sexta-feira, 21 de março de 2014

Paris

E finalmente iríamos a Paris. Na verdade, a gente nem iria nesse momento se não fosse a cunhada do Dani, que trabalha na AirFrance, incluir a gente como companheiros de viagem. As passagens ficaram bem baratas e valeu a pena aproveitar a oportunidade.

Já no Charles de Gaulle, seria o primeiro desafio.  Além de desvendar os milhões de terminais, a gente ainda tinha que desvendar as milhões de estações de metrô. Confesso que fico meio perdida logo que chego num lugar novo, ainda mais Paris, que foi provavelmente a maior cidade que já visitei fora do Brasil ou, pelo menos, a mais cosmopolita. 

Pra pegar o primeiro trem, não teve muita opção, mas, quando tivemos que fazer baldeação, começamos a ficar confusos. Não é que o sistema seja confuso, é que demora para pegar o espírito da coisa, para entender como funciona. A gente ficou uns bons minutos, rodando pela enorme estação de Gare D’Nord até entender o que deveríamos fazer para chegarmos ao nosso destino. Para completar, as plataformas estavam incrivelmente cheias. E era sábado de manhã. Fomos apertados dentro do veículo, tomando cuidado com nossas coisas porque já  ouvimos muitas histórias sobre batedores de carteira. 

Trocamos de trem duas vezes até chegarmos ao local do hotel. Na verdade, era um apartamento de dois quartos no centro de Paris que o irmão do Dani havia reservado. Parecia bem bonito na foto. Sempre cogitei a possibilidade de ficar em apartamento, mas acabou nunca valendo a pena. Acho que, para duas pessoas, realmente não vale, mas para quatro, começa a ser interessante, principalmente numa cidade como Paris, onde hotéis bem localizados são caros. 

O esquema era meio esquisito. A gente tinha um código para entrar no escritório da agência, que não era no mesmo prédio do apartamento. Só poderíamos pegar as chaves depois das 17h, mas era possível deixar as bagagens no escritório. Assim fizemos e fomos procurar o que comer ali nas redondezas. Acho que escolhemos o lado errado, porque seguimos por uma rua não muito amigável, com vários homens mal encarados, encostados nos muros, aparentemente sem nenhum motivo. Um clima bem estranho. João já tinha me avisado que não dá para se sentir muito seguro em Paris mesmo. E, afinal, somos do Rio. A gente já fica automaticamente na defensiva, escondendo bolsa, celular, carteira. Mas acho que a direção que a gente escolheu não ajudou muito. Depois que pegamos o lado certo, o visual melhorou um pouco. O tempo ajudou muito também. Choveu um pouquinho enquanto ainda estávamos no aeroporto, mas logo o sol apareceu e não saiu mais.

Eu e Dani estávamos com trauma do metrô, porque a gente perdia mais tempo procurando as estações do que andando. Além disso, sabíamos que andar pela cidade fazia parte do passeio a Paris.  Senão, vira aquela coisa de só carimbar a checklist dos pontos turísticos. E assim fizemos. As ruas de Paris estavam sempre cheias de gente, provavelmente fazendo a mesma coisa.  Logicamente também queríamos ver os pontos turísticos.

Andamos, andamos, andamos, comemos crepe, tomamos café sentados a mesa na calçada, tiramos um bilhão de fotos.  A gente confirmou a antipatia de alguns franceses, mas também conhecemos uns bem bacanas e dispostos a ajudar. A cidade é realmente linda e cheia de história. Eu gosto de imaginar que tantas coisas importantes aconteceram ali. Se a gente for parar para tirar foto de cada prédio lindo que aparece, vai ficar até chato. Cada esquina era um prédio antigo monstruoso e “não importante”, que nem constava no mapa.  A gente viu com os próprios olhos como algumas cidades da América do Sul realmente se inspiraram em Paris, até o próprio Rio mesmo.  Paris é Paris, claro, mas às vezes eu olhava aqueles prédios em volta e me lembrava de Buenos Aires. Aliás, ainda bem que conheci Buenos Aires antes, pois talvez não tivesse a mesma graça que teve.

