sexta-feira, 21 de março de 2014

Freiburg

Na sexta à tarde, eu já estava ansiosa. Mal via a hora de sair da faculdade e encontrar o Dani para fazermos compras para o dia seguinte. Os últimos sábados havíamos ficado passeando por Zurich, mas dessa vez iríamos viajar. Uma viagem curta, verdade, ida e volta no mesmo dia e tal, mas seria divertido! Preparamos uns sanduíches, arrumamos a mochila, vimos um filme e nos preparamos para dormir, pois acordaríamos às cinco da manhã no dia seguinte. O ônibus sairia às sete. Iríamos a Freiburg, na Alemanha, aqui do lado, duas horas e estrada apenas.
No dia seguinte, acordamos na hora, mas acabamos saindo uns minutinhos depois do previsto. Quando desci do prédio, vi que nosso ônibus acabara de deixar o ponto. Suspirei, mas sabia que o outro não demoraria a chegar. Passaram-se dez minutos e nada. Esqueci que era sábado e seis da manhã. Estava escuro e frio. Comecei a ficar nervosa. Tínhamos que pegar o ônibus, saltar uns cinco minutos depois e pegar o tram, onde ficaríamos uns 20-25 minutos até a estação. Vai ficar muito apertado, pensei. 
- Vamos andando até Seebachplatz? (De onde partiria o tram, uns quinze minutos dali a pé. Se tivéssemos tomado essa decisão de cara, já estaríamos lá).
Começamos a andar. Mal viramos a curva e veio o ônibus. Agora tínhamos voltar correndo para pegá-lo, porque seria mais rápido. E fomos correndo de volta para o ponto, um frio danado, a mochila sacudindo nas costas. Conseguimos. O tram também não demorou para passar, mas já faltava menos de meia hora para as sete. Ficamos quietos, não trocamos uma palavra durante toda a viagem. Eram os olhos grudados na tela, onde passavam as estações e o tempo restante. Quando chegou o nosso ponto, saímos correndo, correndo muito. O Dani lá na frente. Eu não conseguia tanto assim, mas gritava “Vai!!! Vai!”. Gente, como isso deve ter soado ridículo.
Quando chegamos finalmente na estação, um tanto quanto esbaforidos, o motorista do ônibus anotava umas coisas no celular com um cigarro na mão, na maior calma do mundo. Falou num tom devagar que podíamos ficar calmos e subir para o ônibus. Quando sentamos, meu coração ainda saia pela boca. Já não sei correr direito, no frio então... O ônibus partiu em uns dois minutos.  Não teria dado tempo sem a correria. Ainda estava de noite.
Quando chegamos a Freiburg, já era dia e a cidade parecia um pouco deserta dali. Tudo em volta fechado. A previsão era chuva, mas só tivemos sol. Queríamos achar um mapa em algum lugar, mas não havia uma viva alma. Escolhemos um dos lados da estação, no qual podíamos ver a torre de uma igreja, e fomos, atravessando uma ponte. Começamos a andar pelas ruas e a cidade continuava muito deserta. Parecíamos decepcionados, mas ninguém comentou nada até então.  Para completar, depois de uns minutos de caminhada, eu tropecei na calçada,me enrolei nas próprias pernas e voei. Um tombo danado, mas nada aconteceu de sério, apenas mãos raladas. Continuamos andando e nada aparecia, não achávamos nem um restaurante para tomar um café. Cidade fantasma. 
Resolvemos voltar e cruzar a ponte novamente. Talvez o quente fosse do outro lado. E era. Lojas, restaurantes, praças lotadas, tudo era do outro lado. O Dani precisava fazer xixi e eu precisava comer alguma coisa. Decidimos procurar por um café que tivesse as duas coisas. Entramos em um na praça principal e começamos a dissertar sobre o assunto lá dentro. O Dani sempre acha que podemos conversar em português a vontade e ninguém vai entender. Enfim, confirmamos que o lugar tinha sim um banheiro, eu podia sentar e pedir algo para comer enquanto o Dani usava o banheiro. Quando ele foi, eu quis sentar em uma mesa lá fora, olhando a praça, adoro isso! Quando cruzei a porta, fui perguntar ao garçom se tudo bem eu pedir o que quisesse da mesa. E quando o abordei, iniciando com o meu clássico “excuse me”...  ele me interrompeu: “Pode falar português, tranquilo”. Era brasileiro. E foi super simpático, deu dicas do local e tudo. Deu a impressão de que ele ficou mais feliz do que a gente de poder falar português.
