sexta-feira, 21 de março de 2014

Londres - Parte II

Estávamos morrendo de medo do voo de volta a Londres, porque, enquanto estávamos na Escócia, houve inúmeras tempestades na Inglaterra, com muita ventania e até um certo caos. Sabíamos que a chance de uma turbulência considerável era  grande. Eu só queria chegar logo.

Dito e feito, a aterrissagem foi uma das piores da minha vida: avião sacudindo, sacudindo muito, e não descia aos poucos, mas em trancos e barrancos. Encostou na pista e deu uma deslizada. Eu acho que estava tão nervosa que nem nervosa estava mais. Quando parou, fiquei tão feliz que nada poderia me abalar. Ou quase nada.

Dessa vez, não compensava para gente pegar o EasyBus. Iríamos nos hospedar em Camden, o que significava ter que pegar outro ônibus ou o metrô para chegar ao hotel. E já estava muito tarde, eram quase dez da noite. Entramos então numa fila gigantesca para comprar o bilhete do outro ônibus para a Victoria Station. Os guichês estavam todos fechados, então, o povo teve que se virar com a maquininha. Mas a fila não andava nunca. Quando cheguei mais perto para ver o que estava acontecendo, enxerguei que ainda faltariam umas duas horas para o próximo ônibus e que ele levaria mais umas duas horas para chegarmos ao nosso destino. Estávamos cansados, doidos para chegar logo no hotel. Decidimos pegar o trem mesmo, era mais caro, mas muito mais rápido. Fomos então a estação do trem e quando chegamos lá um grande fuzuê. Parei perto de duas garotas, que pediam informação a uma agente, para tentar pescar o que estava acontecendo. Acontece que não haveria mais ônibus, nem trem, nem metrô, nem coisa nenhuma mais até a manhã do dia seguinte. Me bateu um desespero em me imaginar cansada e com os pé doendo, sentada  a noite toda naquele aeroporto. Achei que a melhor coisa a se fazer seria tentar arrumar alguém para dividir o táxi. Sim, pegaríamos um táxi do aeroporto de Gatwick até o centro de Londres. Aquilo que todas as pessoas falam para ninguém fazer, porque é muito caro e blá blá blá, foi a nossa única opção. Ficar no aeroporto  eu não queria. Mas a verdade é que eu estava apreensiva, porque sabia que era caro, mas não tinha muito a noção de quanto nos custaria. A primeira coisa que fiz foi me aproximar das tais duas garotas e perguntar se queriam dividir o táxi com a gente. Elas iriam para Earls Court e toparam. Camden  era mais distante, mas não tanto para quem estava em Gatwick. Elas eram americanas da Califórnia e estavam vindo de férias em Roma. Uma delas morava em  Londres e a outra em New York. Então, fomos nós quatro para o guichê dos táxis. Quando chegamos lá, a fila era um caracol. Todo aquele pessoal estava esperando um táxi. Deve ter sido a noite mais lucrativa dos taxistas londrinos. As pessoas foram se agrupando em quatro para economizarem. Depois que entramos na fila, muitas e muitas pessoas ainda continuavam chegando - idosos, famílias com bebês... Para completar, o local onde se formava a fila era perto do estacionamento e voltado para uma parte toda aberta, fazendo com que as pessoas ainda por cima congelassem. Depois de mais ou menos uma hora, chegamos ao guichê. Aquilo significava que daríamos o nosso nome e o local aonde iríamos. A espera ainda seria grande. E o pior era o preço: 160£, sendo que a maior parte ficaria por nossa conta. Quase chorei e me arrependi de não ter ficado para dormir no aeroporto. Para nossa sorte, depois de mais ou menos uma hora de espera, uma das meninas, a que morava em Londres, conseguiu o telefone de um taxista de fora do aeroporto que poderia nos buscar e cobraria 90£, mas demoraria pelo menos mais uns quarenta minutos. Os quarenta minutos se tornaram mais de uma hora e, depois que ele telefonou avisando que havia chegado, ainda demoramos mais uma meia hora para conseguirmos encontrá-lo. E foi uma longa viagem até o centro de Londres. Paramos em Earls Court para deixar as meninas  e fiquei um pouco chateada porque elas só deixaram 30£. Acho que estava sonolenta demais para tomar consciência disso. 

O taxista ainda foi bacana e deu uma volta pela Regent Street, onde os arranjos iluminados de Natal eram dos mais lindos de Londres, e até deu umas dicas de turismo. Nada que a gente não soubesse, mas valeu a simpatia depois de uma noite tão cansativa e estressante. Ele até ligou para o hotel em que ficaríamos para avisar que estávamos chegando.

