sábado, 11 de outubro de 2014

Setembro na Zürich urbana

Setembro seria o nosso último mês em Zürich. A gente ficaria no apartamento da Langfurren até o final de agosto, então, mais uma vez, precisávamos procurar um lugar para ficar por apenas um mês. O site de busca na universidade, onde tinha conseguido todos os outros apartamentos, tem muitas ofertas de apartamentos mobiliados e temporários, especificamente para pessoas com vínculo com a faculdade, o que significa que a concorrência acaba sendo menor. 

E acho que essa foi a vez que conseguimos um apartamento mais rápido. E, sem dúvida, foi o melhor  apartamento de todos. O apartamento ficava no charmoso bairro de Wipkingen, bem perto da supercool west Zürich. Essa região é famosa, porque costumava ser uma área industrial da cidade, mas as indústrias foram tiradas dali, o lugar foi todo reformado e é todo cheio de novidades. É a maior representação da Zürich urbana e moderna  e aquela era nossa primeira experiência nesse burburinho. 

Afora isso, o apartamento era maravilhoso, melhor do que jamais imaginaríamos. Ficava num prédio super moderno e bem ao estilo 'container' de Zürich, coberto, na sua maior parte, por "telhados verdes". Aqui, vários dos prédios modernos tem esse estilo meio caixote de ferro, parecendo um container mesmo - e são considerados muito estilosos. No início, achava estranho e feio, mas depois que me acostumei, passei até a gostar. O apartamento tinha um salão enorme, com uma cozinha aberta e uma varanda ensolarada com vista para a cidade, especialmente para a Zürich Prime Tower, o maior prédio de Zürich e um dos maiores da Suíça. A cozinha e o quarto tinham uma vista hipnotizante para o rio Limmat. Além disso, tínhamos nossa própria lavanderia dentro de casa, coisa que não é comum nos prédios mais antigos. Era um mini-quartinho especial para isso - com lava-roupas e secadora. O Dani ainda podia estudar música no piano que havia na sala. O apartamento tinha, na verdade, dois quartos, mas apenas um deles estava sendo alugado, o outro ficou fechado. Nossa única preocupação ali era cuidar das plantas - o que, confesso, me deixou um pouco apreensiva. Eu não entendo absolutamente nada de plantas e o Dani também não. As donas da casa, duas professoras de uma universidade aqui de Zürich, fizeram uma tabela,dando um número a cada planta e dizendo a frequência em que deveriam ser regadas e quantidade de água para cada uma. Elas colocaram até adesivos nos vasos, com o número correspondente das plantas. Não tinha como a gente errar. Isso me deixou mais tranquila. Para completar, naquele um mês, a gente ainda teria uma diarista fazendo a limpeza do apartamento duas vezes. O cuidado maior era só com o chão, porque era sensível e se arranhava com facilidade. Então, nada de arrastar malas pesadas, cadeiras ou usar saltos por ali. Isso seria fácil para cumprirmos.









Quando finalmente nos mudamos para lá, nossa vontade era não sair de casa  de tão aconchegados. A parte chata era saber que só ficaríamos um mês. Dá para aproveitar bastante, mas a gente não chega a se sentir realmente em casa. O ponto alto para nós foram realmente os passeios no rio. Tudo era perfeitamente lindo, com águas cristalinas e cheio de verde. Além de tudo, a saída para o rio era na nossa porta. Não tinha aquela preguiça de caminhar até um lugar para caminhar. O melhor é que a gente podia até andar de bicicleta juntos, porque eu, que morro de medo de andar no meio dos carros, podia sair de casa direto para a margem do rio. 

Os passeios de bicicleta pareceram ser bem simples, mas não foi bem assim, na verdade. A primeira e basicamente única vez que tentamos foi completamente mal sucedida.  Tínhamos a bicicleta do Dani e a da dona da casa que parecia ser caríssima. Eu, como conheço minha falta de habilidade, preferi usar a do Dani, porque se quebrasse, o prejuízo seria menor. Só que a do Dani era muito alta para mim e com um assento extremamente desconfortável. Cada vez que eu tinha que parar a bicicleta era um suplício, meu pé não encostava no chão e por isso eu ficava super insegura. Logo na saída do prédio, eu já quase caí no rio, me desequilibrando para subir na bicicleta. 

A gente tinha decidido ir até Baden, a cidadezinha aqui perto, teoricamente a um pouco mais de uma hora com a bicicleta. Mas coloca uma hora nisso. Aquele tempo deve levar em conta pessoas super confiantes na bicicleta. Talvez o Dani até conseguisse, mas eu não. O problema não era a distância ou o tempo de pedalada, mas o caminho nem sempre amigável. Nas subidas, eu sempre empurrava a bicicleta e, em pontes muito estreitas também, porque ficava com medo de cambalear. Se a descida fosse muito acentuada, empurrava na certa. Numa dessas, quase mergulhei no rio de bicicleta e  tudo. Era uma descida aparentemente suave e bem rente ao rio. Quando me dei conta, a tal da descida era totalmente sinuosa e não acabava nunca. Mas aí já não dava para parar. Desci meio freando e meio chorando. Um pouco depois disso, eu caí mesmo, subindo uma ladeira relativamente suave. Me esforcei para subi-la inteira e, lá em cima, parei e caí pro lado. Nada demais, apenas um joelho ralado e umas boas risadas. Lógico que, nesse ritmo, não chegamos a Baden. Depois de uma hora e meia, ainda faltava mais de uma hora de acordo com os nossos cálculos. Paramos num vilarejo no caminho, comemos um sanduíche, descansamos um pouco e voltamos. 

