  

No dia seguinte, ainda muito cansados, fomos ao British Museum. Para a nossa surpresa, o nosso hotel que ficava bem perto do Camden Market não aparecia no nosso mapa. A gente então caminhou até o Regent's Park que era "perto" e já aparecia no mapa. De lá, nos achamos para chegar ao museu. O museu é muito maior do que parecia por fora e estava lotado. A parte ruim é que ainda estávamos muito, muito cansados e nos arrastávamos pelas seções. O museu era gigantesco. Com uma certa lerdeza e sentando de vez em quando, acho que conseguimos ver de tudo. Logicamente, eu estava doida para ver a múmia. Eu e todas as pessoas do museu, devo dizer, pois era a sala mais lotada que tinha ali.

Quando saímos de lá, fomos comer alguma coisa num pé-sujo asiático para variar. Dessa vez, estava uma delícia e a caixinha média, a qual pedimos achando que estaríamos sendo comedidos, era gigante e alimentava uma família. Olhávamos para os lados e víamos casais dividindo uma caixinha igual. Sentimo-nos ogros. E, para o Dani, sempre cabia um chocolatinho a mais. Ainda demos uma passeada por ali, mas o dia foi curto. Preferimos não voltar tarde para o hotel para que o cansaço não se estendesse pelos dias que ainda faltavam. Passamos no mercado, compramos comida, umas sidras e voltamos para o hotel.

E, felizmente, eu me sentia outra pessoa na manhã seguinte. Queria cruzar a cidade fazendo a dança do Poney. Como não estávamos mais tão perto do centro para fazermos tudo a pé, entramos no site de transportes de Londres (Bem parecido com o ZVV de Zürich) e começamos a traçar nossas rotas. O ponto de ônibus era bem na frente do Hotel, o que nos fez preferir ir pra toda a parte de ônibus. Acabamos não comprando nenhuma das opções de cartão, porque, embora a passagem não fosse nada barata, faltavam apenas três dias de viagem e o valor não compensaria. 

Eu precisava mesmo voltar ao Big Ben antes de continuar a seguir as margens do Tâmisa. Para nossa sorte, o dia estava lindo, um sábado muito ensolarado. Fomos primeiro a Trafalguar Square, no ponto final do ônibus 29, que parava bem na nossa porta. Em Londres, o anúncio das estações no auto-falante dos ônibus é uma lavagem cerebral. A cada ponto, a voz falava duas vezes o número do ônibus e  a direção - quando ele parava e quando voltava a andar. Ainda posso ouvir na minha cabeça aquela voz "Twenty-nine... to... Trafalguar Square".

A  Trafalguar Square é supermovimentada aos sábados, um monte de criança correndo pra lá e pra cá, velhinhos sentados nos bancos, casais passeando. Em um dos pilares da praça (the fourth plinth), havia um enorme galo azul (grande mesmo) muito chamativo. Pelo que li na internet, esse galo já gerou muita confusão - uns achando inapropriado por ser pornográfico (!) e outros grupos "ainda mais conservadores" criticaram por lembrar o símbolo da França. E lembra mesmo. Mais legal do que isso na minha opinião foi um artista de rua, na porta da National Gallery, pintando as bandeiras de quase todos os países no chão. Os "gringos" passavam por ali e jogavam moedinhas no quadradinho do seu país. 

Da Trafalguar Square, seguimos andando para o Big Ben,. E finalmente pude vê-lo confortavelmente e fotografá-lo de todos os ângulos. Foi um dos pontos turísticos mais marcantes para mim, possivelmente por ser tão, mas tão clássico, que quando eu finalmente dei de cara com ele, fiquei tentando processar aquele momento e o fato de estar ali. E não era apenas o Big Ben, percorrer as margens do Tâmisa até a Tower of London foi espetacular. Passamos pela London Eye, pelo London Aquarium, pela London Bridge e entramos um pouquinho para o Borough Market. A essa altura já estávamos famintos e aproveitamos para comprar uns docinhos por lá.