Mas acho que o maior estresse ainda estava por vir. Assim que saltei do táxi e  olhei para minha mochila, notei que estava aberta. Não vi a minha carteira e cheguei a conclusão que deveria ter caído no chão do táxi. Fiquei desesperada, o táxi parou rapidamente no sinal, mas antes que eu pudesse chamá-lo, acelerou e desapareceu. Entramos no hotel e eu comecei a revirar a mochila - colocar tudo para fora e colocar em cima do sofá do hotel. O cara da recepção - extremamente mal humorado, olhou desconfiado. Perguntei se ele tinha o telefone do taxista que tinha acabado de ligar (bina?), mas ele não tinha. Eu também não tinha o telefone das americanas. E agora? Todos os nosso cartões estavam na minha carteira e, com eles a nossa única opção para retirar dinheiro. Isso durou alguns segundos até eu abrir a bolsinha da frente da mochila e achar a carteira. Sim, estava lá o tempo todo. Eu sempre fazendo estardalhaço achando que perdi tudo. Mas felizmente não foi o caso. Subimos para o quarto sem saber se chorávamos ou ríamos daquela noite. A janela do quarto era exatamente em frente ao holofote da entrada do hotel, fazendo com que o quarto não ficasse escuro nunca. Além disso, como a janela era voltada para a rua, o quarto não era dos mais silenciosos. Mas nosso cansaço era tanto que naquela primeira noite, aquilo definitivamente não teria importância.  

No dia seguinte, ainda muito cansados, fomos ao British Museum. Para a nossa surpresa, o nosso hotel que ficava bem perto do Camden Market não aparecia no nosso mapa. A gente então caminhou até o Regent's Park que era "perto" e já aparecia no mapa. De lá, nos achamos para chegar ao museu. O museu é muito maior do que parecia por fora e estava lotado. A parte ruim é que ainda estávamos muito, muito cansados e nos arrastávamos pelas seções. O museu era gigantesco. Com uma certa lerdeza e sentando de vez em quando, acho que conseguimos ver de tudo. Logicamente, eu estava doida para ver a múmia. Eu e todas as pessoas do museu, devo dizer, pois era a sala mais lotada que tinha ali.

Quando saímos de lá, fomos comer alguma coisa num pé-sujo asiático para variar. Dessa vez, estava uma delícia e a caixinha média, a qual pedimos achando que estaríamos sendo comedidos, era gigante e alimentava uma família. Olhávamos para os lados e víamos casais dividindo uma caixinha igual. Sentimo-nos ogros. E, para o Dani, sempre cabia um chocolatinho a mais. Ainda demos uma passeada por ali, mas o dia foi curto. Preferimos não voltar tarde para o hotel para que o cansaço não se estendesse pelos dias que ainda faltavam. Passamos no mercado, compramos comida, umas sidras e voltamos para o hotel.

E, felizmente, eu me sentia outra pessoa na manhã seguinte. Queria cruzar a cidade fazendo a dança do Poney. Como não estávamos mais tão perto do centro para fazermos tudo a pé, entramos no site de transportes de Londres (Bem parecido com o ZVV de Zürich) e começamos a traçar nossas rotas. O ponto de ônibus era bem na frente do Hotel, o que nos fez preferir ir pra toda a parte de ônibus. Acabamos não comprando nenhuma das opções de cartão, porque, embora a passagem não fosse nada barata, faltavam apenas três dias de viagem e o valor não compensaria. 

Eu precisava mesmo voltar ao Big Ben antes de continuar a seguir as margens do Tâmisa. Para nossa sorte, o dia estava lindo, um sábado muito ensolarado. Fomos primeiro a Trafalguar Square, no ponto final do ônibus 29, que parava bem na nossa porta. Em Londres, o anúncio das estações no auto-falante dos ônibus é uma lavagem cerebral. A cada ponto, a voz falava duas vezes o número do ônibus e  a direção - quando ele parava e quando voltava a andar. Ainda posso ouvir na minha cabeça aquela voz "Twenty-nine... to... Trafalguar Square".

A  Trafalguar Square é supermovimentada aos sábados, um monte de criança correndo pra lá e pra cá, velhinhos sentados nos bancos, casais passeando. Em um dos pilares da praça (the fourth plinth), havia um enorme galo azul (grande mesmo) muito chamativo. Pelo que li na internet, esse galo já gerou muita confusão - uns achando inapropriado por ser pornográfico (!) e outros grupos "ainda mais conservadores" criticaram por lembrar o símbolo da França. E lembra mesmo. Mais legal do que isso na minha opinião foi um artista de rua, na porta da National Gallery, pintando as bandeiras de quase todos os países no chão. Os "gringos" passavam por ali e jogavam moedinhas no quadradinho do seu país. 

