segunda-feira, 9 de junho de 2014

Nossos filhos

A gente sempre repara nas crianças aqui em Zürich. Talvez a criação aqui seja igual a maioria dos lugares, não sei, mas definitivamente não é igual ao que estamos acostumados no Brasil. Eu explico: as mães brasileiras carregam os filhos na barriga até a idade adulta. Tenho a impressão que as pessoas no Brasil (e me incluo nessa, embora ainda não seja mãe) tratam seus filhos como se fossem de vidro e fossem se quebrar no primeiro tombo; como se houvesse sempre um perigo invisível iminente rondando; como se tivessem que protegê-los da própria vida. E não acho que isso tenha a ver apenas com a sensação de insegurança que as famílias vivem. Eu nunca tinha percebido que isso em alguns casos (me incluo de novo) fosse talvez um pouco desmedido até começar a reparar nas crianças em Zürich.

Na Suíça de forma geral, os pais criam os filhos para a vida, para serem independentes. Não é falta de afeto, de suporte ou algo assim, longe disso. Ao contrário, os pais se preocupam até demais com o papel deles como pais, pelo menos ao que me parece. Mas, para eles, olhar o filho levar um tombo ou bater a cabeça não são segundos de desespero. Todo mundo cai e levanta. Eles não alimentam pirraça, levam no colo na rua, não arrastam pela mão para não se afastarem. Ao contrário, as crianças se afastam (não a se perder de vista, claro) e vão descobrir coisas novas pelo caminho. Os pequenos  vão andando de bicicleta lá na frente, mesmo em ladeiras, e vão freando com os pezinhos, sem olhar pra trás. E não se ouve ninguém gritando "Fulano, cuidado!". As crianças vão andando sozinhas pra escola a partir de uns seis anos e são super encorajadas a isso. Normalmente, encontram no meio do caminho com um amiguinho que mora perto e vão juntos, com seus coletes fluorescentes. E pra onde se olha, lá estão elas, amarrando cardaços, vestindo o casaco, carregando mochila, conversando com os amigos...

Na escola, eles aprendem a costurar, cozinhar e tem aulas  de jardinagem. O resultado é que todo mundo sabe se  virar, fazer um quitute gostoso e cuidar das plantas. Eu, por exemplo, que não tive nada disso na escola e não tinha lá tanto interesse nessas coisas quando criança, sou super insegura na cozinha e acabo matando todas as minhas plantas mais cedo ou mais tarde.

Bem, e quando os filhos crescem, não tem martírio. Eles vão viver a própria vida. Se mudam de casa, viajam pelo mundo, estudam fora. Sem chororô. Toda essa ideia de criar os filhos sem muitas amarras soa muito interessante. Acho que saber ser independente fortalece a autoestima e a segurança frente as mudanças e aos percalços da vida. Mas, por outro lado, como saber se lá no final das contas isso é realmente melhor? E como desligar a chave da nossa própria insegurança? Como conseguir dormir com os filhos no mundo? Como não ligar pra saber se chegaram? Como não se arrepiar se eles sobem em um brinquedo alto e fazem malabarismo? Como não sofrer um pouquinho enquanto não voltam? 

E nesse meu tempo por aqui, tenho filosofado bastante comigo mesma a esse respeito, em como quero conduzir a criação dos meus filhos no futuro. Logicamente, deve ser muito mais fácil soltar um pouco a rédea das crianças quando se mora em Zürich. Mas, ainda assim, estou me propondo a  não ser aquela pessoa aflita, que  corta as asas dos filhos por puro medo e  tole a criatividade e a curiosidade deles. Vamos ver como vou me sair.

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