O Borough Market tem cada guloseima de dar água na boca. Tem também umas coisas bem "rústicas" que não me agradam nem um pouco, como uns pedaços de carne enormes expostos e, às vezes, até o bicho inteiro. Tem também o tal do Black Pudding que, a primeira vista, se parece muito com um brownie, mas, na verdade, é feito de sangue de porco. O mais curioso para mim é que esse "pudim" costuma vir no meio do café  da manhã - aquele com feijão, ovos, batatas... Eu normalmente sou uma pessoa que prova, mas dessa vez não foi preciso.

Seguimos. Nossa última parada antes de voltar era a Tower of London, muito imponente e com muitas histórias guardadas. Fiquei mais uma vez tentando processar aquele momento. Antes de voltarmos o Tâmisa, fomos até a fortaleza e o palácio que se seguiam a torre. O delicioso dia de sol tinha trazido muita gente às ruas e ali era um lugar especialmente cheio, talvez pelo pista de gelo para patinação colocada no fosso do castelo, onde provavelmente ficavam os jacarés para impedir a entrada dos invasores (Ao menos, era o que eu gostava de imaginar). Ficamos ali um pouquinho, sentados no sol. Comemos um peixe empanado com batata frita super-hiper recomendado pelo Chris. Muito gorduroso, mas muito gostoso. 

Quando voltamos, já estávamos cansados. Os papos estavam  mais espaçados, as paradas para fotos menos frequentes. Ainda passamos no caminho pela lindíssima Saint Paul Cathedral, onde se casaram Príncipe William e Kate Middleton e, mais importante do que isso, onde, dizem, foi gravada a cena de Mary Poppins da velhinha alimentando os pássaros.

A última parada naquele dia foi a Regent Street. Eu precisava ver aquelas luzes de Natal de novo, aquelas que o taxista havia nos mostrado. Infelizmente, a rua estava muito cheia e ainda não estava tão escuro para que pudesse registrar a decoração. No dia do taxista, estava muito, muito mais bonito.   

Domingo seria o dia do Mercado de Camden, ali pertinho  do hotel. De lá, seguiríamos o canal até a Little Venice. O Mercado de Camden era  uma reunião de lojinhas, camelôs e restaurantes, onde se pode comprar de tudo: coisas modernas, antigas (vintage), novos, usados, coisas úteis e inúteis. Roupas, artes, jogos, souvenires e todo o tipo de bugiganga para todos os gostos podiam ser encontrados por lá. A quantidade de gente circulando ali era incrível, todo tipo de gente. Era uma  muvuca tão grande que havia, inclusive, uma placa recomendando atenção a batedores de carteira ou "pickpockets". Ficamos super animados com o local. Demos umas voltas e resolvemos ir até Little Venice. A ideia era passearmos por ali novamente na volta.

Começamos a caminhar então na beira do canal. Logo no início, nós e um monte de gente paramos para ver um casal abrindo umas comportas  hidráulicas ou algo assim para que o barco deles pudesse passar. Nunca tinha nem parado para pensar naquele tipo de coisa e nem me dado conta que aqueles barcos precisavam fazer aquilo, mas foi interessante ver. Continuamos. Caminhamos, caminhamos, caminhamos. O visual era super bonito, com casas e prédios lindos. Quando chegamos a Little Venice propriamente, tudo estava bem pacífico, com muitos pássaros, muitas flores e poucas pessoas, um silêncio. Nem parecia que estávamos na mesma cidade. Ficamos ali um tempinho e pegamos o caminho de volta.

