Eu tinha ouvido falar que encontrar um apartamento em Zurich era uma maratona, porque é muito caro e muito concorrido. Por sorte, antes de vir, consegui um apartamento pela faculdade, enorme, com três quartos, muito maior do que eu precisaria e mais caro do que eu gostaria, mas foi uma solução fácil e segura para eu ficar meus três primeiros meses. Nesse período, eu procuraria um lugar novo com o tamanho que eu preciso e com um precinho mais amigo.
E, logo que cheguei, comecei a procurar, dar uma olhada nos preços, entender como as coisas funcionavam. No início, tinham poucas opções porque ainda faltavam três meses para eu me mudar. Logo logo eu desisti da ideia de só querer mobiliado. Não ia dar certo, eram poucas ofertas e, muitas vezes, muito mais caras. Eu não precisava de muita mobília e, além disso, poderia conseguir coisa barata de segunda mão ou no tal de IKEA, a queridinha e baratinha de todo mundo por aqui.
As minhas primeiras visitas me assustaram muito. Naquela época, eu estava procurando em todos os sites de busca da cidade. Quando chegava no local, era uma fila monstruosa e três pessoas por vez para ver o apartamento. Logo pensei que nunca escolheriam uma brasileira, ganhando uma merreca, perto de um suíço e ainda por cima, a procura de um lugar temporário. E não acho que era paranóia, eles dificilmente escolheriam mesmo. A maioria não procurava por um inquilino temporário.
Aí mudei toda a minha estratégia, comecei a fuçar de hora em hora os sites onde estudantes anunciavam seus apartamentos - pequenos, grandes, mobiliados ou não, temporários ou não, caros, baratos - enfim, todo o tipo de oferta. Eu comecei procurando apartamentos de, no mínimo, dois quartos e, no fim, os de um quarto e meio já estavam valendo, desde que não fosse um cubículo. Vale lembrar que aqui, quando dizem dois quartos, trata-se de quarto e sala (talvez porque a tradução mais correta seja cômodo e não quarto). Esse "meio cômodo" que alguns apartamentos tem eu até hoje não tenho certeza do que seja, mas desconfio que seja o Hall de entrada que, muitas vezes, é bem grande, do tamanho de um quartinho dos fundos brasileiro.
Um dos primeiros que vi era um de 1,5 quartos, bem pertinho do meu atual apartamento, totalmente mobiliado e muito charmoso. Fiquei animada, embora o preço não fosse dos melhores. A boa notícia foi que a proprietária me deu em poucos dias uma resposta positiva e eu fiquei super feliz. Ela me chamou para ir até a casa dela para discutir sobre o contrato e me pediu para levar o dinheiro do depósito. Eu tive que avisar que precisava de alguns dias para conseguir o dinheiro do depósito porque era um valor alto e eu tinha um limite de saque, pois meu cartão não era daqui. Para mim, não era nada de outro mundo, mas a mulher me respondeu perguntando se eu tinha dificuldades financeiras; se não seria melhor dividir um apartamento; e se eu tinha dificuldade para pagar o depósito, como pagaria o aluguel?? Achei tudo muito rude e expliquei de novo a situação. Ela disse que só assinaria o contrato depois do dinheiro. Eu disse que não daria dinheiro sem contrato, porque era assim que a Universidade nos orientava. Foi um barraco por email. E eu desisti do apartamento, porque não queria confusão para o meu lado. Lidar com mulher maluca durante 9 meses seria um pesadelo. "Deixa para lá" - pensei, ainda tinha muito tempo para encontrar um lugar. Aquele foi apenas um dos primeiros.
Depois disso, o pesadelo ficou sendo a busca do apartamento. Fiz todas as visitas possíveis, me candidatei para praticamente todos e nada de positivo. A frustração foi cada vez maior. E eu nunca sabia o motivo de não ser escolhida. Após as festas de fim de ano, recomecei as visitas, faltava um mês e eu estava ficando bem preocupada. Agendei visitas para todos os dias da primeira semana de fevereiro. Achei que depois de tantos 'nãos', o problema era comigo.
Um dos apartamentos a visitar era muito perto de onde trabalho e, por isso, eu estava realmente interessada. Além disso, o apartamento tinha dois cômodos (o que, para mim, seria o mais razoável), e um bom preço. Quando cheguei, subi as escadas e, antes de chegar ao apartamento, um bichano veio correndo me receber, fiz um carinho e continuei subindo. A moça que estava alugando o apartamento se chamava Nadja, eu achei que ela fosse russa (bem clichê), mas ela era suíça mesmo. Não sei porque (talvez pelo gato?), ficamos conversando animadamente sobre o apartamento, sobre a vida na Suíça . Ela iria alugar o apartamento por seis meses porque estava indo com o namorado para Roma estudar. O apartamento era pequeno, mas muito aconchegante. Fiquei encantada com o lindo jardim de inverno, com uma mesinha de jantar, praticamente uma segunda sala. O apartamento em que vivo agora é perfeito, mas ele é claramente um apartamento para temporada, não tem cara de casa. E eu fui preguiçosa de escolher toques da minha própria personalidade, porque sabia que só ficaria três meses e não tinha ideia de pra onde iria em seguida. Por um lado, seria bom estar em um lugar em que alguém realmente mora, com decoração própria, livros, DVDs, TV e até um playstation. Não era o mais bonito que vi, mas foi um dos meus preferidos... talvez pela proximidade da faculdade (poderia ir andando!), talvez pela simpatia da Nadja, pelo gato ou simplesmente porque eu já estava desesperada.
E depois de mais de dois meses de busca, foi justamente nesse que fui aceita! Dessa vez, sem confusão de depósito antes de contrato, nem se cogitou isso. Tudo deu certo, contrato assinado e em março eu estou lá, bebendo vinho e jogando cartas no jardim de inverno! ;-)
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