sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Bernina-Express: the alpine experience

Aconteceu que no dia seguinte da nossa chegada da Grécia, a gente tinha uma viagem agendada para as montanhas com as meninas aqui da faculdade. Então, foi basicamente assim: chegamos da Grécia  depois de uma noite praticamente não dormida, almoçamos, dormimos, acordamos e partimos mais uma vez. Logicamente, a gente preferiria ter esquentado o sofá um pouquinho mais antes de viajar de novo, mas não tínhamos muitas opções. Afinal, a combinação dessa viagem em um fim de semana em que as quatro estivessem livres rendeu mais de um mês de doodle e até mudança de estação - originalmente, faríamos a viagem ainda no inverno. Como eu tenho paixão por essa paisagem montanhosa verdinha e florida, até que curti a ideia de ir no verão.

Tivemos que acordar às cinco da manhã para pegar o trem das sete. Ficaríamos três dias passeando pela Suíça (e um pouquinho da Itália), segundo o trajeto do trem famoso Bernina-Express. Esse trem tem vagões turísticos (e caríssimos) com janelas panorâmicas e talvez mais alguns fru-frus, não sei bem. Mas o que algumas pessoas não sabem é que o mesmo trem tem vagões comuns, com tarifas convencionais. Assim, a gente estaria no mesmo trem, mas em vagões separados. O Bernina-Express é uma das rotas mais populares de turismo na Suíça e considerada uma dos passeios de trem mais bonitos do mundo. O trem cruza paisagens incríveis, desde o ensolarado sul da Suíça e Norte da Itália até o pico dos alpes, onde a neve pode ser vista o ano inteiro. Parte do trajeto faz parte do Patrimônio da Unesco. O trajeto original começa em Chur ou St Moritz, de onde o trem parte para o Sul, até Tirano, na Itália. De Tirano, os passageiros vão de ônibus até Lugano. Por razões práticas, fizemos o trajeto ao contrário, começando em Lugano, com uma rápida passada em Bellinzona para visita aos castelos medievais, os mais preservados da Suíça e também patrimônio da Unesco.

Então, a ideia era: ir de Zürich a Bellinzona, no cantão Ticino (cantão da Suíça que fala o idioma italiano), para visitar os famosos castelos da cidade. De lá, partiríamos para Lugano, e, então, para Tirano, iniciando a rota do Bernina-express. De Tirano, iríamos até Pontresina, onde passaríamos a noite e no dia seguinte seguiríamos de volta a Zürich. Como seriam muitos trens e não queríamos ficar engessados num roteiro muito fechado, a Andrea conseguiu arrumar pra gente o "gemeinde tageskarte", um para cada um dos três dias de viagem.  Esse é um ticket que te dá direito a viajar a vontade por toda a suíça no dia indicado. É como um swiss-pass, mas muito mais barato. Na verdade, esse ticket é oferecido para moradores registrados na suíça e cada cidade tem direito a uma cota. Não é um ticket intransferível, então, basta o próprio morador ir até a unidade local e solicitar seus tickets. O número é limitado, então, o ideal é solicitar com antecedência. Por algum motivo, eles não oferecem mais esses tickets na cidade de Zürich, por isso, não pudemos arrumar por nós mesmos e precisamos que a Andrea fizesse isso na cidadezinha dela. 

Encontramos as meninas na estação e seguimos com o trem a Bellinzona. A viagem foi divertida, havia um grupo de rapazes, fazendo a maior bagunça e já bebendo àquela hora da manhã. Ouvimos anunciarem no auto-falante que naquela viagem, o carrinho não passaria com as comidas disponíveis no bar. Se alguém desejasse comer ou beber algo, deveria ir até o restaurante. Eis que uns três dos rapazes surgem trazendo uma big bandeja, com pães, queijos e frutas e passando de cadeira em cadeira, oferecendo  a comida aos outros viajantes. Já que o carrinho não passa hoje - diziam - nós seremos o carrinho! E lá foram eles de vagão em vagão. Uns minutos depois, ouvimos novamente o auto-falante. Era um dos garotos, que foi até a cabine e pediu a palavra, anunciou que um deles iria se casar e por isso estavam tão animados. Está aí a explicação.

No caminho, descobri também que sou uma vergonha para qualquer suíço. Estava ali, me encaminhando para uma viagem nas montanhas e... sem tênis próprio para isso. A Andrea ficou preocupada de verdade. Fui com um tênis comum, ué! Para mim, mais do que normal, mas para a maioria dos suíços, é motivo de preocupação. Suíços não jogam bola espontaneamente, não mesmo, tem que ter o time formado, o uniforme, caneleira, joelheira e sei lá mais o que. Para o hiking, a mesma coisa, eles vão super preparados. Não que eles estejam errados, mas a gente realmente não esperava que fosse ser assim um problema. Afinal, as trilhas na Suíça são todas muito bem sinalizadas e muito seguras. E subir o morro da Urca no meio do mato, pisando no barro e em pedras soltas? Já fizemos de havaianas, várias vezes. Se eu fosse seguir a conduta suíça, usaria tênis de hiking para andar na rua no Brasil, afinal, sempre tem  um buraco aqui, uma pedra solta ali... até cogitei  comprar o tal tênis de hiking quando chegássemos em Lugano para ficar no lado seguro, mas depois que a Andrea me disse que um bom tênis de hiking custaria pelo menos 150 francos, eu desisti mesmo. Afinal, tinha subido em chão de mármore na Acrópole com aquele meu tenizinho, ele ia dar conta. 