Quando eram, então, cinco da tarde, voltamos para buscar as chaves do apartamento, encontrar o endereço do prédio onde ficaríamos e deixar nossas coisas.  O prédio era um daqueles prédios antigos de Paris – e, por causa disso, eu até curti a ideia. Bem, mas o prédio antigo de Paris vem acompanhado de um pacote talvez indesejável. Pela rua, a gente já via várias prostitutas asiáticas, muitas mesmo. Aliás, algo me faz acreditar que talvez algumas delas morassem nosso prédio – mas isso já é teoria da conspiração. A porta de entrada tinha outro código e pra chegar ao nosso apartamento, no quarto andar, a gente tinha que subir uma escada de madeira estreita e sentir cheiro de mijo. Em um dos andares, tinha sempre uma bolsa pendurada do lado de fora da porta, na maçaneta. Algumas vezes, tinha um coração de pelúcia em cima da bolsa. Achei, no mínimo, estranho. 

O nosso apartamento, ao contrário do prédio, era todo reformado, muito bacana. O único porém eram umas assustadoras rachaduras cruzando a parede de ponta a ponta. Fizemos o reconhecimento do local, escolhemos o melhor quarto (sim, fomos rápidos), deixamos nossas coisas e saímos de novo.  Já era noite e a rua continuava cheia de gente. Deu para perceber que o trânsito em Paris é completamente louco. Carro fechando cruzamento, buzinas o tempo todo, sirenes, pedestres atravessando entre os carros, fora da faixa, enfim, toda aquela loucura de cidade grande.  Na verdade, acho que fiquei mal acostumada com a organização de Zurich.

Eu e Dani andamos sem planejamento prévio até a praça onde fica a Ópera de Paris, a poucos passos das Galerias Lafayetes. A praça estava bem cheia e aproveitamos para sentar, tomar uma garrafa de vinho, bater papo e observar as pessoas. Foi uma noite agradável e voltamos caminhando para casa, nem bêbados e nem sóbrios.
Para entrar no prédio onde estávamos hospedados, precisávamos de uma senha alfa-numérica, que o Dani havia gravado no celular. Tinha um tal de B na senha que não conseguíamos descobrir de jeito nenhum como digitar no tecladinho.  Chegamos até a tentar berrar pelo irmão dele, mas não adiantou porque as janelas eram bem grossas e o apartamento alto.  Bateu o desespero, ficamos pra mais de quinze minutos ali. Lembrávamos que a Thais tinha digitado muito rápido, como se fosse óbvio demais. Depois de mais algumas tentativas, quase chorando, resolvi pedir ajuda para algumas pessoas que vinham subindo a rua. Foi ridículo quando percebemos que estávamos no prédio errado. Mas rimos muito depois.
  
No dia seguinte, conheci a minha parte preferida de Paris, Montmartre. Achei um lugar charmoso e despretensioso. Cheio de barezinhos, lojinhas, cafés e muita, muita gente! Sem falar nos moinhos que dão um toque todo especial ao lugar, na minha opinião. Poderia ficar andando ali por horas. Mas a gente não tinha todo esse tempo, então percorremos todo o caminho necessário até chegar a Sacre Couer.  Aliás, desde lá de baixo a gente já conseguia ver a igreja, super imponente lá do alto.

Como vínhamos a pé, passamos pelo famoso Moulin Rouge no caminho. Bem que a Rachel havia me dito que parecia um Scala. De fato, não passa de um lugar pequeno, parecendo um daqueles bares de strip-tease que a gente vê aos montes em Copacabana. Mas foi curioso encontrá-lo.  A mesma coisa aconteceu com a Notre-Dame (A Rachel também tinha me alertado), que não passa de uma igreja normal, não muito grande, nada demais. Só foi fofo pra mim lembrar do Corcunda de Notre Dame morando ali.