Da Trafalguar Square, seguimos andando para o Big Ben,. E finalmente pude vê-lo confortavelmente e fotografá-lo de todos os ângulos. Foi um dos pontos turísticos mais marcantes para mim, possivelmente por ser tão, mas tão clássico, que quando eu finalmente dei de cara com ele, fiquei tentando processar aquele momento e o fato de estar ali. E não era apenas o Big Ben, percorrer as margens do Tâmisa até a Tower of London foi espetacular. Passamos pela London Eye, pelo London Aquarium, pela London Bridge e entramos um pouquinho para o Borough Market. A essa altura já estávamos famintos e aproveitamos para comprar uns docinhos por lá.

O Borough Market tem cada guloseima de dar água na boca. Tem também umas coisas bem "rústicas" que não me agradam nem um pouco, como uns pedaços de carne enormes expostos e, às vezes, até o bicho inteiro. Tem também o tal do Black Pudding que, a primeira vista, se parece muito com um brownie, mas, na verdade, é feito de sangue de porco. O mais curioso para mim é que esse "pudim" costuma vir no meio do café  da manhã - aquele com feijão, ovos, batatas... Eu normalmente sou uma pessoa que prova, mas dessa vez não foi preciso.

Seguimos. Nossa última parada antes de voltar era a Tower of London, muito imponente e com muitas histórias guardadas. Fiquei mais uma vez tentando processar aquele momento. Antes de voltarmos o Tâmisa, fomos até a fortaleza e o palácio que se seguiam a torre. O delicioso dia de sol tinha trazido muita gente às ruas e ali era um lugar especialmente cheio, talvez pelo pista de gelo para patinação colocada no fosso do castelo, onde provavelmente ficavam os jacarés para impedir a entrada dos invasores (Ao menos, era o que eu gostava de imaginar). Ficamos ali um pouquinho, sentados no sol. Comemos um peixe empanado com batata frita super-hiper recomendado pelo Chris. Muito gorduroso, mas muito gostoso. 

Quando voltamos, já estávamos cansados. Os papos estavam  mais espaçados, as paradas para fotos menos frequentes. Ainda passamos no caminho pela lindíssima Saint Paul Cathedral, onde se casaram Príncipe William e Kate Middleton e, mais importante do que isso, onde, dizem, foi gravada a cena de Mary Poppins da velhinha alimentando os pássaros.

A última parada naquele dia foi a Regent Street. Eu precisava ver aquelas luzes de Natal de novo, aquelas que o taxista havia nos mostrado. Infelizmente, a rua estava muito cheia e ainda não estava tão escuro para que pudesse registrar a decoração. No dia do taxista, estava muito, muito mais bonito.   

Domingo seria o dia do Mercado de Camden, ali pertinho  do hotel. De lá, seguiríamos o canal até a Little Venice. O Mercado de Camden era  uma reunião de lojinhas, camelôs e restaurantes, onde se pode comprar de tudo: coisas modernas, antigas (vintage), novos, usados, coisas úteis e inúteis. Roupas, artes, jogos, souvenires e todo o tipo de bugiganga para todos os gostos podiam ser encontrados por lá. A quantidade de gente circulando ali era incrível, todo tipo de gente. Era uma  muvuca tão grande que havia, inclusive, uma placa recomendando atenção a batedores de carteira ou "pickpockets". Ficamos super animados com o local. Demos umas voltas e resolvemos ir até Little Venice. A ideia era passearmos por ali novamente na volta.

Começamos a caminhar então na beira do canal. Logo no início, nós e um monte de gente paramos para ver um casal abrindo umas comportas  hidráulicas ou algo assim para que o barco deles pudesse passar. Nunca tinha nem parado para pensar naquele tipo de coisa e nem me dado conta que aqueles barcos precisavam fazer aquilo, mas foi interessante ver. Continuamos. Caminhamos, caminhamos, caminhamos. O visual era super bonito, com casas e prédios lindos. Quando chegamos a Little Venice propriamente, tudo estava bem pacífico, com muitos pássaros, muitas flores e poucas pessoas, um silêncio. Nem parecia que estávamos na mesma cidade. Ficamos ali um tempinho e pegamos o caminho de volta.

Andamos um pouco pelo canal, mas, na metade do caminho, mudamos a rota e entramos no Regent's Park. Eu li na internet (mas não sei se a informação é verdadeira) que seria aos portões desse parque que Bert faria seus desenhos no chão em Mary Poppins - aqueles desenhos onde eles mergulham para um mundo de fantasia paralelo. O parque é muito verde, muito grande e cercado por prédios lindíssimos, que, pelo que soube, compõem uma vizinhança endinheirada. Muitos cachorros correndo, crianças brincando e campinhos com pessoas jogando futebol espontaneamente (sem aquela obrigatoriedade de uniforme, caneleira, posição predeterminada etc, que vemos em Zürich). Atravessamos o parque ensolarado e tomamos mais uma vez a rua que nos  levaria a Camden. Estávamos famintos e, antes de voltarmos aos Mercados, resolvemos parar para comer alguma coisa num restaurantezinho por ali. O restaurante, diga-se de passagem, parecia aquele da Dona Florinda, mas era bem aconchegante. Eu pedi uma omelete de cogumelos e um capuccino. Depois, vimos que o famoso café da manhã, oferecido em diferentes combinações, podia ser servido o dia inteiro e decidimos comê-lo de almoço. O meu tinha salada, feijão, batata frita e mais cogumelos! E estava uma delícia! Aí sim, de estômago cheio, pudemos voltar ao Mercado. 