Chegamos bem cedo a Bellinzona. As principais atrações da cidade parecem ser mesmo os três castelos medievais - Castelgrande, Castello di Montebello e Castello di Sasso Corbaro. Dos três, visitamos os dois primeiros. Fomos os primeiros a chegar no Castelo di Montebello naquele dia. A mulher da recepção era uma brasileira, então, acabamos falando mais português do que alemão, italiano ou inglês. Este castelo era pequeno e abrigava um museu ao longo de muitos andares de uma das torres. Era um pouco cansativo e, na verdade, nada de muito imperdível. Então, fomos logo para o segundo castelo, o maior deles - Castelgrande, com um espaço externo enorme, e já cheio de gente. Passeamos um pouco pela parte externa, tivemos uma boa vista de toda a cidade (ou boa parte) e depois descemos. Andamos mais um pouco pelas calçadas da cidade histórica, ocupadas por um mercadinho de rua muito fofo e depois voltamos a estação de trem. Encontraríamos Diane no próximo trem para Lugano.











Chegamos a Lugano e fomos direto passear pela beira do lago Lugano. O clima era diferente realmente do que vemos na parte alemã e não só pelo dia ensolarado que fazia. Linda cidade. E apesar de ser a maior da parte italiana, me pareceu bem bucólica. O lago de Lugano, na beira de montanhas, é a principal atração e andar por ali, numa época tão cheia de cores, foi muito agradável. As meninas quiseram parar em uma "área de banho" para nadar um pouco. Essas áreas são privativas, ou seja, só pode nadar naquele cercadinho do lago quem pagar os sete francos de entrada. A única vantagem disso é você ter um banheiro e um espaço para vestuário. E daí veio a minha segunda bola fora do dia. Eu não tinha levado biquini. A gente até tinha comentado sobre talvez nadar no lago, mas achei que teríamos muito pouco tempo e decidi por não levar biquini. Na verdade, eu acho que estava tão cansada da viagem da Grécia que não tinha nem muita energia para nadar no lago. Entramos com elas e nos sentamos no deque, tomando um solzinho. O Dani até conseguiu tirar um cochilo. 




Quando saímos de lá, passeamos um pouco pelas ruas do centro histórico - cheias de gente, mas livre de carros ou qualquer outro transporte. Depois disso, fizemos umas compras pro dia seguinte e daí veio a terceira bola fora. Eu e Dani definitivamente não entendemos desse tipo de viagem. Ficamos super felizes porque conseguimos colocar roupas pros dois em apenas uma mochila. Ora, afinal, eram menos de três dias, não precisávamos de tanta coisa assim. Além disso, na nossa cabeça, era uma viagem de aventura, explorando as montanhas, não precisávamos levar mil opções para diferentes eventos. Mas cada uma das meninas trazia uma mochilona que ia quase até o pé. E eu achando que elas estavam exagerando e elas não entendendo como conseguimos colocar tudo naquela mochilinha. Depois entendemos que, além obviamente do tênis de hiking e do biquini que não havíamos levado, também não tínhamos trazido toalha e nem chinelo (o que, segundo elas, é normalmente obrigatório em hostels). Ok, sem o chinelo eu até poderia passar, mas sem a toalha era impossível. Compramos então uma toalha no Coop.

 Então, seguimos para o hotel. Ficaríamos em um hostel muito bom - um albergue da juventude - que a Andrea tinha reservado aqui. Era a poucos minutos de ônibus da estação de trem principal, mas a sensação era de estar bem no meio do campo. O hostel em si era uma delícia, uma área verde enorme ao redor, com quartos limpos e bem silencioso. Eu e Dani ficamos num quarto duplo com banheiro privativo e saída para o jardim. E com toalhas disponíveis sem custo adicional. Na verdade, era um quarto quádruplo, reservado para duas pessoas apenas. Então, não havia cama de casal, apenas duas beliches. Nos ajeitamos por ali, tomamos um banho e nos arrumamos para sair para jantar. As meninas queriam procurar um tipo de restaurante característico daquela região chamado grotto. Eu não entendi direito a diferença desse restaurante para os normais, mas gostei da ideia. Havia algumas  sugestões no quadro informativo do hostel e resolvemos seguir uma delas.

Caminhamos até lá, mas foi difícil encontrar. Ficava bem escondido. Ficava no lindo quintal de uma casa. Muito aconchegante e interessante. Comemos massa e tomamos um vinho da região. Lógico que não é um programa que eu e Dani costumamos fazer, afinal, o padrão suíço sai bem caro. Mas aquela viagem era diferente, não éramos só os dois, e valeu a experiência. Ficamos lá até tarde e quando chegamos no hotel, fomos dormir logo, estávamos muito cansados.

No dia seguinte, acordamos relativamente cedo (para os nosso padrões, meu e do Dani, estava até atarde - umas oito horas), tomamos café no hotel (uma delícia!) e partimos para o centro de Lugano, onde pegaríamos o ônibus para Tirano, dando início a rota do Bernina-express! A viagem dura em torno de três horas e é linda (tá  ficando chato isso já), boa parte contornando lagos aos pés das montanhas e cidadezinhas bem pequenas, com um ar romântico, exatamente como imaginaria o interior da Itália. Tivemos uma parada rápida em uma dessas cidades para um café e banheiro. Conversei com a Diane no caminho e ela me disse que ficasse tranquila em relação aos tênis de hiking, que aonde íamos, podia-se fazer hiking até de salto alto. Foi o que imaginei.




Chegamos a Tirano e muita coisa na cidade se referia a sua inclusão no famoso  trajeto - desde cartões postais e souvenirs, até indicações turísticas na rua. Afinal, era dali que saía o trem bonitão, panorâmico, que fazia a rota. Nós podíamos passear o quanto quiséssemos, considerando-se que tínhamos o ticket diário para usar a vontade. Isso era uma grande vantagem, não se preocupar em perder trem ou coisa do tipo. Caminhamos pela cidade, que pareceu ser bem pequena (tem menos do que dez mil habitantes) e visitamos a Basílica da Madona di Tirano, a principal atração da cidade, junto com a Madona de Tirano. A cidade é conhecida pela aparição milagrosa da Nossa Senhora lá pros idos 1500. Ficamos encantados e surpresos em perceber como uma igreja pequena, em uma cidade pequena, poderia ser tão linda. Cheia de detalhes e muito bem cuidada. 











