sábado, 10 de maio de 2014

Salzburg

Eu saí mais cedo do trabalho, porque nosso trem partiria às 16:40. Já tinha deixado tudo pronto em casa, era só chegar, fazer um lanche e sair. Como a viagem seria razoavelmente longa (cinco horas)  e chegaríamos mais de dez da noite, preparamos também uns sanduíches, pois não sabíamos se a comida do trem custaria os olhos da cara.

Parte do trajeto do trem era o mesmo que havíamos feito para Sargans na nossa viagem a Lichenstein. Então, eu sabia que seria muito lindo e estava ansiosa para que meus pais desfrutassem aquela paisagem alpina incrível. E, na verdade, a partir de Sargans, a viagem foi toda cortando os Alpes e ainda mais bonita do que antes. Meu pai não conseguia parar de tirar fotos. Se enfiava em todos os buracos do trem para conseguir um bom ângulo. Acho que a bateria da câmera acabou antes de chegarmos a Salzburg.




O trem estava muito, mas muito cheio de gente jovem. Bebiam e cantavam a plenos pulmões. Uma barulheira danada. A maioria foi pra Innsbruck, uma cidade no meio dos Alpes austríacos e bem famosinha para o pessoal que gosta de esquiar.  Assim, depois de Innsbruck, a viagem foi bem mais tranquila. Além disso, já estava escuro e poderíamos parar de entortar o pescoço para ver as paisagens e relaxar nossas cabeças no banco.

Eu optei por um hotel bem perto da estação de trem, porque não queríamos saracotear depois das 22h pela cidade carregando bagagens para procurar hotel. Então, nós andamos uns cinco minutinhos e lá estávamos. Era uma casa grande e antiga, mas muito bem conservada, uma gracinha. O cara da recepção misturava um pouco o inglês com o alemão, mas era muito simpático e prestativo.  Ele deu a entender que haveria apenas um dos quartos duplos da reserva disponíveis o que nos deu um rápido susto. Como não sabíamos se tínhamos entendido bem, resolvemos subir para conferir o que nos esperava. E era aquilo mesmo que havíamos entendido, havia apenas um quarto duplo, mas colocaram meus pais num quarto quádruplo com duas camas de casal.

O nosso quarto não era quádruplo, tá bom, não tinha duas camas de casal também. Mas, olha, parecia tirado de dentro de uma casa de boneca de tão bonitinho. Os móveis eram de madeira em pintura pátina, com algumas flores estampadas. Nos sentimos muito bem ali. Meus pais também adoraram o quarto deles. Todo mundo foi dormir feliz.

Na manhã seguinte, acordamos cedo para tomar café da manhã e sair rapidinho. Eu vi um dia ensolarado da janela do hotel e resolvi sair apenas com um casaquinho normal, o que me fez passar um bocado de frio durante o dia. Nós estávamos carregando conosco um mapa da cidade e um roteiro que eu havia compilado de vários blogs. A nossa primeira parada foi o Parque Mirabell, que ficava a uma rápida caminhada de poucos minutos do hotel.  Algumas das cenas da “Noviça Rebelde” em que as crianças e Maria cantavam Do-Re-Mi vestindo roupas de cortinas pela cidade haviam sido filmadas naquele parque. O Parque fica lindo na primavera, com imensos jardins com desenhos de flores de diferentes cores e topiárias. Ficamos um bom tempo ali, passeando e fotografando. Nós e os japoneses, sempre eles.











Logo depois do parque, atravessamos o rio que cruza a cidade e estávamos na parte histórica de Salzburg. Ainda estava relativamente cedo e, com o tempo frio, a cidade estava um pouco vazia. Logo de cara, acabamos entrando em uma das inúmeras ruelas com lojinhas de Salzburg. O que achei legal por ali foram os letreiros a moda antiga, todos seguindo o mesmo padrão, combinando bem com o clima da cidade.







Outro detalhe que se vê por toda a parte são as referências a Mozart, o mais ilustre filho de Salzburg. Não só lojas de música, mas lojas com manequins vestidos a caráter em toda a parte, souvenirs e até lojas de chocolate do Mozart. Eu comi muitos e eram deliciosos. A própria casa onde o Mozart nasceu fica bem no meio de uma dessas ruas cheias de loja.