Cheguei a fazer a segunda tentativa com a bicicleta, mas estava um pouco traumatizada e não foi nada divertido. Definitivamente, aquela bicicleta não era para mim, precisava de uma mais baixa, que me deixasse encostar os pés no chão. O mais degradante era ver famílias inteiras passeando com suas bicicletas gigantes - pai, mãe com filhinho na cadeirinha atrás, e o outro filhinho de uns cinco anos na sua própria, sem rodinha e sem nada, subindo e descendo ladeiras. Eu nasci medrosa, não tem jeito.




Mas caminhar ali era muito legal também. Sem falar em sentar em um dos milhões de banquinhos do caminho só para conversar e ver o rio passar. Ainda era verão e, nos dias mais quentes, muitas pessoas iam nadar ali ou fazer SUP. A graça de nadar no rio é seguir com a corrente até a próxima 'saída', tomando, logicamente muito cuidado, com os pontos de represa. Mas o que nos deixava um tanto invejosos eram realmente os botes. As pessoas entravam nos botes, normalmente duas em cada, e iam flutuando no rio, sem nenhum esforço, na maior vida boa. Tem gente que leva até grill para assar alguma coisa no trajeto. E isso acontecia todos os dias. Eu acordava de manhã e ia tomar café olhando para o rio e lá iam passando as pessoas, levadas pela correnteza, Às vezes, nadando, às vezes, de bote. 

A gente descobriu  também que ali perto havia uma área nudista na beira do rio. Só que a área nudista, embora  realmente restrita a pessoas nuas, fica bem no meio do caminho, sem separação nem nada. O Dani chegou um dia em casa comentando que tinha visto um cara pelado nadando. E a gente comentou como o povo daqui realmente não tem muita vergonha dessas coisas e tal. No outro dia, fomos caminhar e mais um homem nu, e outro e outro. Pronto, descobrimos que eles não tem mesmo muita vergonha, mas que estavam num espaço próprio para isso. E quando a gente passava pela outra margem do rio, a coisa era ainda mais óbvia, porque ficava todo mundo nadando, sentado na borda, esticado na grama, todos peladões. E toda vez que a gente passava por ali tinha alguém parado olhando. Nós, que somos de um lugar onde até topless é proibido, ficamos surpresos.

Mas aqui a coisa corre bem solta mesmo. As meninas comentaram que nas saunas, fica subentendido que todo mundo deve estar pelado. Nada de toalha, nada de biquini. Alguém pode chamar a sua atenção por isso inclusive. E não é sauna para segundas intenções não, é sauna normal mesmo. Até devem ter os que se aproveitam da situação, mas realmente não é a ideia da coisa. Foi bom saber.  









Embora o rio fosse a  nossa distração favorita, não para desmerecer a infinidade de opções do que fazer ali por perto. Aliás, talvez fosse justamente isso que fizesse daquele lugar tão especial - por conseguir estar próximo da natureza e da cidade grande ao mesmo tempo. Bem, isso não é exatamente difícil em Zürich, mas a maioria das áreas residenciais não ficam assim tão coladas na parte mais moderna.

Ali perto, a dois pontos de tram, estava o principal foco da vida noturna de Zürich - a Escher-Wyss platz. Ao longo do enorme viaduto Hardbrücke, estavam os bares e boates  bacanas, onde aconteciam as festas mais legais. Além disso, incontáveis restaurantes, um cinema enorme e movimento o tempo todo. Um pouco mais a frente, estava o "Im Viadukt", que são arcos de um viaduto antigo enorme, embaixo de uma linha férrea, resquício da época industrial da região, que agora abriga  inúmeras lojas moderninhas, galerias, cafés e restaurantes. E andando um pouquinho mais, já bem mais perto da Zürich HB, o bairro underground de Zürich, a Kreis 4, onde fica a famosa Langstrasse. Ali é a parte considerada 'perigosa' da cidade, mas pra gente, é simplesmente a rua que mais se parece com os outros lugares urbanos da Europa. Aliás, ela é considerado um dos pontos turísticos de Zürich, vejam só. É ao longo dessa rua também que fica o mercado de pulgas Kanzlei, o mais famoso de Zürich e o maior da Suíça, que funciona todos os sábados na Helvetiaplatz. Nós já fomos lá umas três vezes, mas sinceramente não curto muito. Muita gente andando pra lá e pra cá, remexendo todo o tipo de velharia usada que se pode imaginar. Foi onde o Dani comprou a bicicleta.

Foi nesse mês também que eu pude ver todos os dias a beleza que fica o céu de Zürich no pôr-do-sol. Não sei se estávamos a um altura maior e, por isso, a visão ficava mais ampla, mas sei que as cores do céu de Wipkingen eram as mais belas que já em Zürich.




E um mês naquele apartamento passou voando. Deu tudo certo com as plantas,embora em alguns momentos eu tivesse me preocupado com o bambu, justamente a planta que elas chamaram a atenção que precisava de mais água. Muitas folhas começaram a cair e outras a ficarem amareladas. Eu não sabia se tudo aquilo podia ser resultado do outono ou se estava colocando pouca água. Ou muita água, Na internet, tudo que acontecia com as plantas, diziam, era muita água ou pouca água. Mas no final deu tudo certo, era coisa de estação mesmo. 

No nosso último dia, resolvemos visitar uma igrejinha linda, a Reformierte Kirche de Höngg, que ficava ao longo do rio, não longe dali, na região de Höngg, na parte alta. Ao lado da igreja, havia também uma pequena vinícola. Um lugar extremamente agradável e absolutamente silencioso. Além de ter uma bela vista para o rio. Sempre passávamos por ali e víamos a igrejinha lá de baixo, mas nunca havíamos subido. Foi, afinal,uma boa despedida. 

Nossa próxima parada agora era - Urdorf.











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