 Paramos também em uma pracinha para comer uns sanduíches  que havíamos preparado e seguimos para a estação de trem para pegarmos o próximo Bernina-Express que partisse. Para a nossa sorte, já havia um por lá, esperando para partir. E foi aí que descobrimos uma das coisas mais legais  da viagem de trem. O nosso vagão pobrinho, sem janelas panorâmicas ou nenhum tipo de luxo, tinha uma vantagem fantástica sobre o super-caro: janelas que se abriam! Foi muito legal poder ter a possibilidade de colocar o cabeção pra fora num dos trajetos mais lindos da Europa. Muito mais legal do que ter janelas panorâmicas, na minha opinião. Eu não posso falar das vantagens do passeio panorâmico, mas ir de janelas abertas foi demais! E o mais curioso é que o tal vagão de janelas panorâmicas é muito muito muito mais caro.  Na verdade, a nossa viagem poderia ter sido ainda mais barata (e bem barata mesmo), se quiséssemos planejar tudo bonitinho, comprando o bilhete para cada trem com horário marcado, porque aí, compraríamos o supersaver ticket pela metade do preço. É muito mais legal ter a espontaneidade, é claro, mas se a pessoa quiser muito fazer o passeio e pagar o mínimo possível, ter horário marcado também não é nenhum fim de mundo. Aliás, sempre fizemos isso. Provavelmente, se nesse passeio fossemos só eu e Dani, é o que teríamos feito.

O trem partiu e eu e Dani já enfiamos nosso carão na janela. Nosso vagão estava vazio,o que significa que não tivemos que disputar lugar. Para sair de Tirano, ele passou bem no meio da cidade, contornando a igrejinha, e as pessoas olhavam curiosas. O Dani tava tão animado que sua principal diversão era acenar para as pessoas na rua, como se fizesse parte do protocolo, se está dentro do trem, dê tchauzinho. Mas é o que dá  vontade de fazer mesmo quando o trem vai passando e as pessoas param animadamente para olhá-lo.

No caminho a Pontresina, passamos por lugares lindos no meio das montanhas, parecido com a paisagem que vimos na ida a Davos. Passamos também por cima de pontes altíssimas e bem famosas cruzando os alpes. O lugar mais lindo, onde o trem inclusive parou por alguns minutos, foi a estação Ospizio Bernina, o ponto mais alto do passeio - 2.253 metros de altura, ao pé de uma geleira. Lá em cima, em pleno verão - início de julho - tinha neve cobrindo o pico das montanhas e estava bem gelado. Vale ressaltar ainda  que o ar puro que se respira nos alpes é perceptível. Pode parecer meio brega, mas realmente estar naquela paisagem idílica, silenciosa, respirando ar puro, traz realmente uma sensação de paz. Para completar o visual, também vimos muitas vacas caminhando por ali num hábito típico alpino. No verão, os pastores levam seus animais para pastarem nos alpes e retornam aos vales em setembro. Dizem que esta é uma estratégia muito antiga (antiga mesmo) que os alpinos usavam para preservar os vales e assim tivessem da onde tirar alimento durante os meses do inverno. Talvez hoje em dia isso seja mais uma tradição do que realmente uma necessidade de alimento no inverno. Mas foi bem bonito presenciar as vacas nos alpes, quase emocionante, eu diria.
















Chegamos a Pontresina e o ar estava gelado, uma diferença brutal para Lugano, é claro! O nosso hostel era exatamente na frente da estação de trem. Era um hostel da mesma rede que o de Lugano, mas mais caro, provavelmente, porque nada nas montanhas é muito barato. Dessa vez, ficamos em um quarto duplo privado, mas com banheiro no corredor. Era a primeira vez que ficávamos em um lugar com banheiro compartilhado. Mas até que foi bem tranquilo, o hostel não parecia muito cheio, era silencioso e os banheiros bem limpos. 

Pontresina fica no cantão Graubünden, numa ensolarada região cercada por montanhas chamada Engadine. Pelo que vejo, essa região é uma das preferidas dos suíços, pelo menos da parte alemã. Falam com maior carinho do lugar, tanto pra esquiar, fazer hiking, comer  - e, sim, há comidas típicas só daquela região, como a deliciosa torta de nozes. E nessa região, a gente finalmente teve contato com a quarta língua falada na suíça o 
Rätoromanische ou romanche. É claro que hoje em dia todos falam um segundo idioma e todas as informações estão também disponíveis pelo menos em alemão. Mas foi interessante, tive a sensação de estar conhecendo uma parte mais intocada da Suíça, com tradições mais visíveis. Outra coisa bacana que, segundo as meninas, é bem típico de Engadine, são as portas e janelas decoradas, parecendo saídas de contos de fadas. A cidade de Pontresina pareceu minúscula e pudemos andar pela rua principal várias vezes. As meninas escolheram um restaurante bem bonito para jantarmos. Eu comi uma röstie de legumes  e o Dani uma polenta. Delicioso e, apesar de ser nas montanhas e parecer bem chiquezinho, não era mais caro do que qualquer outra coisa em Zürich. Vamos dizer que em um lugar onde o kebab custa pelo menos doze francos, dezoito  francos em um restaurante relativamente chique não é lá tão caro. 




O dia seguinte, nosso último dia, amanheceu chuvoso. Isso poderia parecer desanimador, mas não fazia sentido deixar de passear. Além disso, era uma chuva chatinha, mas fraca, dava para encararmos. Pegamos um trem para uma região ali bem perto (apenas umas duas paradas), chamada Morteratsch, onde havia um caminho que nos levaria a uma geleira. O caminho era curto e fácil e, realmente, poderia ser feito de salto alto, mesmo com chuva. E a recompensa era estar de cara com o gelo eterno. Seguimos por uns trinta minutos em uma trilha bem aberta. Ao longo da trilha, havia plaquinhas com anos indicando a época em que a geleira ia até aquele determinado ponto. Fiquei chocada em ver o quanto o gelo diminuiu em dez anos! E finalmente chegamos a geleira. Não podíamos chegar tão perto a ponto de tocá-la, porque pode ser perigoso. Mas a visão é incrível, principalmente se pensarmos que estávamos no auge do verão e aquele gelo nunca derretia. 