Continuamos nos embrenhando pelas ruelas. Salzburg tem um centro histórico pequeno, dá pra fazer tudo a pé facilmente. O difícil é conseguir não se envolver muito com cada praça, com as mesinhas nas calçadas, com cada artista tocando clássicos na rua, porque sem perceber consegue-se ficar um dia inteiro sentado numa praça dessas, tomando café e ouvindo música. Acho que talvez para mim a coisa mais legal em Salzburg tenha sido passear pela rua mesmo. Como fomos na primavera, havia muitas barraquinhas nas ruas vendendo flores. Além disso, como também era Páscoa, me encantei pelas barraquinhas vendendo os famosos ovinhos pintados e enfeites de coelhinhos e galinhas (sim, galinhas).  Além dessas, também havia várias feirinhas de rua  vendendo topo de tipo de bugiganga e souvenirs.  Eu acabei comprando um colarzinho de pedras brancas de uma vendedora de tão simpática que ela foi. Explicou toda a história da Edelweiss (A mesma da música do filme!), que só crescia nos Alpes e era difícil de cultivar, adorei! E, quando estávamos conversando entre a gente, ela de repente perguntou em inglês: “Vocês são do Rio?”. A gente se entreolhou e olhou pra ela. Sim, como sabe?!! Já estava achando que ela era brasileira. Mas não. A ex-mulher do chefe dela era do Rio. Achei engraçado ela ter reconhecido assim tão rápido o nosso sotaque. Não é fácil pra alguém que não tem domínio. Então, acabei levando o tal colarzinho.





Em poucas horas, fomos a várias praças nos arredores: a da catedral de Salzburg; a do Mozart, onde o Dani quis tirar uma foto com a estátua do seu ídolo; e a da famosa escultura da bola dourada com um homem em cima. Em todas as praças, havia lindos chafarizes ou esculturas. Fora isso, entramos em mais umas três igrejas, todas aparentemente bem antigas. Ao lado de uma delas, eu vi o cemitério onde supostamente as crianças da família Von Trapp teriam se escondido dos nazistas no filme, mas depois descobri que um cenário foi usado para a cena. 







Nessas andanças, o Dani descobriu que poderia treinar o alemão dele com os velhinhos, pedintes e bêbados da cidade. Sim, todos eles gostavam de um papo e era isso que o Dani queria. Às vezes, as conversas acabavam enveredando para o inglês mesmo, não tinha jeito. Teve um velhinho que até se arriscou no português: “O português do Brasil é fácil e doce” – ele repetia. Todos muito simpáticos, se oferecendo para dar informações e dando palpites no nosso roteiro. Meu pai que já ama conversar e está louco para praticar o inglês, também poderia ficar horas conversando com cada um.

Depois de muita andança, decidimos comer antes do próximo passeio que seria bem demorado – subir na fortaleza Hohensalzburg! Paramos num pequeno restaurante ao lado do cemitério e pedimos sanduíches. Eu ainda aproveitei para provar um Apfelstrudel  austríaco – e estava delicioso!



A tal fortaleza era na verdade um grande complexo cercado pelos antigos muros da cidade. A gente subiu com um funicular e, apesar da fila, foi bem rapidinho. Chegando lá em cima, a primeira coisa que nos chamou a atenção foi a vista para os Alpes.  Eu nunca perco uma oportunidade de olhá-los e fotografa-los de um ângulo diferente. Então, lá fomos nós, ficar um pouquinho no mirante que tinha uma vista panorâmica incrível e imperdível dos Alpes.





Seguimos. Era difícil andar ali dentro sem se perder um pouco. O complexo era enorme e meio labiríntico, tinha sempre uma entradinha aqui e outra ali. Eu sempre ficava na dúvida se estava vendo tudo que tinha pra ver. 

A segunda coisa que me chamou a atenção foi o teatro das marionetes. Mais uma vez, toda a minha curiosidade e interesse por esses shows vinham da cena da “Noviça Rebelde”, quando as crianças organizam uma apresentação com a Maria. E ali eu pude ver vários palquinhos para esses espetáculos e vários tipos de marionetes, normalmente remetendo a personagens da época medieval. Além disso, havia alguns mini-palcos interativos para que os visitantes brincassem um pouco com os bonecos.  Eu, obviamente, fui lá brincar um pouquinho. Depois disso, também tirei foto com meus pais em um painel com os personagens da “Noviça”, aqueles com buracos para as pessoas posicionarem as cabeças.






Andando um pouco mais adiante, havia o museu da fortaleza, com muitos objetos da época, desde instrumentos de tortura e todo tipo de armas até móveis e instrumentos musicais. De dentro do museu, várias saídas para o terraço davam um bom cenário para fotos panorâmicas de Salzburg.













Nosso último ponto foi subir a torre, onde também ficava a câmara de tortura. Usamos um audioguide que ia contando a história do lugar a cada cômodo. Na subida, aconteceu um episódio engraçado. Minha mãe, que de vez em quando precisava parar de subir a escadaria para descansar, resolveu se escorar um pouquinho na parede. Pois resolveu de se escorar bem no alarme de incêndio, que disparou de repente, no último andar da torre, que estava lotado. Felizmente, havia um segurança por perto que viu o pequeno mal entendido e desativou o alarme. Não foi preciso evacuar o prédio ou causar pânico.

