E o grande dia finalmente havia chegado. Dessa vez a gente viajaria por quase duas semanas. Estávamos muito animados, muito mesmo. Mal podia me segurar na cadeira do trabalho. Queria ir embora logo. Quando finalmente deu a hora, fui para casa, tomei um banho, fizemos um lanchinho e partimos para o aeroporto.
Nossa tarifa superpromocional não permitia despachar malas. Então, colocamos uma mochila nas costas e fomos assim mesmo. Lógico, foi difícil arrumar roupa para doze dias dentro de uma mochila, mas, no fim das contas, coube tudo. Como tudo não podia ser só alegria, havia um nível de tensão em relação a imigração quando chegássemos em Londres. Tínhamos toda a documentação que poderiam pedir, mas nunca se sabe quando alguém pode não ir com a sua cara. Felizmente, tudo correu bem. Mal olharam nossos passaportes e a mulher ainda fez comentários sobre o clima no Brasil.
Agora era encontrar a melhor maneira de sair do aeroporto e chegar ao hotel. Eu tinha lido bastante a respeito, mas fiquei com medo de comprar qualquer passagem com antecedência e haver atraso no voo. Acabamos optando pelo tal do EasyBus - é uma van da Easyjet, que leva as pessoas (não necessariamente passageiros da Easyjet e não necessariamente passageiros) dos aeroportos de Londres para o centro. Por sorte, as vans EasyBus partindo de Gatwick tinham como ponto final Earls Court, onde justamente se localizava o nosso hotel. O aeroporto de Gatwick fica há mais de uma hora de Van do centro de Londres. Chegamos ao ponto final eram mais de onze da noite.
A gente precisou pedir informação duas vezes na rua para acharmos a rua do hotel que era ali perto. Ficamos felizes, porque as pessoas foram bem simpáticas e super solícitas. Uma mulher pegou o celular e jogou o endereço no googlemaps só para mostrar para gente exatamente o que tínhamos que fazer. Assim achamos fácil o lugar.
O hotel ficava num prédio desses bonitinhos que a gente vê em Earls Court e em vários lugares de Londres. O quarto era pequeno, mas era exatamente o que precisávamos. Estávamos tão animados, que mesmo sendo tarde, dispensamos a oferta da recepção de pedir comida pelo telefone e saímos para uma voltinha. Era sexta à noite e as ruas estavam super movimentadas, cheias de gente nas portas dos pubs, filas em portas de boate, pessoas andando pelas calçadas, conversando e rindo animadamente. Coisas que não se vê com tanta naturalidade em Zürich. Andamos um pouquinho por ali, compramos algo para comer e voltamos para o hotel.
No dia seguinte, saímos cedo e nossa primeira parada foi o Natural History Museum, bem pertinho do hotel. Não faltavam dinossauros e animais de todos os tipos, além de alas relacionadas a eras geológicas, fenômenos da natureza, pedras, plantas, corpo humano etc. Infelizmente, naquele dia "não haveria terremotos", segundo um aviso na ala de terremotos. Fiquei curiosa.
Quando saímos do museu, algumas horas depois, chovia em Londres. Mas nem ligamos a princípio. Continuamos andando na rua que levaria ao Hyde Park. Comemos um sanduíche no caminho e seguimos. Em alguns momentos, a chuva ficou incômoda, por causa do frio e do vento. Meu tênis, coitado, que resistiu a tantas viagens, começava a dar sinais de falência, meus pés estavam molhados e gelados. Ficamos desanimados, pensando que talvez fosse ser assim durante toda a viagem.
Na altura do Hyde Park, a chuva havia parado. Entramos no parque, passeamos um pouquinho e resolvemos sentar num banco para comer os muffins que havíamos comprado para sobremesa. Eram quatro no total, cada um comia um enquanto os outros dois ficaram na caixinha. Estava uma paz, um pouco de descanso, aquele visual bacana... e, de repente, senti um movimento na minha mão, perto da caixa de muffins e, quando olhei... um esquilo comendo o nosso muffin! Me assustei, dei um pulo e um gritinho. O Dani pegou a caixa de muffin e levantou também, mas o esquilo não se intimidou, desceu do banco e foi atrás do seu objetivo que eram os muffins... eu saí correndo e o Dani me achou ridícula, até o esquilo vir correndo na direção dele e ele dar uma corrida discreta também. O esquilo tinha comido uma parte do muffin, então, nem comer o muffin poderíamos mais. De repente vieram vários na nossa direção, todos queriam o muffin. Corremos. Não sabíamos se ríamos ou corríamos. No meu fundo, tocava "Panic on the streets of London...". O Dani resolveu que jogaria umas migalhas do muffin para eles para termos tempo de fugir. Jogou um pedação, o esquilo pegou, cheirou, olhou para o pedaço maior na mão do Dani e continuou em nossa direção. Que esquilos são esses, gente?? Em Zürich, os esquilos são pequeninos e engraçadinhos, mas em Londres parecem assassinos. Enfim, fomos expulsos do Hyde Park por eles, privados de comermos nossos muffins. Mais para frente, o Dani teve a brilhante ideia de jogar um pedaço de muffin que havia sobrado aos pombos, o que seria "super" adequado. Acertou a cabeça do pombo que perdeu o pedaço para outros milhares que apareceram em um segundo.