Na volta, já não chovia mais e resolvemos voltar caminhando mesmo. Até porque o trem não passava ali com muita frequência e, no fim, acabaríamos esperando o mesmo tempo. O Dani ficou super feliz, porque aproveitou pra treinar bastante o alemão com a Diane, que teve a maior paciência de ensinar várias coisinhas. Quando chegamos de volta a Pontresina, pegamos nossas coisas no hostel e partimos. Estávamos voltando a Zürich, mas como seguiríamos também propositalmente parte do trajeto do Glacier-express (cujo trajeto completo vai de Zermatt a St. Moritz), seriam aproximadamente seis horas até que chegássemos, parando em diversos vilarejos para trocar de trem. Passamos por mais pontes altíssimas e túneis intermináveis. A minha parte preferida da volta foi o Grand Canyon suiço ou Rhine Gorge. Eu tinha a maior vontade de ver e não esperava que fosse ser nessa viagem. São montanhas aglomeradas, brancacentas, moldadas pelas águas do Reno, que passa por ali, bem diferente de outras coisas que já vi. Confesso que a essa altura, eu já estava muito cansada mesmo. Fiz um esforço para curtir e fotografar o Grand Canyon. O Dani chegou a cochilar. Depois da maratona que começou em Atenas, estávamos realmente acabados. A chegada a Zürich foi em torno de nove da noite e o dia seguinte seria de trabalho. 





quinta-feira, 11 de setembro de 2014

De novo, a coleta seletiva

A minha saga com a separação do lixo aqui em Zürich parece nunca terminar. Na semana passada, esqueci de colocar o papelão para fora no dia do papelão. Acontece que o dia da porcaria do papelão é uma vez por mês e da-lhe papelão! Eu nunca poderia imaginar que a gente pudesse usar tanto papelão. Segundo a Diane, eu não estava sozinha, pois esse é considerado um dos maiores problemas de um suíço... esquecer o dia do papelão. Tá bom, vai, para mim, não foi tão ruim assim.O problema é uma sacola para o papelão, uma para os pets e uma para as latas e garrafas de vidro, tudo bem no canto da cozinha. Isso porque, lembrando, as casas por aqui não tem a nossa "área de serviço", pelo menos não as que eu vi até agora. Então, todo esse tipo de tralha fica na cozinha mesmo. 

Aliás, a maioria dos apartamentos que visitamos (e não foram poucos) sequer tinha lava-roupas. O mais comum é o prédio possuir uma lavanderia compartilhada entre os moradores. Aí cada prédio tem a sua regra: tem prédio que você usa um cartão que tem que ser carregado  com dinheiro; prédios onde cada apartamento usa a lavanderia uma vez por semana; outros, uma vez a cada duas semanas; em alguns prédios, você só vai lá e marca numa planilha a data que quer usar. No prédio da Diane, cada apartamento tem um compartimento próprio no porão destinado a lavanderia, ou seja, como se fosse uma área de serviço exclusiva, mas fora de casa. 

O bom disso tudo é que, na maioria das vezes, ao procurar um apartamento por aqui, você não precisa se preocupar em ter a sua própria máquina de lavar. E também não precisa se preocupar com geladeira e fogão, porque também já vem normalmente junto com o apartamento. Ou seja, três das coisas mais caras em um apartamento, você não precisa ter. Mesmo nos prédios mais antigos, é difícil encontrar apartamentos que já não venham com esses apetrechos. Até porque o que mais se vê por aqui são prédios antigos completamente reformados, inclusive com colocação de varandas. Eu nunca imaginaria que fosse viável incluir varandas em um prédio que já está pronto há décadas. Mas por aqui é até  bem comum. Talvez seja mais fácil porque a maioria dos prédios mais velhos tem no máximo quatro andares. 

Bem, mas voltando a saga do lixo. Na semana passada, aprendemos mais uma da cartilha de lixo de Zürich - os têxteis. Estávamos de mudança (sim, quarta vez em um ano) e por que não nos livrarmos de roupa/sapatos danificados, já que não tínhamos mais espaço na mala para tantas coisas? Eu tinha empurrado com a barriga  o quanto pude, mas a gente tinha que descobrir de uma vez  como fazer aquilo. Fomos na internet mais uma vez conseguimos encontrar algumas respostas: a coleta de têxteis passa apenas duas vezes por ano. As roupas e sapatos precisam ser colocados em um saco próprio, que é entregue na caixinha de correio antes de cada coleta. Por sorte, eu tinha guardado um saco desses, sem saber ao certo o que fazer com ele. E pra nossa sorte, existem containers específicos distribuídos pela cidade, pra quem quiser despachar umas roupas fora da época. Eu nunca tinha visto esses tais containers, mas depois disso, comecei a  ver um em cada esquina.

Como tudo na Suíça gera multa e ninguém vem te explicar como fazer as coisas do jeito certo quando você chega por aqui, foi assim que me tornei a maluca da separação do lixo. E espero que esse tenha sido o último capítulo dessa saga.

sábado, 6 de setembro de 2014

Summer days

Assim como tivemos um inverno mais quente do que o normal e neve na primavera, o verão não podia chegar assim tão convencional. Foi assim que, ainda na primavera, o calor começou a aumentar muito, chegando a uns 35 graus. Logo, as pessoas começaram a abusar dos shortinhos, estampas e chinelinhos, mesmo no trabalho. Começava a chegar a época de fazer grill na beira do lago e dar um mergulho. As pessoas ficam realmente muito motivadas. Na segunda-feira, já começam a festejar porque no fim de semana a temperatura chegará a 30 graus. 

A nossa primeira experiência de verão foi com uma brasileira que conhecemos aqui, a May. Ela chamou a gente pra um grill no lago, no parque perto do Zürich Casino. Ela e o marido levariam a churrasqueira e algumas coisas para assar. A gente podia levar o que quisesse também. Passei no mercado e comprei um bando de coisa: milho, queijo, champignon, pimentão, tudo para colocar no grill. Coloquei o biquíni e fomos. Eu estava super esperançosa com a possibilidade de mergulhar no lago pela primeira vez.

