O Carnaval ou Fasnacht de Basel é o mais famoso da Suíça. Tudo bem que todo ano eu prometo que vou fugir do Carnaval de alguma forma no ano seguinte, mas esse ano foi o contrário. Eu fui atrás do Carnaval. Afinal, não é todo dia que a gente pode ver o Carnaval na Suíça. Eu estava curiosa. A festa principal se chama Morgestraich e começa às quatro da manhã de segunda-feira. É uma das festas mais tradicionais da Suíça e o pessoal daqui é todo orgulhoso dela. Ao contrário do que estamos acostumados no Brasil, você não deve usar nenhuma fantasia nesta festa e muito menos tocar instrumentos. Não pode ofuscar o pessoal do desfile. A festa fica toda por conta deles.
Haveria um trem extra saindo de Oerlikon até a HB e, de lá, dois trens extras que sairiam a partir das duas da manhã. Foi o que fizemos. Eu estava com muita preguiça de sair de casa mais de meia-noite de domingo. O Dani não poderia ir porque tinha entrevista na imigração na manhã seguinte, o que me deixou ainda com mais preguiça. Afinal, ele estava indo dormir, de pijama, enrolado no edredom e quentinho na cama, e eu me arrumando para sair. Há quanto tempo não saía tão tarde de casa. Acho que desde a época da Bunker. Talvez por isso a preguiça. Não estava mais acostumada. Tentei dormir tarde no dia anterior, acordar bem tarde e até cochilar na parte da tarde e início da noite. Mas a única coisa que deu certo foi dormir tarde. Ou seja, estava bem cansada.
Seria um programa de meninas. Encontrei a Andrea em Berninaplatz a uma da manhã e caminhamos até a estação de Oerlikon. Pegamos o trem extra para a HB, onde a Diane nos esperava. Estávamos muito animadas. Nenhuma de nós conhecia a festa ainda. O trem estava bem cheio, mas com assentos para todos. Bem melhor do que minha expectativa, que era ficar uma hora em pé até Basel. Um pouco antes de chegarmos lá, um amigo da Diane, chamado Mandela a encontrou e sentou junto com a gente para conversar. Ele falou inglês o tempo todo, embora, segundo ela, morasse na Suíça (era um ex-namorado de uma amiga). Talvez se sentisse mais confortável com o inglês, porque era americano. Ele não parou de falar um minuto e ficou andando com a gente um bom tempo em Basel. Mas não estava na mesma vibe que a gente, a gente queria ver a festa, ele queria bebida e 'zoação'. Então, quando eram um pouco antes das quatro, ele foi para muvuca e a gente ficou rondando as ruazinhas.
A cidade estava muito cheia e, por toda parte, podíamos ver pessoas com suas fantasias ainda semi-vestidas, carregando as máscaras e o instrumento nas mãos. Alguns mini-carros alegóricos iluminados, trazendo mensagens políticas, também passavam de vez em quando. Pelo que entendi, havia vários grupos diferentes e cada grupo tinha o seu carro e seu estilo de fantasia, provavelmente também uma musiquinha própria. Como já eram perto das quatro, as pessoas começavam a se posicionar nas praças e ruas, por onde os grupos passariam. Legal ver que havia muitos velhinhos e crianças de todas as idades esperando pelo cortejo, mesmo no meio da madrugada. É uma tradição da qual as pessoas daqui gostam muito de participar.
Antes que o desfile começasse, entramos numa padaria lotada para comer uma das guloseimas tradicionais do carnaval de Basel, uma espécie de quiché de cebola e queijo - deliciosa! Caiu muito bem, porque eu começava a ter sinais de fome. Aproveitamos e compramos o broche da festa, que é tradicional e todo mundo deve usar. Era até bem bonitinho, cor de bronze, no formato de um folião mascarado. Depois disso, nos posicionamos também na praça da igreja que, pelo que soubemos não ficava tão abarrotada de gente e esperamos pelo início. Estava muito frio. Eu não sei o que se passou pela minha cabeça que não fui com meu repertório de frio 100% completo. Só porque os dias em Zürich estavam agradavelmente ensolarados ultimamente. Mas, é claro, de madrugada, eu deveria ter esperado esse frio todo.
Quando o relógio da igreja bateu as quatro da manhã, todas as luzes da cidade se apagaram. Ficou um breu. De repente as luzes dos carros alegóricos se acenderam e também as luzes nas caixinhas que os integrantes traziam na cabeça. E eles começaram a tocar as músicas. A coisa mais legal do Carnaval de Basel é que ele é organizado e espontâneo ao mesmo tempo. A música era arrastada e tocada basicamente com flauta e tambores. Cada grupo tocava a sua música, mas todos tocavam ao mesmo tempo. E eles começavam a desfilar aleatoriamente pelas ruas de Basel. E as pessoas iam seguindo. Às vezes, a gente via uns grupos de três ou quatro gatos pingados perambulando, impassíveis, tocando a sua música. Eles não interagiam com as pessoas, pareciam bonecos, continuavam tocando e andando. As máscaras eram normalmente um tanto assustadoras, narigudas, olhudas, descabeladas e com expressões não menos assustadoras. Me lembraram muito as fantasias que os personagens usavam na festa em "Wicker Man". De fato, junto com a quase total escuridão, aquilo seria o mais perfeito cenário pra um filme de terror.
A parte ruim é que eu não consegui tirar nenhuma foto boa. Sem flash, era impossível. E, mesmo com flash, só saíam uns pontos luminosos no meio do fundo preto. Além disso, a Andrea me chamou a atenção para não usar o flash e ser estraga-prazeres, afinal, uma das características dessa festa é ser no escuro mesmo.
Passavam das cinco da manhã e os integrantes já estavam bem dispersos. Como estávamos com muito frio, entramos num dos vários cafés que estavam abertos naquela noite e nos aconchegamos. Tivemos sorte de conseguirmos uma mesa, porque àquela hora todo mundo estava mesmo querendo um lugar quentinho para ficar. Tomei um café e experimentei a sopa também tradicional do Carnaval de Basel. Eles serviam numa espécie de mini-panela e você deveria segurar a colher com uma das mãos e, com a outra, o cabo da panela. Bem rústico. Ficamos ali um bom tempo, o cansaço e, principalmente, o sono estavam perceptíveis.
Quando saímos, já estava claro e eu fiquei feliz, porque ainda daria tempo de tirar fotos das fantasias, já que muitos foliões ainda estavam pelas ruas tocando. No entanto, depois de tentar tirar fotos com flash durante a noite e fazer um filminho, a bateria do meu celular acabou e eu consegui tirar apenas duas fotos,sendo uma delas tremida. Nós todas concordamos que eu teria que voltar para o carnaval de Basel do ano que vem.
Os créditos abaixo são do site turístico myswitzerland. E logo depois, estão as fotos de "Wicker man" para comparação.




Os créditos abaixo são do site turístico myswitzerland. E logo depois, estão as fotos de "Wicker man" para comparação.




E, para ninguém dizer que sou doida, abaixo as fotos de "Wicker Man":


Que medo...












































