sexta-feira, 21 de março de 2014

Milão

A viagem para Milão começou bem atípica. Levantei não eram seis da manhã, porque precisava estar às 7:50 na estação de trem. Fizemos tudo rapidinho e saímos animados. Dentro do ônibus, fui checar novamente as passagens e aí veio a triste realidade - o trem sairia às 7:09 e não às 7:50. Não tenho a menor ideia de onde tinha tirado aquele outro horário. Talvez estivesse tão cansada da última semana que não estivesse com a atividade cerebral 100% disponível.

Fiquei muito triste. Vamos voltar pra casa, né? - O Dani disse. Eu fiquei como estátua no banco do ônibus. Não acredito, não acredito. Pensei, pensei e falei "Quer saber? Nós vamos sim!"

Afinal, a passagem de volta estava comprada e o hotel estava reservado. O prejuízo e a decepção seriam grandes se a gente não fosse. Era só comprar duas novas passagens de ida. Lógico, não estava nos planos, mas acredito que fosse a solução mais sensata.

Assim fizemos e então esperamos mais aproximadamente duas horas para o próximo trem para Milão. Tínhamos acordado cedo a toa, certo, mas isso não tirou o nosso ânimo. 

A viagem de ida já foi um show a parte. O trem passava por paisagens lindas como eu nunca tinha visto, cruzando inúmeros lagos aos pés dos Alpes. Tirei 200.000 fotos. Não deu nem para dormir,  porque não queria perder nada.

Quando chegamos a Milão, o primeiro desafio foi achar o hotel. Compramos um mapa numa banca de jornal e fomos seguindo. Achar a rua do hotel não foi difícil, assim como não foi difícil achar a praça onde ele ficava. Mas ali estávamos nós e cadê o hotel??? A  tal da praça tinha uma numeração sem sentido para nós. Quase acreditei que tivéssemos sido vítimas de uma fraude. 
Na praça, estava havendo uma pequena feira de alimentos e artesanato. Vou perguntar para alguém, pensei, nem precisam saber falar inglês, é só dizer o nome do hotel - XXII de Março.Cheguei perto de uma senhora e falei o nome do hotel - com o meu acento italianesco, é claro, que eu usava para tudo enquanto estava lá. Não sei como isso aconteceu, mas de repente juntaram-se quase dez pessoas para tentar descobrir onde era o hotel, e eles debatiam e quase se batiam e gritavam, embora ninguém de fato soubesse onde era o hotel. A tal da senhora  ficava me cutucando "Tutti ventidue di marzo!!" e abria os braços na direção dos dois lados da rua. Sim, o nome da rua também era vinte dois de março. Essa frase virou um jargão para gente em todas as viagens. A nossa vontade foi fazer como em brigas de desenho animado, quando se forma aquela nuvem e quem causa a briga sai de fininho  por baixo. 

E continuamos sem descobrir onde era o hotel. Mortos de fome, resolvemos entrar em algum lugar para comer e eu aproveitaria para checar o mapa no computador. Ai, para ser bem clichê, resolvemos comer uma pizza, uma fatia gigante para cada. Deliciosa. Deliciosa. Não sei se demos sorte ou se, realmente, a pizza italiana faz jus a fama.

Após checar no computador o lado certo da praça onde o hotel estaria, percebemos que o hotel estava na verdade coberto por aquelas redes colocadas em fachadas para renovação. Por esse motivo, não havíamos nos dado conta de que o hotel poderia estar ali embaixo.

E, apesar disso, era um hotel charmosinho com funcionários bem amigáveis. Mas o que queríamos mesmo era largar as coisas por ali e correr para passear na cidade, afinal já estávamos 2 horas atrasados em relação ao que imaginávamos.

Embora Milão seja uma cidade grande, a parte turística é facilmente explorada a pé. A gente foi logo a praça principal e se deparou com a linda catedral, Duomo di Milano. Entramos, assistimos a um lindo coral, com instrumental de fundo e direito até a telão. Embora eu não seja católica nem nada, achei emocionante. Após isso, subimos até o teto da catedral e chegamos lá em cima bem quando o sol começava a se por. O local estava cheio de gente, mas deu para parar um pouco e contemplar o visual, ver a praça principal lá de cima e  acompanhar a mudança de cor do céu. 

Quando descemos entramos na galeria bem do lado da catedral. Uma galeria de moda muito bonita, onde ficavam as lojas de grife mais famosas. Logicamente não comprei nada. Logo anoiteceu, mas, como ainda era cedo, umas seis da tarde, resolvemos caminhar até o castelo.

E a rua que se seguia até lá era apaixonante! Cheia de prédios antigos, restaurantes com mesinhas na rua e até o resto de uma vila, com um poço dos desejos no centro.  Logo na primeira esquina tinha um cara com seu violão,  tocando músicas românticas, e eu estava tão no clima que quis parar um pouco para ouví-lo. 