Escolhemos um lugar na graminha, o que não foi fácil, considerando que o lugar estava lotado, e espalhamos nossas coisas. O marido dela não estava lá e sofremos um bocado, eu, ela e o Dani para colocarmos fogo no carvão. Ninguém sabia como fazer aquilo, um mico. Precisamos pedir ajuda pra um grupo de gringos do nosso lado. Depois de uns quarenta minutos e já famintos, finalmente conseguimos colocar alguma coisa para assar. Nesse tempo, ficamos nos enchendo de pão com vinagrete.






E, a nossa volta, todos os grupos de pessoas tinham o seu grill aceso, com potinhos de comida e bebidas. No Brasil, seria considerado uma farofada, mas aqui é mais do  que normal. E eu gostei muito da ideia de poder cozinhar a minha própria comida, sentada na grama, num dia bonito daqueles, olhando para os alpes. Até pensei em comprar um grill pequeno (aqui alguns saem a uns 20 francos, com mochilinha para transportar e tudo) e depois levar pro Brasil, mas acho que ocuparia um espaço muito grande na mala. Bem, além de ser normal levar o grill para assar comidinhas para a "praia" de Zürich, é muito normal também que o churrasco do suíço não seja feito só de carne, pelo contrário, é até bem diversificado, independentemente da pessoa ser vegetariana ou não. Pelo que notei, tem sempre uns salsichões e, às vezes, uns pedaços de carne, mas também é cheio de legumes, cogumelos e queijos. Eu vi até quem tivesse levado comidinha para acompanhar. Não tem essa de comer só carne e tá bom. Aliás, surpreendentemente, conheci um bando de gente aqui que não liga pra carne, que come, mas não faz questão, que só come de vez em quando.

Curioso também era observar a habilidade incrível que o povo daqui tem de trocar de roupa discretamente (nem sempre tão discreto) na frente de todo mundo. E eu digo trocar de roupa de verdade. Eles simplesmente chegam no lugar com uma roupa normal, com roupa de baixo etc, e colocam a roupa de banho ali mesmo, ficam peladões. Alguns são um pouco mais tímidos, se enrolam em uma toalha e trocam assim. Mas a maioria, troca de roupa sentado mesmo. Como se o fato de estarem sentados impedisse que as outras pessoas vissem algo a mais. E assim eu vi gente de todas as idades, homens e mulheres, simplesmente arrancando a roupa, incluindo calcinha ou cueca, e colocando o biquíni ou sunga. Pronto,simples assim. E essa técnica toda é por conta da parte de baixo, porque a parte de cima não precisa de tanta frescura. E daí eu fiquei me sentindo a pessoa mais pudica do planeta, porque estava muito surpresa com a falta de vergonha das pessoas. Segundo o marido da May, que apareceu depois, só os brasileiros tem problema com isso. Os suíços são acostumados desde o jardim de infância a trocarem de roupa e tomar banho juntos, sem problemas, sem pudores. 

Bem, com tanta novidade acontecendo, o sol começou a ficar mais fraco e eu perdi a coragem de entrar na água. Já não estava mais tão quente. Mas não estava chateada, o dia tinha sido muito muito agradável. Voltamos pra casa muito prosas com o nosso, digamos, primeiro dia de verão na Europa. 

No dia seguinte, acordamos tarde e fomos conferir como estava o rio perto da nossa casa. Diziam que era bem movimentado por lá nessa época do ano. Chegamos lá e, realmente, estava completamente lotado. Parecia ser um lugar mais frequentado por jovens, principalmente adolescentes. Eles pulavam do alto da ponte para o rio e faziam todo tipo de loucura. A gente ouviu dizer que a graça de nadar no rio é que você pode entrar em um ponto e deixar a correnteza te levar até  outro ponto. Mas me disseram também que a melhor coisa é ir com alguém que conheça o rio, porque há pontos onde que podem ser perigosos. Assim, a gente só foi até lá para dar uma olhada rápida e matar a curiosidade, mas não entramos. Além disso, estava muito muito cheio, mal teríamos um lugar para sentar.

E, finalmente, dois dias depois, quando estava ainda mais quente, eu fui de novo com a May ao lago, mas dessa vez pra outro lago, o Katzensee. É um lago menor, no meio do mato. E, por ser menor, a temperatura da água não é tão baixa. Talvez exatamente por isso, o lago fique bastante cheio também, mesmo sendo um pouco longe do centro. O Dani não quis ir, porque estava muito irritado com o calor. Eu queria mais era sair de casa e poder mergulhar afinal. Não fiquei o dia inteiro no lago dessa vez, mas foi o bastante para mergulhar e até dar uma nadada. Me senti o Chico Bento, nadando naquele pequeno lago, cheio de mato em volta. 






Santorini

A nossa viagem de ida para Santorini seria em um barco bem grande e duraria certa de oito horas. Havia viagens mais curtas, mas a nossa ideia era exatamente poder curtir o visual que, ouvimos dizer, era bem bonito. Chegamos ao porto de Piraeus e não foi muito difícil encontrar o nosso gigantesco barco da BlueFerries. Eu nunca tinha entrado em um barco tão grande! Eram inúmeros andares, diversos restaurantes e cafés, salas com televisão e um enorme espaço para viajar na proa, a céu aberto. Deixamos nossa mala numa sala específica dentro do estacionamento do barco... sim, um estacionamento bem grande, tipo de shopping. Para chegar até o andar principal, pegávamos uma escada rolante e mostrávamos nossas entradas a um guardinha na porta.