Andamos um pouco pelo canal, mas, na metade do caminho, mudamos a rota e entramos no Regent's Park. Eu li na internet (mas não sei se a informação é verdadeira) que seria aos portões desse parque que Bert faria seus desenhos no chão em Mary Poppins - aqueles desenhos onde eles mergulham para um mundo de fantasia paralelo. O parque é muito verde, muito grande e cercado por prédios lindíssimos, que, pelo que soube, compõem uma vizinhança endinheirada. Muitos cachorros correndo, crianças brincando e campinhos com pessoas jogando futebol espontaneamente (sem aquela obrigatoriedade de uniforme, caneleira, posição predeterminada etc, que vemos em Zürich). Atravessamos o parque ensolarado e tomamos mais uma vez a rua que nos  levaria a Camden. Estávamos famintos e, antes de voltarmos aos Mercados, resolvemos parar para comer alguma coisa num restaurantezinho por ali. O restaurante, diga-se de passagem, parecia aquele da Dona Florinda, mas era bem aconchegante. Eu pedi uma omelete de cogumelos e um capuccino. Depois, vimos que o famoso café da manhã, oferecido em diferentes combinações, podia ser servido o dia inteiro e decidimos comê-lo de almoço. O meu tinha salada, feijão, batata frita e mais cogumelos! E estava uma delícia! Aí sim, de estômago cheio, pudemos voltar ao Mercado. 

Estávamos fascinados. Falamos o tempo todo como Londres era legal, como as pessoas pareciam livres para serem como bem entendessem. Talvez porque tivesse gente de tudo que é jeito por lá e não desse para apontar todo mundo que passasse. Bem, essa foi a nossa impressão, não tenho ideia se é assim mesmo. Afinal, turista nunca sabe das coisas. O fato é que o lugar tem uma energia legal, apesar da "atenção aos pickpockets". Ficamos horas por ali, só voltamos para o hotel quando já era noite. E estávamos felizes da vida. Vimos punks verdadeiros, todo tipo de música tocando, todo tipo de comida a venda  e até uma lanchonete onde os banquinhos eram motos! Foi muito divertido! Estávamos no Mercado de Camden e discorrendo sobre o Mercado de Camden o tempo todo. 

Quando voltamos para o hotel, já era tarde e o dia seguinte seria o último dia. Já estávamos começando a ficar nostálgicos. E para uma combinação perfeita com nossa nostagia, o último dia era uma segunda-feira e amanheceu nublado e chuvoso. Mesmo assim, resolvemos ir a Notting Hill, passear pelas ruazinhas e conhecer o tal do mercadinho de rua. Infelizmente, o clima não estava dos mais aprazíveis, o céu era cinza e as ruas estavam completamente vazias. Para completar, ventava muito e fazia frio. Entramos logo num café por ali para bebermos algo quente. Eu aproveitei e resolvi provar a tal da mince pie.

Não ficamos por ali mais muito tempo. Pegamos um ônibus e seguimos para o centro. Queríamos ir ao Covent Garden e eu ainda pretendia fazer umas comprinhas na Primark. Antes disso, no entanto, já com fome, resolvemos ir novamente ao Pizza Hut 'all you can eat'. Um pouco mais caro do que em Edimburgo, mas era exatamente o que queríamos naquele dia, comer muito.

Depois, seguimos ao Covent Garden. Estava lotado de gente e, logo na entrada, havia uma topiária gigante de uma rena do nariz vermelho. Circulamos um pouco por ali, tiramos umas fotos, mas não compramos nada. Visitamos uma igrejinha ali do lado e voltamos para a tão esperada Primark. O Dani preferiu não entrar.

A loja estava completamente lotada e parecia um campo de guerra, onde todo o chão era um campo minado de roupas, sapatos e bolsas e as pessoas quase se estapeavam  para conseguir o que queriam. Infelizmente, eu não podia  levar muita coisa por causa da bagagem de mão no avião. Eu ainda cogitava a possibilidade de ir vestindo várias camadas de roupa... cogitava mesmo! Mas, logicamente, ainda assim, não tinha como levar tudo que eu gostaria. Peguei basicamente o que achei que seria necessário para enfrentar o frio de janeiro. Todas as blusinhas, os vestidinhos, as bolsas etc., tive que deixar para trás. A fila para o caixa dava umas quatro voltas. Mulheres enlouquecidas se revezavam para pegar as últimas coisas sem perder o lugar. Até seguranças cruzando a loja com um bando de adolescentes, supostamente roubando coisas, eu vi. Não é para qualquer um não. O Dani já teria enlouquecido se não tivesse trazido o mp3 e decidido dar uma volta pelas redondezas.