Continuamos seguindo, encontramos outros grupos cantando músicas natalinas ou fazendo algum tipo de demonstração na rua. As pessoas passeavam por ali conversando alto, rindo alto, gesticulando, tudo o que eu esperava dos italianos. Até as crianças pequenas gesticulavam, o que nos causou crises de riso.

Paramos para experimentar o famoso sorvete italiano (embora estivesse razoavelmente frio) e, por recomendação da Rachel, escolhi o de tiramisu. Delicioso! Sentamos num banquinho para tomar nosso sorvete e, como se não faltasse nada, nos deparamos com uma passeata Hare Krishna. Dezenas de pessoas cantando e girando naquelas roupas. Um deles veio diretamente na gente e nos deu dois docinhos, parecia uma paçoca. O Dani ficou todo feliz, mas eu logo estraguei a felicidade dele, dizendo que "sabe-se lá onde esse cara andou com essa mão!" E era verdade, não sou nada fresca para essas coisas, mas não sei desde onde eles vinham dançando e aquele docinho cozinhando na mão dele... não dava. O Dani ainda ficou preocupado em esperar todo mundo passar e colocar os docinhos em um lugar diferente para o cara não ficar chateado.  

Seguimos até o castelo. Já estava noite, então, deixaríamos para entrar lá e visitar o parque que vinha logo atrás no dia seguinte. A parte boa foi que pudemos ver o castelo todo iluminado e realmente valeu a pena, porque estava lindo! Ao voltarmos, ainda tivemos tempo de passear pela feirinha de natal e sentar na praça de frente para a catedral, agora iluminada.

O dia seguinte seria o dia de visitar o castelo e ir a feirinha de antiguidades às margens do canal (rio, lago, sei lá). Fomos primeiro ao castelo e ficamos bem impressionados...  era um castelo de verdade! A parte chata foi que não tinha uma visita de fato ao castelo, você visitava os jardins e, na parte interna, apenas diferentes museus. Então, a graça foi ver o castelo de fora. Logo atrás, havia um parque enooooorme, super harborizado e com vários laguinhos, muito agradável.  

Depois disso, eu queria ir ao tal canal. Na foto, parecia lindo e ficava no bairro boêmio-artístico da cidade.  O Dani estava meio desconfiado, porque nada chamava muito a atenção no mapa. Achou que fosse furada. Mas a gente foi. E o canal era uma graça, com uma feirinha de antiguidades ótima de um lado a outro e cheio, cheio de gente. Passeamos por ali, atravessamos as pontezinhas, olhamos as quinquilharias e vimos, inclusive, umas coisas bem interessantes. Eu adorei! 

Saímos de lá famintos e resolvemos almoçar num restaurante indiano ali perto que tinha um preço até razoável. Entramos e até estranhamos, porque o lugar parecia ser muito chique para os preços que vimos. Depois de muita dúvida, escolhemos nossos pratos e pedimos ao garçom. Acho que fomos mal vistos, porque não quisemos nem entrada, nem um petisco antes do prato. Talvez por isso tivéssemos achados os pratos baratos - acho que ninguém não come entrada ali. Fiquei até com medo de vir pouca comida, mas a quantidade era mais do que suficiente. E a comida era deliciosa. Percebi que nunca tinha provado comida indiana, talvez um quitute ou outro, mas não um prato principal daquela forma. Gostei muito.

Na volta, o Dani resolveu parar no mercado e comprar um mega torrone. Fomos novamente para a frente da catedral, agora iluminada, para sentar um pouco e comer o torrone. Infelizmente, o torrone era muito muito muito duro. Morder aquilo era arriscar os dentes. Eu desisti, mas o Dani não e acabou comendo tudo sozinho. No interior da catedral, algum evento militar comemorativo estava acontecendo, porque havia inúmeros jovens fardados e vários senhores com o mesmo chapéu, um verdinho com uma pena. Talvez, por causa disso, a praça estivesse bem cheia. E uma coisa que não se vê em Zürich - todas as lojas e supermercados abertos em pleno domingo, talvez pela proximidade do Natal. Mas em Zürich nem mesmo assim...

Adoramos a cidade e  ficamos tristes na hora de embora. Fomos caminhando com calma para a estação de trem. Na praça em frente a estação, havia uma pista de patinação no gelo e várias barraquinhas em volta vendendo comida. Comemos um sanduíche por ali e entramos para aguardar o horário do trem.

O nosso vagão estava lotado e, ao nosso lado, viajavam quatro amigas cheias de tralha que não paravam de falar durante boa parte da viagem. A gente especulou um tempo sobre o idioma que falavam e depois desistiu. Soava como italiano, mas não conseguíamos entender um palavra sequer. Cogitamos ser o quarto idioma suíço, mas isso foi pura teoria da conspiração.

Quando cheguei na Zurich HB, queria me teletransportar para casa. Estava muito cansada. Acho que vinha acumulando o cansaço por tantos fins de semana sem ficar em casa. E a próxima parada seria a viagem de dez dias ao Reino Unido. A gente só ia parar mesmo no ano seguinte.







































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