Voltando a nossa caminhada, resolvemos parar para tomar um cafezinho e o irmão do Dani queria comer algo. Descobri então um lado de Paris que abominei. A gente simplesmente não podia sentar, os quatro, numa mesa no Café e pedir dois cafezinhos, um chocolate quente e um croissant. Todos tínhamos que comer e beber se quiséssemos sentar no interior do estabelecimento.  Se não, era o balcão ou o lado de fora. Fiquei furiosa. O Café estava completamente vazio e o garçom vem nos dizer isso com a maior cara de poucos amigos. Saí de lá esbravejando. Paramos num outro Café ali perto e pra não me aborrecer de novo, acabei pedindo um croissant também.
Fiquei brava, mas continuei subindo feliz e contente para encontrar a Sacre Coeur.  Bem na frente da igreja, estava tendo um mini-mercado-de-Natal e a gente aproveitou para comer uns docinhos. Tiramos umas fotos com 500 mil figurantes juntos (o lugar estava lotadíssimo) e adentramos a igreja. Lá dentro, a gente só podia dar a volta no salão e tinha um nanico pentelho com um sotaque esquisito que ficava gritando “No pictures” e enfiando a mão na frente das câmeras das pessoas. Gritava e gritava e pedia silêncio. Demos a tal volta e fomos procurar a subida. Eu queria ir lá para o topo ver a cidade inteira (Rachel também tinha recomendado). Foi lindo. A subida é longa, estreita e claustrofóbica (acho que em todas as igrejas é assim), mas vale a pena cada degrau para ver Paris inteirinha. 
No caminho de volta, você é literalmente atacado por vários marroquinos (ou sei lá!), querendo amarrar pulseirinhas no seu braço. Dizem que é de presente. Imagina só.  Como eu já tinha lido a respeito, saí me esquivando.

De lá resolvemos seguir para o Arco do Triunfo e fazer o trajeto até a Torre Eiffel, passando pela Champs Élysées. Dessa vez, fomos eu e Dani, porque resolvemos ir caminhando. Foi delicioso! As ruas estavam cheias de turistas e de pessoas fazendo compras, talvez para o Natal. Mas nem isso estragou o passeio, pelo contrário, na verdade, era isso mesmo que eu imaginava. Cheguei a me sentir emocionada. Quem se importa se Paris está batido e se todo mundo já foi a Paris?  Eu nunca tinha ido e a minha ficha começava a cair. Para nossa sorte, o clima continuava ótimo e ensolarado, nem frio, nem calor. Compramos uma garrafa de vinho para beber de frente para a Torre Eiffel e, de lá, vimos o sol se por, as luzes de Natal se acenderem e se apagarem.

A volta para o hotel poderia ter sido tranquila se eu não estivesse com uma vontade louca de fazer xixi. Paris é cheia de banheiros públicos decentes, mas essa hora não apareceu nenhum. Entramos em um restaurante com cara de não ser dos mais baratos, dispostos a tomar uma coca-cola ou algo assim. Mas nem foi preciso. A escada que levava ao banheiro era colada na porta de entrada. Entrei, fui ao banheiro e saí, como se nada tivesse acontecido. Dali, voltamos mais tranquilamente para o hotel, sem nenhuma  pressa, curtindo as ruas parisienses à noite.

O dia seguinte seria o último dia. Passeamos sozinhos mais uma vez porque o irmão do Dani e a esposa iriam ao Louvre. A gente preferiu dar mais voltas pela cidade. Fomos aos jardins do Louvre até a praça da concórdia, andamos um pouquinho pela Champs Élysées de novo, dessa vez, apreciando o mercado de natal. Presenciamos uma cena que nos surpreendeu. Um grupinho de adolescentes se aproximava de turistas, normalmente orientais, coitados, com ar intimidador, pedindo dinheiro com uma prancheta na mão, certamente, inventando uma história qualquer. As pessoas que tentavam passar direto eram acuadas por todos eles, que começavam a enfiar as mãos em seus bolsos a procura de dinheiro ou qualquer coisa. Achei aquilo horroroso e fiquei com pena dos japoneses que pareciam ser sempre a presa mais fácil.

Tentamos também entrar na Notre Dame, mas desistimos, porque parecia que todas as escolas de Paris por algum  motivo resolveram organizar excursões à Notre Dame naquele dia. Demoraria um século e a gente não queria desperdiçar o último dia na fila. Por fim, fomos até o Museu dos Inválidos, bem imponente e no meio do nada e depois fomos voltando com calma de volta. Já estava quase na hora de ir embora.

Cheguei em Zürich muito cansada e com muita dor nos pés. E o dia seguinte era dia de trabalho. Ainda precisava juntar energias porque nossa próxima parada seria Milão, em apenas quatro dias.











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