Após a experiência maluca e divertida no Hyde Park, seguimos em direção ao Palácio de Buckingham. Chegamos lá e o Dani ficou meia hora se perguntando se aquele era mesmo o Palácio. Sim, era aquele! Não era um castelo, não era um palácio muito rebuscado em comparação a outros, mas era o Palácio de Buckingham! Tiramos umas fotos em meio a muito, muito frio e andamos um pouquinho pelo St James Park, muito bonito, ali do lado, de onde a gente já conseguia ver a London Eye. Quando chegamos finalmente às margens do Tâmisa, estávamos do lado do Big Ben. Senti uma mistura de emoção com desapontamento. Ali estava o Big Ben, lindão na minha frente, mas bem nessa hora estava chovendo tanto e o frio era tanto, que tivemos que nos esconder debaixo de uma marquise por alguns segundos para conseguir tirar alguma foto. Aí a dificuldade foi fotografar um instante sem milhares de guarda-chuvas aparecendo junto. Depois, tomamos coragem e fomos até a ponte, que levaria ao outro lado do Tâmisa. Paramos no meio para tirar uma foto nossa. Tiramos várias e todas ficaram horríveis, cortando o Big Ben, cortando a gente, tortas, pingos de chuva na lente, muita luz, pouca luz. Resolvi pedir pra um japonês ali do lado tirar. Escolhi a dedo, eu queria um japonês! E não é que o cara tirou a foto e ficou perfeita?? Com a nossa camerazinha que não deve mais existir no Japão desde que o cara nasceu. Logicamente, a cordialidade fez com que também tirássemos uma foto dele com a namorada. E ele sacou a câmera Nikon giga e cheia de botões. E a foto deles, coitado, não chegou nem aos pés da nossa. Ficamos nos sentindo mal depois, porque ele tinha sido tão prestativo, mas nossos genes não nos permitiram retribuir da mesma forma.
Quando chegamos de volta ao Hotel já era tarde da noite. A gente estava muito cansado e com medo de ficar doente. Meus pés tinham ficado gelados o dia todo. No dia seguinte, eu precisaria mesmo comprar um novo. Ainda ligamos a TV um pouco antes de dormir. Adoro ver a programação alheia! Foi ali que vimos o comercial, cuja musiquinha marcaria o resto da nossa viagem - o comercial do Poney! Depois disso, a musiquinha e a dancinha do Poney apareceram em quase todos os nossos vídeos da viagem.
No dia seguinte, não chovia mais para nossa alegria! Fomos ao Picadilly Circus e andamos muito por ali. Almoçamos num restaurante indiano, nossa nova modinha. O bom de Londres é que, apesar de ser cara como dizem, é possível encontrar opções acessíveis para tudo. Comemos um pratão de comida indiana, num restaurante bem aprazível e pagamos cerca de 10 euros cada um. Em Zürich, por dez euros, o máximo que se consegue é uma massa com molho de tomate.
Voltando a Londres. Na Oxford Street, eu finalmente conheci a famosa Primark, tão falada pela Rachel. Consegui comprar lá uma bota linda (de qualidade não tão boa, certamente) por 10 pounds. Aproveitei para comprar também um pullover, porque o meu não estava dando conta do frio. Os preços eram realmente de enlouquecer qualquer um. Já comecei a me organizar para fazer umas comprinhas no último dia. E a me organizar também para dar um jeito de levar tudo o que comprasse apenas na bagagem de mão. Cogitava a possibilidade de ir dentro do avião vestindo todas as roupas.
E o que vimos de mulheres muçulmanas andando pela Oxford Street foi mais do que esperávamos. E não eram aquelas que cobrem a cabeça e os braços, eram aquelas de burcas pretas, mostrando apenas os olhos. Muitas mesmo. Veio a explicação quando chegamos ao fim da Oxford Street e encontramos um grande parque, onde estava tendo uma espécie de manifestação do povo muçulmano. E tinha muita, mas muita gente naqueles trajes. Fomos comprar um café para nos aquecermos e o Dani veio com a brilhante ideia de tomarmos o de 500mL. Não eram 500mL de capuccino, frapuccino, milk shake ou algo assim - eram 500 mL de café preto! E ele ainda teve a outra brilhante ideia de tomarmos sentados no parque onde os muçulmanos se manifestavam. Em um minuto, o café estava gelado e eu estava com frio.
Quando voltamos para o hotel, tomamos um banho e nos preparamos para comer em algum lugar. Não poderíamos chegar muito tarde, porque como sou muito boa com horários, nosso voo para Glasgow nos faria acordar às três da manhã para que pudéssemos chegar a tempo no aeroporto. Acabamos ficando num pequeno restaurante não muito longe dali. A dona era uma senhora de mais de oitenta anos com um inglês muito esquisito. Por fora, o restaurante era bonitinho, mas quando entramos era na sala de uma casa antiga e me senti a primeira cliente ali em anos. Mas topamos a experiência. Eu pedi uma sopa de cebola e o Dani uma Jacket Potato. A senhora puxava assunto a toda a hora. Perguntou de onde éramos, contou que o filho foi ao Brasil com um amiguinho quando era criança e que ela planejava fazer um cruzeiro por lá no ano que vem. Perguntou se era muito quente, porque odiava calor!! Tivemos que dizer a verdade: é um calor dos infernos. Ela era polonesa e eu já quase deduzi que tivesse se mudado para a Inglaterra por motivos de guerra. Ela elogiou o clima de Londres naquela semana e falou que a maioria dos londrinos fugia de lá nesse período. Falou que a Escócia era M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-A, mas que Glasgow era feia. Não era a primeira a nos falar isso.
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