Finalmente chegamos ao topo, o último ponto da torre, com dois níveis de terraço e uma vista incrível da cidade de um lado e dos Alpes do outro. Nesse momento, o audioguide começava a  descrever a paisagem de Salzburg ao redor, pontuando cada prédio importante e, às vezes, pincelando um pouquinho da história. Eu já havia andado lá por baixo e tinha uma ideia do que era cada coisa, mas achei engraçados os narradores orientarem a gente a olhar a Leste, Oeste etc. Não tinha ideia de que lado era o Leste ou Oeste, caramba!






Quando descemos da torre, começamos a sentir umas gotas de chuva. Já tínhamos visto basicamente tudo ali em cima e resolvemos pegar o funicular para descer. Chegando lá embaixo, eu, meu pai e Dani resolvemos catar um caminhozinho que havíamos visto do alto da torre e que levava a uma outra torre menorzinha. Minha mãe preferiu ficar lá embaixo.

Pegamos uma das ladeiras ali perto da saída do funicular e fomos subindo. A chuvinha estava fraca, mas incomodava por causa do frio. A vista agora estava completamente cinza. Ao longo daquela subida, tiramos mais fotos da vista. Achamos o tal caminho facilmente e logo chegamos a torre. Valeu a pena ter ido ali, foi uma subida rápida. O único porém foi, na verdade, a torre ser metade moderna, com janelas e um terraço todos de vidro, o que decepcionou um pouco. Na volta, percebemos que a fortaleza poderia ser acessada a pé mesmo, por aquela mesma rampa. Achávamos que só poderíamos chegar lá usando o funicular.






Quando descemos, estávamos novamente na praça da feirinha e da estátua na bola dourada. Pegamos um caminho passeando pelas ruelas charmosas até atravessarmos o rio. Já começava a escurecer. Passamos no mercado e compramos umas coisinhas pra comer no quarto. No caminho para o hotel, ainda passamos mais uma vez pelo Parque Mirabell.

Eu havia falado o tempo todo, desde que a viagem havia sido agendada, em fazer o tour “the sound of music”, que visita os lugares da cidade retratados no filme. Estava muito animada antes, mas depois de curtir tanto Salzburg naquele dia e de reconhecer por mim mesma tantos daqueles lugares, escolhi sem medo substituir o tour por umas horas a mais na cidade. Ninguém discordou da ideia, então, assim fizemos. E essa decisão valeu muito a pena.

Na manhã seguinte, tudo estava novamente ensolarado. Saímos caminhando na margem do rio e acabamos subindo um dos morros por causa da torre de uma igreja, que nos pareceu muito bonita lá de baixo. Decidimos seguir por ali mesmo. No caminho, havia um lindo parque e, ao longo dele, mirantes com vistas lindas da cidade de um lado e dos Alpes de outro. Depois de uma boa caminhada, começaram a aparecer partes do antigo muro da cidade, com seus enormes portões. A caminhada foi mais longa do que pareceu, pois, quando nos demos conta, estávamos novamente na rampa que levava ao castelo.









Descemos de novo e paramos pra almoçar. Meu pai e Dani aproveitaram para tomar a cerveja austríaca dali de Salzburg – a Stiegl. Passamos mais uma vez pela praça da bola dourada e da feirinha. Dessa vez, muito ensolarada. O violinista que estava lá todas as vezes tocava Alleluia. Aquela praça cheia de gente e aquela música de fundo me fez ter saudade de Salzburg antes mesmo de ir embora. Eu estava realmente curtindo o solzinho, a música e e aquele monte de gente circulando.

Mas a gente precisava ir buscar as coisas no hotel e partir pra Vienna. Quando chegamos ao hotel, eu me dei conta de que mais uma vez havia feito confusão com os horários dos trens. Estávamos organizados para pegar o trem às 15:30, mas, na verdade, o horário de partida era 15:08. Dessa vez, não houve grandes transtornos, pois ainda não eram 14:30 e a estação era muito perto do hotel. Isso só serviu para me deixar ainda mais insegura com horários. Eu olho o mesmo papel mil vezes e sempre fico achando que a qualquer minuto vou ouvir que o horário ou dia do trem está errado.

Bem, mesmo com a confusão dos horários, pudemos ir com calma a estação. Dani ainda teve tempo de passar no mercado e comprar umas cervejas e uns biscoitos para comermos no caminho. A viagem, aliás, foi uma delícia. O vagão estava praticamente vazio e ficamos bem a vontade. Consegui até tirar uns cochilos. Em três horas, estávamos em Vienna.


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