Saímos para o ponto de informações turísticas, compramos um mapa por um euro e fomos andar pela cidade. Na verdade, nem precisava muito de mapa, porque a cidade é bem pequena. Na verdade, conseguimos circular umas vinte vezes por cada ruela. E, em cada esquina, tinha alguém tocando música: um latino-americano tocando música latina; um grupo da Mongólia tocando música da Mongólia (achamos bem chatinha por sinal), e, é claro, muitos grupos, trios e solos de música clássica. 
O mais cinematográfico foi quando chegamos a praça da catedral ao som de música clássica. Me pareceu a trilha sonora perfeita para a primeira catedral que visitei na Europa. Me senti em um filme de época. E como aquela catedral nos impressionou! Do lado de fora, ao redor de toda catedral, uma feira de rua, vendendo objetos de decoração, brinquedos de madeira, bolas de gude, velas, incensos e, é claro, todo tipo de comida: frutas, legumes, verduras, salsichas, compotas, queijos... passeamos um pouco por ali e finalmente entramos na catedral.
Lá dentro era incrível. Certamente, não deve ser das maiores e nem das mais famosas catedrais, mas para nós, foi incrível! O teto e as janelas góticos, os vitrais, o coral de velhinhos... sim, ficamos emocionados, porque mal havíamos entrado  e um grupo de velhinhos,todos de terno, se dirigiu a beirada do altar. Perfilaram-se e começaram a cantar lindamente. Me senti na “Noviça Rebelde”. 
Dani saiu dali dizendo que era a coisa mais linda que já tinha visto na vida e jurou que entendeu quase tudo que a freira falou, porque o alemão de lá era bem mais fácil que o da Suíça. Oi?? Foi mal, não to nem no patamar de diferençar alemão de iugoslavo, identifico uma palavra ou outra.
Saímos, comemos um lanche e fomos procurar um banheiro. Havia um nas proximidades da igreja, mas estava fechado para manutenção. Havia outra opção bem perto daquela primeira praça, a do garçom brasileiro. E lá fomos. Dani entrou no masculino e eu entrei no feminino, como de costume. E, ao cruzarmos a porta, nos encontramos lá dentro de novo!  Estranho, mas haviam novamente duas entradas lá dentro. Aí sim, uma para cada um.  Entrei numa cabine e pronto. Enquanto fazia xixi, ouvia um falatório nervoso e incessante em alemão. Não dei bola. Saí da cabine e, na cabine do lado, tinha um negão na porta, conversando com a mulher lá dentro. Achei estranho, mas fui embora. Encontrei o Dani lá fora.
“Não consegui ir!”
“Como não conseguiu?? Eu consegui! Eu sou mulher e consegui! É bem mais complexo. Homem faz em qualquer lugar e tal...”
Aí ele explicou. As cabines estavam todas ocupadas. Em uma delas, tinham dois caras conversando. Fora das cabines, o tal negão o fitou feio. 
“Esse negão aí” – Ele falou. O negão saiu do banheiro e começou a andar devagar na nossa frente. 
Passamos ele e entramos na primeira rua a direita. Ali teria outro banheiro. Mal viramos a esquina e alguém cutucou o ombro do Dani... era o negão!
“Speak english?”
Olhamos assustados. Não conseguimos dizer nada, apenas balançamos a cabeça que não e apertamos o passo. Ele ainda falou:
“Bathroom? There...” e apontou pro outro banheiro, naquela rua.
Fiquei com tanto medo, mas tanto medo que quase não deixei o Dani entrar no outro banheiro. Qual a probabilidade de isso acontecer?? Entramos num banheiro público no sul da Alemanha, num dia de sol, cidade lotada e damos de cara com um ponto de drogas??? Ah, e esqueci de mencionar que quem nos deu a dica daquele banheiro foi justamente a mulher do ponto de informações turísticas. Será que ela entendeu errado?
Depois disso, demos mais umas vinte voltas no centro histórico e resolvemos dar uma caminhada para além dali. Andamos pelo lago, vimos vários prédios universitários, outras igrejas, tudo muito bonito. Quando voltamos para o centro, já estava escurecendo e faltava pouco para o ônibus de volta. Voltamos para a estação e esperamos uns minutos até a partida. Duas horas e estávamos em Zurich. Confesso que poder voltar pra casa depois de um dia cansativo foi maravilhoso.














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