O barco estava bem cheio. Nós tínhamos um lugar reservado na parte de dentro, uma poltrona confortável e espaço climatizado, mas preferimos a  princípio sentar no deque. Como ainda havia muita gente chegando no navio, procurando seus lugares e guardando as malas, nós conseguimos facilmente uma mesa perfeita do lado de fora. Logo logo estava tudo bem cheio. Tomamos um café, admiramos a vista e  depois de um pouco mais de uma hora, fomos procurar nossos lugares para tentar tirar um cochilo, afinal tínhamos acordado às cinco da manhã. Mas parecia que ficar na poltrona confortável era muito mais estressante do que lá fora. Além de terem roubado nosso lugar, ainda foi difícil dormir por dois minutos com tantas, mas tantas crianças gritando e correndo bem ali do nosso lado. Imagina só, oito horas dentro de um barco sem qualquer apelo infantil... não há criança que aguente.




Pensamos que, ao voltar para o deque, teríamos perdido nosso lugar e o resto da viagem seria desconfortável, sem dormir e sem vistão. Mas nos enganamos. Ao explorarmos melhor o barco, descobrimos que havia lugares muito do especiais na parte lateral do navio, onde a gente podia colocar nossas cadeiras de frente para o mar, apoiar o pé na grade de proteção e só admirar a vista. Daí em diante foi uma delícia. Só saímos dali para comer alguma coisa. E diga-se de passagem, ao contrário do que esperávamos, a comida do barco não era muito cara, custava a mesma coisa que em qualquer outro lugar. E a água continuava custando cinquenta centavos.

Quando o navio estava para chegar no porto de Santorini, o que vimos era uma ilha com uma faixa estreita de praia, limitada por enormes paredes rochosas por todos os lados. Pelo meio dessas paredes, a gente podia enxergar carros e ônibus passando muito pequeninos. Estavam indo e voltando ao porto. Todos os passageiros, então, desceram para a parte inferior do barco, junto com o motor e com o estacionamento. Ficamos ali, exprimidos, ouvindo o sinal e vendo a porta enorme se  abrir na nossa frente. 



Ficaríamos hospedados  em uma pousada familiar, como muitas em Santorini. Aliás, tive a sensação de que a maioria dos hotéis por ali eram desse tipo. O dono da pousada, um senhor muito simpático e com um inglês impossível de entender, foi nos buscar no porto. Embora Santorini não seja uma ilha tão grande assim, a sua geografia faz com que ir de um lugar para o outro seja, às vezes, um longo caminho, pois as estradinhas circundam os morros rochosos (ou algum outro termo geograficamente correto). E  assim aconteceu, demoramos uns trinta minutos até chegarmos na pousada. 

A pousada era meio que uma vila, com quase todos os quartos se abrindo ao pátio principal. O nosso quarto era muito aconchegante, assim como toda a pousada. A casa dos donos também era ali e a sala de estar servia também de recepção. Pareciam pessoas super simples e foram bastante prestativos. Achamos engraçado estar na casa deles assim, com a TV ligada, filho adolescente passando pela cozinha, vizinho entrando para prosear. Era como se eles não estivessem ali trabalhando e nós fôssemos apenas visitas. 

Coloquei meu biquíni, pegamos umas dicas com eles, um mapa e fomos passear pela cidade. O mapa que eles nos deram era bem engraçado, mas depois percebi que não podia ser muito diferente. Não havia nome de ruas nem nada, apenas o contorno da ilha e onde ficava cada praia. Mas não precisávamos de mais do que isso porque não adianta muito saber nome de rua por ali, a gente precisaria pegar um ônibus da capital Fira pra qualquer lugar que fôssemos. E era justamente em Fira onde estávamos hospedados, mas tínhamos que andar uns quinze minutos para chegar no burburinho. Já eram quase quatro da tarde a essa altura e decidimos pegar o ônibus direto a uma praia qualquer, em vez de ir passear por Fira, o que podia ficar facilmente para mais tarde. 

Os ônibus em Santorini são um capítulo a parte. Existe uma mini-rodoviária no centro de Fira. Todos os ônibus partem ou vão para Fira, o que significa que quem não se hospeda ali, tem que passar por Fira pra ir a qualquer outro lugar. Pra quem tem tempo de sobra, talvez valha a pena, mas pra gente o melhor era estar por perto. Então, cada ônibus na mini-rodoviária ia a um lugar diferente da ilha e para cada lugar, era um valor de passagem diferente. Se não me engano, a mais cara não passava de dois euros. O ônibus era tipo de viagem mesmo e depois que partia, um cobrador vinha de banco em banco cobrando o valor e nos dando o ticket.

Olhamos o mapa para decidir a que praia ir. Queríamos fugir da mais badalada e acabamos escolhendo ir a Perissa. Quase trinta minutos de viagem, girando em torno dos morros, andando quase sempre nas partes altas da ilha, cruzando ruas áridas, sem nada em volta e com a linda vista das praias lá embaixo. Um pouco antes de Perissa, mas bem pertinho, havia uma outra praia chamada Perívolos, parecia bem bonita e resolvemos ficar por ali mesmo. Talvez por ser fim de tarde, a praia não estava muito cheia. Deixamos nossas coisas na areia e corremos para o mar. O mar em Santorini é calmo e, em muitas partes, a água é cristalina  e de uma cor esverdeada muito bonita, talvez pela quantidade de pedras no fundo. Aliás, por causa das pedras, todo mundo entrava no mar com chinelos ou sapatinhos especiais. A gente achou meio que exagero. Deu para curtir bastante aquele dia. O chato foi que Santorini não estava tão quente quanto Atenas e, perto do mar, ventava bastante. Então, toda aquela secura de mergulho diminuiu bastante. Mas, mesmo assim, foi bem relaxante.

Saímos de lá varados de fome e ainda tínhamos que passar no mercado e comprar algo para o café da manhã. Os ônibus não ficam passando toda hora, afinal, é uma ilha, e não dá para ter muitos ou o trânsito não anda. Esperamos uns quinze minutos e pegamos o ônibus de volta a Fira. Fomos finalmente dar uma volta por ali, onde ficava toda a badalação de Santorini. E são muitas ruazinhas bem estreitas, cheias de gente, de lojas e restaurantes, um charme. Um pouco difícil de se encontrar ali, tá certo, mas a verdade é que cada esquina errada tem uma recompensa. Acabamos entrando na "borda" de Fira, de onde dava para ver o mar e as famosas casinhas brancas de teto azul descendo pelos morros. E chegamos bem na hora do pôr-do-sol, que , dizem, ser um dos mais bonitos do mundo. Um espetáculo! Foi muito mágico estar ali. Santorini tem muitos, mas muitos turistas e todo mundo parece de alguma forma estar relaxado e de bem com a vida (óbvio, estão de férias na Grécia).



