sexta-feira, 21 de março de 2014

Grüezi

Saímos do Brasil com as malas semiprontas. Soubemos no dia anterior que iríamos naquele dia. Tínhamos tanto medo que deixamos tudo para a última hora. E eu ainda tinha que separar um lugar na minha mala para os meus reagentes. Sim, eu estava levando reagentes para o meu projeto.  No manual, diziam que não havia perigo no transporte. Então, juntei toda a papelada e fui. No aeroporto, avisei ao pessoal da Air France que estava levando aqui. Se desse problema, eles estavam sabendo de tudo.
Então, fomos. Já na sala de embarque, o Dani babava... babava mesmo! Ele resolveu tomar um Diazepam para enfrentar bem as mil horas de voo. Eu preferir não tomar. Tive medo de ter um treco, da minha pressão  baixar, de ter uma embolia pulmonar quando chegasse por causa da falta de movimentação dentro do avião. Assim, o Dani dormiu a viagem inteira e eu fui acordada a viagem inteira. Não preguei os olhos. Minha única diversão foi a comida. A opção vegetariana foi um acerto. A comida chega antes e é uma delícia.  O Dani teve inveja quando abriu os olhos. 
E além do sono, da dor no pescoço e do medo do avião cair, ainda tinha o estresse do kit e o estresse da imigração. O tempo inteiro eu fiquei achando que alguém chamaria meu nome pelo microfone, talvez a Interpol cobrando explicações a respeito do Kit. Mas até a conexão em Paris, ninguém reclamou de nada. 
Só que em Paris teve a temida imigração. Chegamos com mochila, bolsa, pasta do laptop, pasta de documentos, casacões e cachecol. De fato, a tal da imigração fez um monte de perguntas, quis ver toda a papelada. Eu mostrei tudo. A gente tinha contrato de aluguel, mas ela queria saber onde a gente dormiria naquela primeira noite. A gente tinha cash em Franco Suíço, porque iria para Suíça em duas horas, mas ela queria Euro. No fim, acho que encheu o saco, balbuciou algumas coisas, passou a papelada toda bagunçada pelo vidro e carimbou nossos passaportes. quando cheguei na sala de embarque,  senti falta do cachecol, voltei um pouco, mas não encontrei. Não quis voltar até a imigração. Vai que ela muda ideia!
Na conexão, ninguém chamou pelo meu nome. Ninguém queria explicações sobre o kit. O voo atrasou. Ficamos de olho nas pessoas, indo e vindo. Estávamos em Paris. Dentro do aeroporto, mas estávamos em Paris.
E chegamos bem em Zürich. As malas estavam todas lá, todas com o adesivo de “Inspected”, mas todas completas. Pelo menos, o kit e o perfume, o que tínhamos de mais caro, ainda estavam lá. O resto ninguém iria querer.
Estávamos agora com três malas grandes e cheias, violão, mochila, bolsa, pasta do laptop, pasta de documentos e casacões. Vamos então para o Hotel... de trem! Porque “táxi na Europa é muito caro”, todos disseram. Esquecendo-se de dizer que estávamos de mudança e chegando na hora do Rush!  Mas lá fomos nós, os pão-duros. A estação de trem fica dentro do Aeroporto. Encontramos um guichê de informações que, por sorte, também vendia tickets para o trem! A mulher me mostrou o mapa da cidade, explicou uma coisa ou outra, como se chegava ao Hotel e era muito fácil. Nem dei muita bola. Queria ir embora logo e me livrar das malas. 
Tá bom. Quando entramos na Estação de trem, havia quinhentas bilhões de escadas rolantes para trocentos portões de embarque.  Vale lembrar que o transporte público em Zürich funciona maravilhosamente bem, mas, se você não conhece um pouco, o desespero é total. Descemos, então, para os portões 3 e 4. Isso eu sabia, pois embora eu não tivesse ligado para o que a mulher do guichê tinha dito, ela tinha felizmente anotado num papel. Enfiamos os bilhetes numa caixa amarela e descemos a escada rolante. 
Na plataforma de embarque, muita gente. Muitos trens diferentes. E agora??? No nosso bilhete, uns números, uns horários, nada muito elucidativo. Quando perguntávamos, as pessoas, apressadas, respondiam com um ar blasé , com se fosse tudo muito óbvio. Deu vontade de chorar. Mas quando ficou mais vazio, achamos uma pessoa mais paciente e, mais corajosos e confiantes, entramos no trem.
Chegamos na Zürich HB, Zürich Hauptbahnhof ou, simplesmente, Main Station. Lotada. A principal estação da cidade, com partidas locais, regionais e internacionais. Saímos puxando as malas, muito estressados. Saímos da estação e finalmente vimos a cidade, tudo ficou mais bonito, com seu lindo lago e suas luzes, aquelas construções antigas ao redor, as igrejas... Eu vi a H&M também, mas nessa hora, não podíamos parar para nada.  
Depois de muita coisa bonita pela rua, chegamos ao Hotel para largarmos as malas e sairmos para comer algo e dar uma olhadinha naquela parte da cidade. Aí percebemos que Dani tinha perdido a carteira – com cartão de crédito, identidade, CPF e Cash Passport. História longa e chata. Mas que deixou a gente meio desanimado. Resolvemos sair para sacar todo o dinheiro do meu Cash Passport, que era da mesma conta do cartão do Dani, antes que alguém achasse a carteira e tivesse a mesma ideia. Fomos a recepção do Hotel pedir informações e eu super-querendo-testar-meu-inglês, fazendo mil perguntas. Acontece que demorei alguns segundos para entender que róite era, na verdade, RIGHT. Achei que era um lugar qualquer perto dali tipo Rötii. Mas era right mesmo. Fiquei pensando se iria entender esse pessoal. 
Voltamos à HB, Main Station ou whatever para comer alguma coisa. O desânimo foi maior quando vimos como tudo era tão caro. Um baguete furreca, com um fiapo de mortadela e uma folha fina de alface, custava sete Francos, o que, arredondando, seriam uns quinze reais. Chateados e desanimados, fomos comer um sanduíche e uma bebida do lado de fora da HB, num banquinho. Passou pela gente, de repente, um rapaz de uns vinte-e-poucos  anos. Parou num outdoor ali perto e começou a pichar! Como pode?? A gente não está na Suíça??? A Suíça não é a Suíça??? Tá bom, mas o cara saiu xingando num português claro e bem paulistano – “ não tô nem aí, mano, to nem aí!”... Ai, que mico! Nessas horas, sou brasileira não.
E  fomos caminhando de volta ao Hotel. E vimos que, em Zürich, ninguém destoa de ninguém. Tem latino, europeu latino, europeu nórdico, europeu do Leste europeu, japonês, africano, indiano, muçulmano... enfim, passávamos despercebidos, éramos apenas mais dois nesse mundaréu de imigrantes, que compõem 50% da cidade de Zürich.

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