Estávamos fascinados. Falamos o tempo todo como Londres era legal, como as pessoas pareciam livres para serem como bem entendessem. Talvez porque tivesse gente de tudo que é jeito por lá e não desse para apontar todo mundo que passasse. Bem, essa foi a nossa impressão, não tenho ideia se é assim mesmo. Afinal, turista nunca sabe das coisas. O fato é que o lugar tem uma energia legal, apesar da "atenção aos pickpockets". Ficamos horas por ali, só voltamos para o hotel quando já era noite. E estávamos felizes da vida. Vimos punks verdadeiros, todo tipo de música tocando, todo tipo de comida a venda  e até uma lanchonete onde os banquinhos eram motos! Foi muito divertido! Estávamos no Mercado de Camden e discorrendo sobre o Mercado de Camden o tempo todo. 

Quando voltamos para o hotel, já era tarde e o dia seguinte seria o último dia. Já estávamos começando a ficar nostálgicos. E para uma combinação perfeita com nossa nostagia, o último dia era uma segunda-feira e amanheceu nublado e chuvoso. Mesmo assim, resolvemos ir a Notting Hill, passear pelas ruazinhas e conhecer o tal do mercadinho de rua. Infelizmente, o clima não estava dos mais aprazíveis, o céu era cinza e as ruas estavam completamente vazias. Para completar, ventava muito e fazia frio. Entramos logo num café por ali para bebermos algo quente. Eu aproveitei e resolvi provar a tal da mince pie.

Não ficamos por ali mais muito tempo. Pegamos um ônibus e seguimos para o centro. Queríamos ir ao Covent Garden e eu ainda pretendia fazer umas comprinhas na Primark. Antes disso, no entanto, já com fome, resolvemos ir novamente ao Pizza Hut 'all you can eat'. Um pouco mais caro do que em Edimburgo, mas era exatamente o que queríamos naquele dia, comer muito.

Depois, seguimos ao Covent Garden. Estava lotado de gente e, logo na entrada, havia uma topiária gigante de uma rena do nariz vermelho. Circulamos um pouco por ali, tiramos umas fotos, mas não compramos nada. Visitamos uma igrejinha ali do lado e voltamos para a tão esperada Primark. O Dani preferiu não entrar.

A loja estava completamente lotada e parecia um campo de guerra, onde todo o chão era um campo minado de roupas, sapatos e bolsas e as pessoas quase se estapeavam  para conseguir o que queriam. Infelizmente, eu não podia  levar muita coisa por causa da bagagem de mão no avião. Eu ainda cogitava a possibilidade de ir vestindo várias camadas de roupa... cogitava mesmo! Mas, logicamente, ainda assim, não tinha como levar tudo que eu gostaria. Peguei basicamente o que achei que seria necessário para enfrentar o frio de janeiro. Todas as blusinhas, os vestidinhos, as bolsas etc., tive que deixar para trás. A fila para o caixa dava umas quatro voltas. Mulheres enlouquecidas se revezavam para pegar as últimas coisas sem perder o lugar. Até seguranças cruzando a loja com um bando de adolescentes, supostamente roubando coisas, eu vi. Não é para qualquer um não. O Dani já teria enlouquecido se não tivesse trazido o mp3 e decidido dar uma volta pelas redondezas.

No dia seguinte, teríamos mais uma vez que acordar bem cedinho, ainda de noite, na verdade. Para nossa sorte, a volta seria pelo aeroporto de Luton e a rota do EasyBus para lá passava perto de Camden. Teríamos que acordar, comer alguma coisa e pegar um ônibus até a Baker Street, onde pegaríamos o EasyBus. Chegamos cedo demais e ainda tivemos tempo de sentar e tomar um café no Costa. Eram umas cinco da manhã e as pessoas pareciam incrivelmente bem humoradas. Chegamos cedo demais também no aeroporto - sempre cumpro as duas horas de antecedência, pro caso de pegar alguma fila ou algo assim, mas sempre faço tudo muito rápido e fico mofando pelo aeroporto, amargando a tensão do voo em poucas horas. Estávamos muito cansados, com muito sono, e era manhã do dia 31 de dezembro. 

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