Não poderíamos perder aquele pôr-do-sol, então, só fomos, de fato, voltar a caçar um mercado e um lugar para comer depois disso. Santorini não é tão barata quanto Atenas, então, não dava para sair entrando em qualquer lugar. Como estávamos cansados e com muita fome, também não estávamos com muito saco para procurar nada e acabamos optando por uma pizzaria, muito boa por sinal. Comemos uma pizza meio que de salada grega, porque tudo que tem na salada grega tinha em cima da pizza, incluindo o meu queridinho da semana - o queijo feta.

Na volta para o hotel, passamos mais uma vez pelas ruelas de Fira, que ainda fervia. Mas nós queríamos mesmo era ter energia para acordar cedo no dia seguinte. O caminho do hotel seguia uma rua sem calçada onde era possível ver a loucura do trânsito de Santorini.  Como os ônibus por ali não são muitos e tem intervalos regulares, nem sempre é possível atender as vontades de todos. Muitas pessoas preferem alugar carros, pois assim se pode ir e voltar pra onde quiser na hora que for. Chega a ser estranho numa ilha onde as estradas são relativamente estreitas e em cima de penhascos haja tantos carros e tantas lojas de aluguel de carros. Muita gente traz seus próprio carros dentro dos barcos, muito comum. No nosso barco mesmo, tinham muitos. Isso é uma coisa muito negativa na minha opinião, porque acho que em breve, não vai ter mais espaço para tanto carro e o trânsito na ilha ficará impraticável. Por outro lado, sem os carros, os ônibus certamente não seriam suficientes para tanta gente. Muitos preferem alugar os quadriciclos e motos, o que faz com que sejam uma praga em Santorini. Pelo que percebemos, qualquer um pode chegar ali e alugar um. Acho bastante perigoso, porque, muitas vezes, em ruas sem calçada onde os pedestres estão o tempo inteiro pra lá e pra cá, esses quadriciclos passam velozes, se desviando de carros e até dos próprios pedestres. Afora o risco de dirigirem à noite na beira daqueles penhascos. Tudo isso foi só para dizer que o caminho para o hotel era sempre com essas emoções, olhando para trás a cada barulho de moto. Uma coisa meio carnaval na Região dos Lagos.

No dia seguinte, conheceríamos a famosa praia vermelha de Santorini. Eu tinha visto umas fotos lindíssimas e estava ansiosa. Pegamos um ônibus em direção a Acrotiri e saltamos no meio do caminho. Dali, fomos seguindo placas e chegamos até lá em uns quinze minutos. Algumas partes do caminho eram meio que trilhas sobre rochas vermelhas, mas sem grandes dificuldades. Na verdade, a gente chega por cima da praia e vê aquela belezura toda lá de cima. Um mar de um azul que eu nunca vi, cercado por um semicírculo de rochas vermelhas. Essas rochas formavam um paredão côncavo muito alto e dava a impressão de que a qualquer minuto desmoronaria. Interessante que, na parte final da praia, o paredão não era mais vermelho e sim branco. Por isso, aquelas eram, na verdade, duas praias, a praia vermelha e a branca.


Descemos e ficamos ali um tempinho. Ventava muito e muitas pedrinhas voavam da rocha, era um vento vermelho. Eu já estava achando que o paredão iria deslizar a qualquer minuto. A água estava uma delícia, mas entrar no mar era tarefa difícil porque as pedras eram enormes e machucavam o pé. Tivemos que entrar agachados e ficar quietinhos lá dentro. Ali sim talvez eu não recusasse os sapatinhos especiais, acho que dariam uma boa ajuda. Como ventava muito e era difícil ficar no mar, acabamos não ficando muito por ali e seguimos para pegar o ônibus. E saímos na hora certa, porque no caminho até o ponto, passaram muitos carros, motos e quadriciclos. Eu nem sei como coube tanta gente naquela praia minúscula.

Dali resolvemos ir a Perissa, a outra praia que ficava a quinze minutos andando de Perivolos, onde a gente tinha ido no dia anterior. Praia bem bonita, limitada em um dos lados por um paredão enorme. Dentro do mar, o chão aprecia ser todo de uma grande pedra clara e escorregadia. Talvez fosse resquício de lava vulcânica. Ficamos ali o resto da manhã inteira e foi muito divertido. Quando já estávamos com fome, fomos procurar algo para comer. Queríamos comer algo por ali mesmo e continuar na praia à tarde. Muitos restaurantes atendiam na areia, onde há fileiras de espreguiçadeiras e guarda-sóis. Era ali que a gente queria ficar. O problema é que os restaurantes, muitas vezes nem tão caros, queriam nos cobrar dez euros a mais para ficarmos na espreguiçadeira. Então, fomos atrás de um que oferecesse o serviço de graça, o que fomos encontrar já em Perívolos. E foi uma tarde incrível. Comemos e bebemos vinho ali de frente pro mar, na maior paz. Por incrível que pareça, as praias não estavam muito cheias. A  gente saiu de lá umas seis da tarde, mas teríamos ficado muito mais se não estivéssemos atrás de uma das atrações obrigatórias de Santorini - o pôr-do-sol em Oia (ou Ía, como dizem os gregos), considerado o melhor ponto para assistir ao pôr-do-sol considerado o mais bonito do mundo. 





