Eu morei em Brunau por um mês. Esse um mês foi suficiente para que eu pudesse acrescentar vários pontos a minha estadia na Suíça.
Primeiro, porque em boa parte desse mês eu estava sozinha pela primeira vez em 31 anos. Eu fiquei um tempo sozinha em Seebach também, mas foi diferente, porque já estava acostumada com o local e, além disso, o Dani tinha acabado de voltar e aquilo por si só já me deixava chateada o bastante. Morar sozinha vinha em segundo plano. Quando me mudei para Brunau, era muitas novidades. O fato de estar sozinha começou a aparecer com força. Era um bairro completamente diferente, um apartamento diferente e no térreo. Eu tentei enxergar isso como algo positivo. Não sei se em algum outro momento da vida vou morar sozinha de novo e, na verdade, nem quero. Mas já que fui obrigada a isso, tentei enxergar como uma experiência.
Segundo, perdi o medo de andar de trem dentro da cidade. O medo, na verdade, era uma preguiça danada de tentar entender os trens que eu poderia pegar sem precisar pagar taxa extra na passagem. Porque aqui funciona assim: a cidade está dividida em zonas. Se você pega o trem, ônibus, tram ou barco e fica dentro da sua zona, paga a tarifa normal. Mas, se precisa mudar de zona (como ao aeroporto, por exemplo), tem que comprar um adicional para aquela outra zona também. A questão é que os trens normalmente vão até lugares mais distantes do que os ônibus e trans, o que me deixava insegura, pois não tinha certeza onde acabava uma zona e começava outra. Em Brunau, eu morava do lado da estação e o trem seria muito conveniente. Por causa disso, venci a preguiça e comecei a usar o trem sempre.
Terceiro, eu pude conhecer um bairro no lado oposto da cidade. Percorria trajetos novos e isso me deixava muito animada. Adoro pegar caminhos diferentes. Além dos trajetos, o próprio bairro era uma delícia para se caminhar, perto do lago, de muitos parques lindos, com mega mercados muito próximos, além do shopping com a Zara e a H&M. Como eu ficaria lá pouco tempo, queria explorar bastante a área.
Por último, finalmente eu tomei coragem para conhecer a tal da montanha de Zurich, ou Uetliberg. Desde que cheguei aqui, ouvia falar dessa montanha, que tinha uma vista linda da cidade e tal. Eu queria muito conhecer, mas nunca conseguia me animar o suficiente, porque parecia ser distante, tinha que pegar o trem, um lugar que eu não conhecia. Mas a gente agora estava do lado da montanha. Não tinha desculpa. Aquele lugar que parecia tão distante de chegar, era justamente onde eu estava morando. Quando o Dani voltou, a gente resolveu ir até lá. Olhei na internet para confirmar por onde teríamos que subir (a pé, é claro) e fomos. Dizia no site que a subida levava em torno de uma hora/uma hora e meia. Seria ótimo, porque poderíamos fazer um pouco de exercício. O que eles esqueceram de dizer no site (ou eu esqueci de ler) é que a uma hora de subida era íngreme. Assim, eu e o Dani passamos momentos de perrengue. Principalmente eu, é claro. Tive que parar algumas vezes para descansar. Quando a gente chegou no cume, havia um parque pequeno, cheio de gente linda e cheirosa, mulheres de salto, um pessoal que certamente tinha subido de trem. Eu e o Dani, suados fedidos e descabelados, chegamos ofegantes. Mas que alívio poder chegar ali e ver como valeu a pena. A vista era fantástica (principalmente com a ajuda do dia ensolarado). Se eu já achava a vista dos Alpes linda lá de baixo, das margens do lago, lá de cima era indescritível. E o mais engraçado é que quando você termina de subir a montanha, quando chega no cume, ainda tem mais uma mini torre Eiffel que parece infinita depois de tanto cansaço. Mas a vista lá de cima é ainda mais linda. Ficamos muito contentes. Passamos um tempo lá em cima, admirando a vista, comemos um sanduíche e começamos a volta. Resolvemos descer pelo lado mais suave. O único problema é que não tínhamos a menor ideia de onde daria. Começamos a descer, descer, descer, a descida era quase plana na verdade. Ao longo do caminho, a vista dos Alpes continuava linda. A gente deve ter andado mais de uma hora e não havia nem sinal de que o caminho acabaria e chegaríamos no asfalto. Vamos parar em outro Cantão, falei. Resolvemos, então, pegar uma trilha no meio do caminho e descemos mais um bocado. Quando finalmente chegamos ao asfalto, estávamos mortos de cansaço e de fome. A rua margeava a linha do trem e ainda faltava um bom caminho até a estação de Brunau. Mas naquela via não tínhamos nem opção de transporte, tinha que ser a pé mesmo. Quase não acreditamos quando vimos um mercado turco aberto (em pleno domingo) e pudemos comprar um biscoito. Quase não acreditamos quando chegamos em casa. Foi um dos dias mais cansativos da história! Mas valeu a pena cada segundo em Uetliberg.
E valeu a pena cada segundo em Brunau.
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