No dia seguinte, teríamos mais uma vez que acordar bem cedinho, ainda de noite, na verdade. Para nossa sorte, a volta seria pelo aeroporto de Luton e a rota do EasyBus para lá passava perto de Camden. Teríamos que acordar, comer alguma coisa e pegar um ônibus até a Baker Street, onde pegaríamos o EasyBus. Chegamos cedo demais e ainda tivemos tempo de sentar e tomar um café no Costa. Eram umas cinco da manhã e as pessoas pareciam incrivelmente bem humoradas. Chegamos cedo demais também no aeroporto - sempre cumpro as duas horas de antecedência, pro caso de pegar alguma fila ou algo assim, mas sempre faço tudo muito rápido e fico mofando pelo aeroporto, amargando a tensão do voo em poucas horas. Estávamos muito cansados, com muito sono, e era manhã do dia 31 de dezembro. 

Edinburgh

Quando chegamos em Edimburgo chovia e fazia muito, muito frio. Mas, ainda de dentro do ônibus, já pudemos perceber a lindeza de cidade que nos esperava. Antes de procurarmos o hotel, resolvemos comer logo alguma coisa, porque a fome era negra. Tão negra que optamos pelo Pizza Hut 'all you can eat', incluindo saladas, massas e pizzas, por 7£! Saímos de lá felizes da vida e fomos ao hotel deixar nossas coisas. O hotel era ótimo, consegui reservar numa mega promoção do Booking a preço de banana. Só tinha duas desvantagens em relação aos demais - não tinha nem café da manhã e nem internet nos quartos. Ou melhor, tinha ambos mediante uma taxa "simbólica" de 13£ e 30£, respectivamente. Mas o conforto do quarto compensava. Seria um ótimo lugar para recarregar as energias. Mas a gente passou rápido por ali e já correu para a rua. O dia seguinte seria Natal e o Castelo estaria fechado e o dia 26 estava reservado para o  esperado Mary King's Close!! Não queríamos fazer tudo no mesmo dia, então, decidimos ir ao Castelo logo. Além disso, havia essa história de que no dia 25 tudo está fechado, tudo mesmo! Então, precisaríamos passar no mercado para comprar comida suficiente.

O Castelo era perto do Hotel, era só subir uma ladeira e lá estávamos. E no alto da ladeira, a vista da cidade já é espetacular. Estava muito encantada. As ruelas estreitas, os prédios antigos, os telhados com chaminés... de novo, me senti num filme. Ainda ficamos ali admirando tudo em volta antes de subirmos, de fato, ao Castelo. E quando chegamos lá, uma ventania muito forte nos pegou, as bandeiras se enrolavam todas, os tripés com propagandas do local caíram no chão e as pessoas se aproximavam e se encolhiam.  Nas filmagens, mal conseguíamos nos ouvir, apenas o barulho do vento. Ao contrário de Milão, o Castelo em Edimburgo era por si só uma atração.  A gente podia visitar tudo ali, desde os pátios externos, até os recintos reais, a capelinha, a prisão, a exposição da coroa, a sala de armas... minha imaginação fértil foi para bem longe.

E o frio aumentou quando o sol começou a se pôr. Eu mal conseguia ir de um pavilhão a outro do castelo sem congelar. Ainda estávamos lá quando anoiteceu. O Castelo se encheu de luzes vermelhas - Dani odiou. Depois descobrimos que era especial para o Natal.

Ainda andamos um bocado pela cidade depois disso. Entramos no mercado de Natal (Sim, ainda estava aberto!) e nos sentimos no mais genuíno dos natais, ouvindo musicas típicas e vendo as crianças (e adultos) patinando no gelo. Foi engraçado ver que as ruas logo começaram a ficar vazias e as poucas pessoas que ainda passavam estavam apressadas, provavelmente para encontrar suas famílias na véspera de natal. E nós estávamos calmamente andando pela cidade, encantados, sem compromisso, sem ceia de Natal, nossa única preocupação era encontrar o mercado aberto. Compramos comida indiana (sim, nosso mais novo vício), vinho, uma sobremesa e voltamos para o hotel. Estávamos muito felizes, mas confesso que, quando começou a passar na TV um concerto de músicas natalinas, ficamos um pouco melancólicos. 