A trajetória não era simples. Tivemos que pegar o ônibus de Perívolos a Fira e, de lá, para Oia. A essa hora, a fila do ônibus para Oia estava enorme. O caminho todo até Oia  partindo de Perívolos deve ter levado mais de uma hora. Oia fica bem na pontinha de Santorini, meio isolado de tudo mesmo, e é considerada a parte mais romântica da ilha. É lá o lugar mais procurado para viagens de lua-de-mel, por exemplo. E dá pra entender o porquê de tudo isso. Oia é encantadora! Para quem quer ver as tais casinhas brancas de telhados azuis é o melhor ponto definitivamente. Quando chegamos, já estava cheio de gente, parecia reveillon, todo mundo arrumado, tomando champagne, vinho ou cerveja e procurando a melhor posição para enxergar o espetáculo. Algumas ruas, muito estreitas, eram intransitáveis.  Escolhemos ficar em um terraço com poucas pessoas e de onde teríamos uma boa visão para o sol e também para a cidade de Oia. Dali, pudemos babar nos hotéis incríveis, com piscina na varanda do quarto e espreguiçadeiras voltadas para o mar. Ficamos com invejinha.








A nossa posição podia até não ser a melhor do mundo para ver o tal do imperdível pôr-do-sol, mas deu conta muito bem do recado. Depois de muita espera, eis que o céu começa a mudar de cor, meio rosa, meio laranja, nem sei. Acho que a beleza do espetáculo  tem uma grande ajuda do espetáculo a parte que é Santorini. Como não se sentir num sonho admirando um lindo pôr-do-sol, em uma ilha vulcânica, relativamente no meio do nada? Realmente era um conjunto de coisas e eu tinha que a toda hora me lembrar de aquilo era real. E para completar o 'reveillon', na hora do pôr-do-sol, muitos casais se beijaram. 




Nós voltamos logo depois que o sol se pôs. Vários ônibus vazios esperavam as pessoas e, mesmo assim, voltamos em um ônibus cheio. Como no verão o sol se põe bem tarde, preferimos passar no mercado e comer alguma coisa no hotel mesmo. O  dia seguinte seria o último, o nosso barco partiria para Atenas às 17h. Queríamos poder aproveitar bastante.

Acordamos cedo, deixamos tudo arrumado e fizemos o check-out. O chato de tudo isso era que só poderíamos tomar banho quando chegássemos em Atenas! Mas a praia era relativamente distante e não teríamos como curtir o  dia caso voltássemos para tomar banho. Então, topamos o sacrifício. Passamos a manhã toda na praia - Perívolos mais uma vez. Acho que essa acabou sendo a nossa preferida no fim das contas. Tentamos aproveitar cada segundo daquelas últimas horas naquele lugar tão especial. Saímos na hora do almoço e voltamos a Fira, onde comemos uma pizza (a grega de novo) e fomos dar voltas pelas lindas ruelas. Andamos por dentro das ruas estreitas e na beira das falésias, de onde podíamos ver a ilha quase todo. Conhecemos finalmente o teleférico que leva os turistas até o ponto de partida dos passeios de barco.  Vimos também os burros de carga, usados como alternativa para transporte de turistas para os mesmos passeios de barco. Achei absurdo as pessoas acharem charmoso, pitoresco ou sei lá o que passear nos pobrezinhos. Eram ladeiras bem íngremes e o chão não parecia dos mais confortáveis. Enfim, não sei como isso ainda existe. Fiquei morrendo de pena.












O passeio em Fira foi bacana, mas a gente acabou se perdendo pra caramba nas tais ruazinhas. Precisamos pedir informação mais de uma vez no caminho, pegamos um atalho por dentro de um hotel  (quase aproveitamos para entrar na piscina e pedir uma bebida) e finalmente nos achamos de novo. Aí já era hora de voltar ao hotel e pegar as nossas coisas. O dono da pousada nos levaria mais uma vez ao porto. Estávamos em clima de despedida, de Santorini e da Grécia. O chato era que, a partir de então, já estávamos no caminho de volta. Passaríamos em Atenas apenas para dormir e ir ao aeroporto na manhã seguinte.


O clima de despedida e nostalgia durou só até chegarmos no porto e descobrirmos que o nosso barco atrasaria umas duas horas por causa dos fortes ventos daquele dia. A  gente estava muito cansado, doidos para chegarmos no hotel e tomarmos um banho. No dia seguinte, sairíamos do hotel das seis da manhã. A viagem de Santorini a Atenas levaria em torno de três horas (com os ventos, poderia ser até mais). Fiquei muito desanimada com a notícia. E o porto de Santorini é um ovinho, sem nenhum grande conforto. No fim, partimos de Santorini mais de oito da noite e chegamos em Piraeus quase meia-noite. Andamos o mais rápido possível até a estação de metrô. A vizinhança não parecia das mais aprazíveis, principalmente àquela hora da noite. Estávamos preocupados, porque a chance de o metrô já ter fechado eram grandes e não tínhamos dinheiro suficiente para pegar um táxi. Preríamos procurar um caixa eletrônico que funcionasse para sacar dinheiro - o que não parecia ser a mais segura das decisões. Não sei qual o real perigo daquele lugar, talvez fosse assustador, mas inofensivo, não sei. Chegamos no metrô e estava aberto. Era o último trem e não daria tempo de comprarmos os tickets, o que me deixou desolada. Mas fomos incentivados aos ficais do próprio metrô a entrarmos no trem, deixar o ticket pra lá. Eu estava tão cansada e tão louca para chegar ao hotel, que não vi outra opção. Fui até a estação de Monastiraki preocupadíssima com a possibilidade de que algum fiscal nos cobrasse os tickets. Mas nada aconteceu e chegamos! A praça ainda estava bem ativa àquela hora. Mas só queríamos saber de chegar ao hotel. Para nossa alegria, a lanchonetezinha ao lado do hotel ficava aberta 24 horas por dia e pudemos comer alguma coisa antes de dormir e comprar alguma coisa para o café da manhã. Aquela foi uma das noites mais curtas da minha vida. Botei a cabeça no travesseiro e acordei para irmos ao aeroporto. Minha ansiedade agora estaria toda voltada para chegar em Zürich e dormir.