Quando cheguei em Zürich, descobri que existem um bilhão de regras por trás da separação do lixo aqui na Suíça. A mulher que me entregou as chaves do apartamento não falava inglês muito bem e só deu a entender que eu precisava comprar um saco especial para jogar o lixo nos containers da rua. Tudo bem, entendi, não podemos jogar no saco do mercado ,né?! Ok, isso era fácil, no primeiro dia, fui ao mercado e comprei sacos de lixo. Perguntei aqui e ali e fui descobrindo algumas coisas: tínhamos que colocar as latas e os vidros em lixos especiais distribuídos pela cidade; as garrafas pets e pilhas podiam ser jogadas em depósitos especiais que todo mercado oferece; os papéis e papelões deveriam ser deixados na calçada, ao lado dos containers, no dia certo da semana. Não parecia ser difícil e eu estava super feliz por poder separar o lixo e porque sabia que o lixo seria tratado de forma inteligente.
Mas as semanas seguintes mostraram que não era tão simples entender essa separação dentro de uma cabeça neurótica como a minha. Eu me questionava em relação a tudo: guardanapo sujo deve ser colocado no lixo normal ou junto com o papel? Isso é de plástico mesmo? E o papel alumínio? E os sacos plásticos? Eu tinha todas as dúvidas do mundo e morria de medo de ser multada. Assim, digamos que nas duas primeiras semanas eu separava praticamente tudo, tinha várias sacolas menores com mil coisas diferentes e eu tentava perguntar às pessoas e pesquisar na internet como aquilo poderia ser separado. No final desse período, cheguei a uma conclusão muito simples: tínhamos que separar garrafas pet, vidro, lata, papel e papelão. O resto era lixo normal. Lógico, tinham outras coisas com as quais a gente não se preocupava muito, tipo têxteis e aparelhos eletrônicos.
Agora que já sabíamos como separar, faltava nos livrarmos das coisas. Havia um ponto para dispensar latas e vidros bem perto da nossa casa. A gente ia até lá e jogava com certa frequência. Depois de mais de um mês, nos demos conta de que havia diferentes recipientes para cada cor de vidro - transparente, verde e marrom. Só então, agente começou a jogar as garrafas no lugar certo. O próximo passo era entender em que dia recolhiam o papelão e o papel. Como eu ia descobrir?! A Diane não tinha ideia, mas me recomendou ficar de olho nos vizinhos. Quando tivesse muito papelão na rua, era porque no dia seguinte, haveria a coleta do papelão. O papel não me incomodava tanto, era pouca coisa, apenas umas propagandas. Mas o papelão ocupava bastante espaço, eram muitas caixas de suco, de pizza, de biscoito... Eu precisava me livrar daquilo. As semanas passavam e a gente nunca via nenhum papelão na rua. Quando finalmente eles apareceram, ficamos felizes e lá deixamos todo o nosso papelão de, sei lá, um mês talvez. Não vamos mais deixar acumular, eu disse para o Dani. Vamos prestar mais atenção.
As maiores novidades vieram quando eu me mudei do apartamento de Seebach. A mulher que me alugaria o apartamento de Brunau por um mês me falou: "Bem, você já sabe como funciona a coleta de lixo aqui em Zürich, não sabe?!". "Claro, claro, tranquilo". "Só colocar no saco branco, o Zuri-sack, e colocar no container" - ela continuou. Eu respondi "Sim, claro", mas na minha cabeça eu pensava "Saco branco??? Zuri-sack??". E foi aí que eu descobri que aquele saco de lixo cinza com o símbolo de Zurich, que eu havia usado pelos últimos três meses, não podia ser usado para lixo comum. O tal do Zuri-sack é um saco branco e bem mais caro. É mais caro porque no preço do saco estão incluídos os impostos da coleta de lixo. Você não compra o Zuri-sack da prateleira do mercado, mas tem que pedir diretamente ao caixa. Meu queixo caiu e eu morri de vergonha. Me senti uma burra. Comprei o tal Zuri-sack no mesmo dia por 22 francos!
Depois disso, eu não queria fazer mais nada de errado. Comecei a fuçar na internet as informações sobre coleta de lixo em Zürich. Então, eu descobri que a prefeitura criou um site apenas para informações de coleta de lixo. Nesse site, eu conseguia ver os pontos para jogar fora garrafas, lata e óleo de cozinha. E, é claro, eu poderia checar as datas de coleta de papel, papelão e outros lixos especiais na minha região. Era só colocar o nome da rua e o número do prédio. Achei o máximo. E mais uma novidade: descobri que a coleta de papelão é feita, na verdade, uma vez por mês. Provavelmente, por esse motivo, a gente demorou tanto para ver os papelões na rua em Seebach.
A última descoberta (até agora) foi a separação do lixo orgânico. Pelo que entendi, não é algo obrigatório. Eu aprendi sobre isso quando aluguei o apartamento da Nadja. Ela me mostrou o recipiente que deixava na cozinha pra isso, o saco especial biodegradável e o container onde o lixo orgânico deveria ser jogado - o pequeno e verde, ao lado dos cinzas grandes. E eu comecei a fazer mais essa separação, além do papelão, papel, lata, pet e vidro.
Atualmente, já faço a separação quase automaticamente. Não fico mais neurótica com todas as coisas. Minha graça agora é ver os meus pais passando pelas mesmas questões. Eu vejo que eu fiz igualzinho no início e como hoje em dia parece simples. Todo dia chego em casa e eles vem me perguntar sobre mil tipos de lixo - o plastiquinho do cigarro, a cartela de remédio, o pacote de biscoitos. Normalmente, a resposta é "no lixo normal mesmo". Daqui a pouco está fácil pra eles também.
rsrsrsrsrrs. Passei por isso também, que coisa difícil !!
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