O dia seguinte, com tudo fechado, era o dia de passear pelas ruas e parques da cidade. Foi um dia muito divertido. Ficamos o dia inteiro pra lá e pra cá. E, como Edimburgo é relativamente pequena, pudemos passar pelos mesmos lugares várias vezes, o que fez parecer que passamos um mês na cidade. Começamos pela parte velha da cidade e, na rua principal, já nos assustamos com a quantidade de becos estreitos e escuros, cada um com o nome próprio,. que ligavam a Royal Mile a outras ruas. Em um desses becos, o Mary King's Close, seria a nossa visita às ruas  subterrâneas de Edimburgo, no dia seguinte. Andar por aquela rua só me deixou mais ansiosa. No final dela, havia um lindo palácio, que estava fechado, e um parque gigantesco. De lá, podíamos subir pequenas serras e ver a cidade lá de cima. Logicamente, não tínhamos tempo para subir em todos, mas escolhemos um, perto de um laguinho. O clima não poderia estar melhor para isso - frio com sol. 

Deste parque, seguimos em direção a Princess Street e paramos em um ponto ainda mais alto - um ponto de observação de onde, diziam, se tinha a melhor vista de Edimburgo. Eu nem sei, vi Edimburgo de tantos ângulos diferentes que já nem sabia meu preferido. Mas acho que esse, com certeza, era o mais alto. Edimburgo é tão, mas tão linda, que eu tirei dezenas de fotos de cada ponto, porque toda vez que passava de novo pelo mesmo lugar, me surpreendia com a visão e queria um  novo registro. Sempre achava que poderia ficar melhor do que a anterior. O Castelo, que era tão perto do hotel, foi um dos alvos preferidos. Cada vez que saíamos ou chegávamos, víamos uma luz diferente, um ângulo novo, algum detalhe... a gente nunca queria perder o momento.

Nesse dia, antes de voltarmos ao hotel, decidimos passar novamente pela Royal Mile, queria ver aqueles becos à noite e seria a única oportunidade. Aproveitei para checar exatamente onde seria a entrada para as ruas subterrâneas em que iríamos no dia seguinte. Caminhamos mais uma vez calmamente por ali. A rua estava movimentada a essa altura e as pessoas pareciam todas satisfeitas e empolgadas. Já estávamos sentindo saudades  antes de irmos embora.

Na  manhã seguinte, largamos nossas malas no depósito do hotel e fomos aproveitar nosso último dia. Demos uma volta pelas redondezas e chegamos ao Mary King's Close. Foi um tour assustador - e não apenas porque ele se propõe a isso, mas porque estávamos pisando no real lugar onde tudo aconteceu, na época em que famílias inteiras viviam em micro-casas, debaixo das ruas de Edimburgo. As histórias dos fantasmas que já passaram por ali assustam de verdade, mas o que acontecia antes desses fantasmas já era por si só de embrulhar o estômago. Parecia que nesse momento, tínhamos fechado nossa estadia em Edimburgo. Depois do almoço, já precisávamos nos preparar para ir ao aeroporto. 

E resolvemos almoçar num restaurante muito interessante. Por fora, parecia a entrada de um clube ou algo assim, mas, por dentro, era um lugar enorme, com múltiplos salões, cheios de mesas e balcões, com telões passando jogos de futebol. A decoração lembrava as de salões antigos, com portas de madeiras e detalhes em dourado, mesas e cadeiras de madeira pesadas  e quadros mórbidos de pessoas na parede. No salão principal, não eram permitidas crianças. Conseguimos descolar uma mesa (Não foi fácil!) e pedimos... um curry! Sim, não conseguíamos evitar!!! Às vezes, eu bem que tentava escolher algo diferente, mas sempre acabava na comida indiana. Para amenizar, comemos 'onion rings' de entrada - deliciosas! Dani tomou uma daquelas cervejas gigantes e adorou. Saímos de lá sonolentos. Precisávamos apenas pegar as malas no hotel e seguir ao aeroporto.